Segunda-feira, 20 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

IMPRENSA EM QUESTãO > MÍDIA RURAL

Só cifrões em campo

Por Geraldo Hasse em 16/11/2004 na edição 303

Nas bancas o número 1 da mensal Dinheiro Rural, ‘a revista do agronegócio brasileiro’, 116 páginas (24 de anúncios), R$ 8,90, Editora Três. O primeiro número contempla praticamente todas as grandes culturas agrícolas brasileiras. As matérias são curtas, sem novidades. Belas fotos, quase um release do agronegócio tupiniquim. Com meia dúzia de escribas dirigidos por Carlos José Marques, também chefe da redação da semanal IstoÉ Dinheiro, a redação talvez tenha dificuldade em fechar o segundo e o terceiro número, pois raspou a tulha. Sem falar que vêm aí uns meses ‘parados’ – safra, só em março.


Neste primeiro número, a capa mostra os cinco irmãos Bertin, os novos reis da carne, de Lins (SP); Julio Bozano, o rei do café gourmet, de Alfenas (MG); o império do dendê de Aloysio Faria, ex-dono do Banco Real; o boom da aviação agrícola, da clonagem, dos transgênicos, da biotecnologia; as madames da pecuária de grife; o que fazem e pensam os agrônomos filhos do ministro Roberto Rodrigues; e uma porção de matérias breves (uma ou duas páginas) sobre o que estaria dando dinheiro no campo. Há três matérias internacionais interessantes: uma meio hilariante sobre o presidente Bush, que aparece em foto de quatro colunas empunhando uma motosserra Stihl; outra sobre os cafés colombianos; e uma sobre o êxodo rural na China.


Suando sangue


O foco é restrito ao que rende $$. A revista mostra só um lado da atividade rural: o empresarial. É a transposição para o agro da receita da revista IstoÉ Dinheiro. A relação do homem com a natureza não existe. O meio ambiente foi esquecido. Não há suor. Os problemas sociais e políticos ligados ao campo são tratados en passant na entrevista do ex-ministro Delfim Netto e no artigo da última página assinado por João de Almeida Sampaio Filho, presidente da Sociedade Rural Brasileira, que diz o que os proprietários rurais precisam para prosperar. Enfim, a expressão do pensamento conservador. No final da revista, para não dizer que não se falou dos marginalizados pela agricultura empresarial, há uma matéria de duas páginas sobre a agricultura familiar e as esperanças do ministro Miguel Rossetto, da Reforma Agrária.


Nada de novo no front: essa receita é a mesma de revistas-vaga-lume do mercado editorial rural. Nelas se procura passar a idéia de que é fácil ter sucesso nessa área. A mesma versão otimista de Pero Vaz de Caminha, o escrivão da frota de Cabral, que mesmo sem comprovação chutou o ‘em se plantando, tudo dá’. Visita-se (visita-se?!) a propriedade rural, seleciona-se o que há de mais vistoso e põe-se na matéria-vitrine. O ego do entrevistado fica satisfeito e estamos conversados.


É o repeteco do jornalismo do business, um amontoado de matérias superficiais, em que as personagens nas suas melhores roupas defendem seu modus operandi, seu estilo ou sua fórmula. Que nada têm de original: tudo seria fruto da aplicação dos princípios da administração capitalista. Escalados para mostrar êxitos, os repórteres deixam em tudo um sabor de release. Nesse batidão, ninguém precisa ir ao campo para fazer ‘reportagem’. Quase tudo pode ser feito via computador. Aplica-se uma foto de estúdio sobre um fundo-lavoura e bola pra frente. O nome disso? Mistificação.


OK, vamos dar um desconto, trata-se do número 1. Não é fácil fazer revista rural. É preciso cobrir enormes distâncias para ter uma matéria. Isso custa tempo e dinheiro. Uma equipe tão pequena deve suar sangue para parir uma revista de 100 páginas. E sabe-se lá o esforço da equipe de vendas para conseguir 20 páginas de anúncios num mercado que se caracteriza pela concentração dos anunciantes.


Uma suspeita


São tão poucos os detentores de verbas publicitárias rurais que a Editora Abril abandonou esse segmento, depois de sete anos (1985-92) batalhando para viabilizar o Guia Rural. Hoje nessa área a Abril se limita a lançar suplementos especiais. Em meados do ano soltou uma AgroExame. Agora, para não deixar a Dinheiro Rural falando sozinha, colocou nas bancas uma Veja Agronegócio & Exportação, subproduto avulso, 90 páginas (20 de anúncios), editada por Marco Emílio Gomes. Explorando o sucesso das exportações brasileiras, Veja A&O apresenta matérias um pouco mais densas do que a Dinheiro Rural, mas também tem lá seu sabor Caras do campo, chegando ao ponto de apresentar Olacyr de Moraes, ex-rei da soja, como o novo rei do álcool. E lá está o ex-ministro Delfim Netto com um artigo na última página. Pra frente, Brasil. E tome pau no MST.


O reducionismo econômico da mídia rural não explora as contradições da realidade, não questiona o modelo agrícola-empresarial e não põe em dúvida o ‘pensamento único’. Isso é jornalismo? Está mais para propaganda. Avulsas ou periódicas, as revistas existentes no mercado estão tão parecidas que suscitam uma pergunta: qual seria o conteúdo da revista mensal Realidade, caso voltasse a existir? E outra: qual seria a pauta de um veículo rural realmente livre e independente? E mais uma: quem aproveita tudo isso? Tenho dúvidas se é isso que querem os leitores.


A esta altura, sobra uma suspeita: de que o maior beneficiário do lançamento de Dinheiro Rural venha a ser, justamente, a mensal Globo Rural, que circula há 19 anos e, apesar de crescentemente focada no agronegócio, ainda mantém resquícios da sua receita original, formulada por – quem diria – Sérgio de Souza, José Hamilton Ribeiro, Narciso Kalili e Paulo Patarra, da equipe que fez Realidade.

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Jornalista, ex-Veja, ex-Exame, ex-Guia Rural, autor de A laranja no Brasil (1987), O Brasil da soja (1997) e outros livros; está escrevendo uma história da ocupação agrícola do Cerrado

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