Segunda-feira, 25 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº959

IMPRENSA EM QUESTãO > CRÍTICA DA IMPRENSA

Será a mídia o primeiro poder?

Por Ivo Lucchesi em 04/09/2007 na edição 449

De antemão, tenho ciência do quanto o teor do presente artigo possa despertar a fúria de visões antagonistas. Nada contra. Afinal, se é prazeroso o aplauso majoritário, igualmente para outros não é menos estimulante provocar turbulências em setores cujas práticas se alimentam da lógica fechada, também conhecida como ‘razão dogmática’. Firmada a premissa, vamos ao enfrentamento do tema sugerido.

A julgar pelo montante de textos (entre artigos e comentários) que, há algum tempo, ocupa espaços deste Observatório, sou levado a crer que a máxima centrada no reconhecimento de ser a mídia o quarto poder é falsa. A rigor, ao menos na realidade brasileira, a mídia ocupa o primeiro poder.

Se é verdade que a mídia brasileira tem, por todos os métodos de manipulação, tentado (subliminar ou explicitamente) detonar o atual governo, há de, primeiramente, concluir-se que seu poder é muito limitado. A resposta dada pela população nas urnas, de modo expressivamente majoritário, deixa claro que a influência das estratégias tendenciosas da mídia no imaginário social não faz efeito. Se, por acaso, a mídia blindava o governo de FHC (deixo claro que dele nunca fui eleitor), a conclusão é também a de que a mídia não pôde evitar a vitória de seu opositor.

Amigos ‘aloprados’

O caminho mais adequado para uma análise desapaixonada, ou seja, liberta de qualquer sintoma associado à ‘cegueira hermenêutica’, indica a rememoração de fatos. Então vamos a eles.

Quem trouxe, em fevereiro de 2004, o episódio ‘Waldomiro Diniz’? Alguém filmou fato explícito de prática ilegal e entregou a um veículo de comunicação. Que órgão de comunicação não daria visibilidade ao fato? Em outro momento, um presidente de partido que integrava a base de sustentação do governo procura uma jornalista e lhe faz um depoimento-bomba a respeito de práticas ilegais, envolvendo altas cifras. Que veículo, no mundo, abortaria a publicação da matéria? Como conseqüência, alguém filma cena de suborno (episódio dos Correios) e envia a setores de comunicação. Em que lugar do mundo tal fato deixaria de tornar-se público?

Em seguida, CPIs foram instauradas, com transmissão direta. Nada menos que o publicitário-marqueteiro, responsável pela campanha eleitoral daquele que se tornaria presidente da República, afirma haver recebido expressiva soma de dinheiro, com depósito em conta no exterior. Que restaria à mídia fazer? Fingir que nada foi declarado? Na campanha para a reeleição, surge (e não foi por ‘furo’ de nenhum repórter) o fato do ‘dossiê dos recursos de campanha’, envolvendo a rede de amigos do presidente aos quais o próprio chamou de ‘aloprados’. Em que lugar do mundo, a mídia não tornaria público?

Clinton no Salão Oval

Apesar de todas a cobertura acerca dos fatos (e não foram poucos), mesmo admitindo que teriam sido utilizadas todas as estratégias de efeito subliminar, eis que vingou o segundo mandato, com igual êxito ao que fora alcançado no primeiro. Assegurada a legítima vitória, durante longos seis meses, o país ficou entregue a ‘ministérios virtuais’, aguardando a nova composição. Em qualquer lugar do mundo, a mídia teria perdido o princípio da tolerância. Todavia, o período foi atravessado em regime de ‘paciência franciscana’.

Quando tudo parecia contornado, irrompe a crise do ‘apagão aéreo’, do qual centenas de famílias brasileiras tiveram de prantear seus mortos, em função de dois acidentes com inúmeras características que apontam para negligência, disputa por lucros a qualquer preço, inépcia da parte de agentes fiscalizadores etc. Terão sido os acidentes patrocinados por setores da mídia?

Agora, um salto para trás. Quem iniciou a demolição do governo Collor? Foi a mídia? Que veículo recusaria publicar o depoimento-confissão de, nada menos, um irmão do presidente? A partir da publicação da entrevista, uma avalanche de denúncias e de fatos trouxe à tona o que se escondia nas entranhas do Planalto.

Mais recentemente, o STF no qual há inúmeros ministros nomeados pelo atual governo, agasalha a denúncia do procurador-geral da República, também nomeado pelo atual governo. A mídia deu o destaque que o fato merecia. Igualmente a mídia, nos EUA, deu ampla cobertura ao episódio no qual o presidente Clinton era alvo de denúncias quanto a práticas sexuais no Salão Oval da Casa Branca.

Palavras conclusivas

É compreensível que, no campo da política, paixões exacerbem posições (contra e a favor). Todavia, não é menos desejável que, em nome da saúde social, os setores exacerbados (obviamente, excluídos aqueles que, em algum nível, são beneficiados direta ou indiretamente) façam um exercício de autocontrole, evitando-se, com atos e discursos contaminados pela ira, a potencialização de ânimos cujo desfecho sempre traz esgarçamento societário e indução à violência. Para finalizar, a mídia noticiou o tal movimento ‘Cansei’. E daí? Pegou?

Que a mídia não é (e nunca foi) inocente, todos sabemos. Afinal, certa feita, escrevi que ‘a linguagem nunca é inocente’. Mídia é essencialmente linguagem; logo, não há nenhuma novidade quanto a isso. Contudo, a sentença não quer dizer que a mídia esteja sempre predisposta a subterfúgios e a práticas tendenciosas e desonestas. Evitar paranóia é sempre cuidado salutar.

******

Ensaísta, doutor em Teoria Literária pela UFRJ, professor titular do curso de Comunicação das Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha, Rio de Janeiro)

Todos os comentários

  1. Comentou em 08/09/2007 Ricardo Camargo

    Quanto ao caráter limidado do poder da mídia, penso que ele somente se coloca na medida e que a capacidade dela se fazer crida enquanto meio de reconstituição de fatos esteja mantida ou abalada: no caso, o fracasso tanto no impedimento de que o atual Governo fosse reeleito quanto na conversão do ‘Cansei’ na nova versão da ‘Marcha da Família com Deus pela Liberdade’ deu-se pela crise de credibilidade por que passam as empresas de comunicação social no presente momento. Mas não podemos desprezar o papel que teve a cadeia de jornais de Hearst em desencadear, no final do século XIX, a guerra entre EUA e Espanha, ou a atuação da Tribuna da Imprensa e, mesmo, do Correio da Manhã, na deflagração do Movimento de 1964. A questão, pois, é da credibilidade e da tênue fronteira entre a informação e a propaganda, algo muito enfatizado na teoria, mas posto de lado, na prática.

  2. Comentou em 08/09/2007 ivo lucchesi

    Reproduzo aqui o comentário enviado para outro artigo:
    (…) quero declarar, publicamente, e, em especial, ao Sr. Cid Elias Carneiro, que fui educado para, em hipótese alguma, desejar a corrosão de alguém. Esse princípio o sigo até hoje, à beira dos 60 anos. Com isto, minha única intenção se destina à preservação da liberdade de pensamento, sem que o custo de tal direito represente a exacerbação de ânimos cujo desfecho é sempre o horror das tiranias. A prática da democracia civilizada passa, obrigatoriamente, pela capacidade de os contrários exercerem o livre direito de se manifestarem em bases puramente intelectivas. Para tanto, é indispensável o abandono de armaduras que apenas alimentam forças destrutivas das quais a civilização já colheu centenas de exemplos deploráveis. Assim, tentemos o diálogo, liberto de rusgas que, a nada, de edificante conduzirão.

  3. Comentou em 08/09/2007 Cid elias

    Senhgor lucchesi, afirmo que o senhor está mentindo. O bom é que mentira tem perna curta. A verdade está aí, pense bem no que escrevestes…Eu estava debatendo com o André quando o senhor se meteu e dejetou o troço que segue(para tirar quaisquer dúvidas). Não sei, talvez tenhas algum problema particular, alguma disfunção hormonal, sei lá…Eu afirmo que, sem ser citado, o senhor ivo lucchesi ofendeu com termos de baixo calão, e ACUSOU levianamente a mim e a outros leitores do OI. Vou lhe ‘relembrar’, para não dizer outra coisa:<>‘ivo lucchesi , RJ-RJ – professor universitário -Enviado em 6/9/2007 às 11:32:11 PM Caro André, não se espante quanto ao ‘rebaixamento cultural’ que parece existir. A rigor, a questão é outra: dada a seriedade com que se conduz, há anos, o OI, há uma ‘tribo’ que, como mente terrorista, é guiada por ‘lavagem cerebral’, associada a identidade falsa. Assim, qualquer comentário (ou artigo) que se insurja contra o ‘governo messiânico’, a tribo da ‘blindagem’ vem com a retórica da ‘desqualificação’, ou com dados estatísticos, planilhas etc. Para esses casos, típicos da patologia fundamentalista, o ideal é, em caso de resposta, não levar a sério. Aqui, aparecem ‘hoteleiros’ instrumentalizados(como é, CARA-PÁLIDA?) cozinheiras que citam Foucault, dentre outros espécimes variados. Este é o nosso país…’ ***Quem escreve o que quer, lê o que não quer, simples.

  4. Comentou em 08/09/2007 Cid elias

    Senhgor lucchesi, afirmo que o senhor está mentindo. O bom é que mentira tem perna curta. A verdade está aí, pense bem no que escrevestes…Eu estava debatendo com o André quando o senhor se meteu e dejetou o troço que segue(para tirar quaisquer dúvidas). Não sei, talvez tenhas algum problema particular, alguma disfunção hormonal, sei lá…Eu afirmo que, sem ser citado, o senhor ivo lucchesi ofendeu com termos de baixo calão, e ACUSOU levianamente a mim e a outros leitores do OI. Vou lhe ‘relembrar’, para não dizer outra coisa:<>‘ivo lucchesi , RJ-RJ – professor universitário -Enviado em 6/9/2007 às 11:32:11 PM Caro André, não se espante quanto ao ‘rebaixamento cultural’ que parece existir. A rigor, a questão é outra: dada a seriedade com que se conduz, há anos, o OI, há uma ‘tribo’ que, como mente terrorista, é guiada por ‘lavagem cerebral’, associada a identidade falsa. Assim, qualquer comentário (ou artigo) que se insurja contra o ‘governo messiânico’, a tribo da ‘blindagem’ vem com a retórica da ‘desqualificação’, ou com dados estatísticos, planilhas etc. Para esses casos, típicos da patologia fundamentalista, o ideal é, em caso de resposta, não levar a sério. Aqui, aparecem ‘hoteleiros’ instrumentalizados(como é, CARA-PÁLIDA?) cozinheiras que citam Foucault, dentre outros espécimes variados. Este é o nosso país…’ ***Quem escreve o que quer, lê o que não quer, simples.

  5. Comentou em 05/09/2007 ivo lucchesi

    Conselho à prezada publicitária:
    Faço meu o conselho seu, isto é, mantenha-se na sua função de ‘fazedora de anúncios’ e não se meta a exercer o julgamento crítico, tarefa para a qual não se preparou intelectual e profissionalmente. Sinto muito: sou professor de Comunicação. Escrevo sobre questões relativas à area na qual atuo. A senhora, não.
    De resto, sei bem qual é a fórmula que, no OI, agrada certa platéia: escrever a favor do governo ou contra a Rede Globo. Todavia, essa fórmula em nada me estimula. Sempre optei pela vaia, em lugar do aplauso. Sinto-me mais livre com a primeira. Entendeu? Aos demais, continuo propondo o desafio: a discussão quanto aos efetivos argumentos que constam no artigo. Fora isso, é blá-blá-blá…

  6. Comentou em 04/09/2007 ivo lucchesi

    Aos dois leitores, breve comentário: se é para debater, elevemos a qualificação. Para tanto, ficam excluídas técnicas diversionistas. Até os ingênuos sabem que, entre mídia e poder, houve, ao longo da nossa história, parcerias pouco (ou nada) recomendáveis. Meu artigo põe foco em outra angulação argumentativa, a saber: as denúncias que têm crivado tempos recentes não foram promovidas por agentes midiáticos. Aproveito, também, para informar ao ‘leitor-jornalista’ que escrevo, quinzenalmente, para o OI, desde janeiro de 2002. No tocante a ‘perdão’, nada teria a dizer, pois, em nenhum momento, pensei em pedi-lo, já que nenhum delito pratiquei. Enfim, se for o caso, vamos debater, sem falsa contra-argumentação, o que, efetivamente, foi escrito e não o que nele não consta como tema. Ainda assim, agradeço o registro de ambos.

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