Quinta-feira, 19 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

IMPRENSA EM QUESTãO > JORNALISMO & SOCIEDADE

Sobre tabloides obscenos e domesticados

Por John Lloyd em 19/09/2011 na edição 660
Reproduzido do Financial Times, 16/9/2011; título original “Tame raunchy tabloids and media hit men”, intertítulos do OI, tradução de Jô Amado

No centro da longa linha de escândalos que se espalharam a partir do caso das escutas clandestinas no News of the World está a questão do interesse público e como – ou, na realidade, se – é atendido pelo jornalismo. Há muito tempo que os jornalistas proclamam que seu ofício serve a esse interesse ao proporcionar aos cidadãos a informação de que precisam para acessar o mundo público – e, em especial, as atividades de instituições poderosas, de indivíduos e daqueles que controlam o Estado.

O conhecido dilema é que esse tipo de informação nem sempre é o que interessa o público. Nick Denton, criador e diretor dos websites de fofocas “Família Gawker”, com sede em Nova York, colocou bem esse dilema numa entrevista que deu em março à revista The Atlantic: as pessoas, disse, “não querem comer os legumes maçantes” – significando as coisas de interesse público. Elas querem a carne. E essa carne é justamente o que oferecem seus sites: revelações e escândalos, sem um pingo de justificativa de interesse público, o que Denton menospreza.

A experiência mostra que ele tem uma boa razão em relação aos legumes. A maioria das pessoas realmente presta mais atenção aos escândalos do que às políticas do governo. Na verdade, um mercado para escândalos embrulhado na capa de um jornal ocupou uma importante posição de mercado no Reino Unido. O finado News of the World era nosso jornal mais popular por um motivo. Atualmente, o Sun empunha esse título.

Independênciasólida e agressiva

Enquanto conduz seu inquérito sobre escutas clandestinas e avalia como os jornais poderão ser regulados no futuro, [o juiz] Lorde Leveson diz que sua investigação repousa numa simples pergunta: “Quem vigia os guardiões?” Aqui, devemos considerar que os jornais que a maioria das pessoas realmente lê também são os mais suspeitos dos guardiões, para não falar do Guardian. Então, o que concluiria Lorde Leveson? Martin Moore, da Media Standard Trust – que liderou uma campanha contra a passiva Comissão de Queixas de Imprensa [Press Complaints Commission – PCC] – compilou recentemente uma lista de possíveis regimes regulatórios. Começa pela não regulação, deixando os jornais livres para criarem (ou não) seus próprios mecanismos de queixa e códigos éticos. Na outra ponta vem uma autêntica regulação – com um código estatutário, multas e restrições a partir da publicação.

Como destaca Martin Moore, quase todos os jornais se uniriam contra qualquer tipo de regulação totalmente criada pelo governo. Esta semana revelou que eles têm um amigo no primeiro escalão. Num discurso em Cambridge, o secretário da CulturaJeremy Huntdeixou claro que acredita ser a preferência do público por uma regulação independente, significando independente de políticos, mas também dos donos dos meios de comunicação. Assim, ofereceu aos jornais um trato: se conseguirem produzir esse tipo de acordo, o marco regulatório também cobriria todas as plataformas em que oferecem conteúdo – eliminando assim a possibilidade indefinível de que seu material de vídeo e áudio caia no âmbito da temível Ofcom [entidade britânica que atua como reguladora e fiscaliza a concorrência entre empresas de comunicação].

Esse trato pode ir longe. Uma independência sólida e agressiva – e principalmente, independência dos donos que investem em notícias – dificilmente será tolhida. No entanto, não está claro que mesmo um acordo desse tipo possa empurrar o jornalismo britânico em direção ao interesse público e para longe dos escândalos de Nick Denton.

Sociedade do Jornalismo

Na base, a obscena e polêmica imprensa de tabloides britânica é fácil de ler, mas difícil de governar. O caso do News of the World – revelado pelo Guardian, mas com a ajuda do New York Times e de outros jornais de prestígio – iluminou apenas uma fresta do que o atual regime autorregulatório disfarçava. Alguns membros do PCC veem o interesse público como bem servido pelo noticiário, pelas análises e investigações. Outros acham que a revelação de escândalos pessoais não só é necessária para a circulação, como é boa para a moral da sociedade.

Essa fresta torna-se pior pelo fato de que a reflexão no próprio jornalismo é muitas vezes rechaçada pelos jornalistas ingleses como comodismo. No entanto, como a profissão enfrenta uma série de graves desafios tecnológicos, financeiros e éticos, ela é cada vez mais fundamental. No momento, essa reflexão necessita uma forma institucional: uma nova Sociedade do Jornalismo, capaz de reunir os cada vez mais dispersos fios da indústria em um corpo que possa estabelecer padrões e administrar sanções.

A verdadeira independência

E, mais importante ainda: esse corpo poderia começar a tarefa de mapear aquilo em que o jornalismo se vem tornando, como pode prosperar e como (e por quem) é fundado. Um aspecto central seria uma postura missionária: procurar restabelecer o papel do jornalismo livre em nossa sociedade e no mundo. Isso significaria fortalecer a mídia como contrapeso às concentrações de poder – do Estado e privadas – mas também garantir que seu próprio poder, tão severamente mal usado pela News International ao intimidar a classe política durante as últimas décadas, seja canalizado para o bem público.

Jeremy Hunt corroborou esse ponto em seu discurso ao condenar escutas clandestinas e elogiar aqueles que as desmascararam: jornalismo, dizia ele, cura-se a si próprio. É um bom sinal, pois seria uma boa ideia evitar uma regulação formal. Mas seria uma ideia ruim deixá-la como está.

O início desse processo, como propõe Jeremy Hunt, é os jornalistas conquistarem a independência em relação aos donos dos meios de comunicação. Mas a verdadeira independência só pode ser encontrada no desenvolvimento de uma mentalidade e de uma prática nas quais os jornalistas possam traçar uma linha e dizer: há algumas coisas que eu não farei. Dessa forma, os donos dos veículos e seus editores passariam a contratar profissionais, e não sicários. Agora, através do debate comum, podemos consegui-lo.

***

[John Lloyd é colunista do Financial Times]

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