Segunda-feira, 19 de Fevereiro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº974

ENTRE ASPAS > JORNALISMO DIGITAL

Somos todos Willy Loman

Por Lucia Guimarães em 10/08/2010 na edição 602

Uma das falas mais conhecidas da dramaturgia americana é o lamento de Linda, mulher do caixeiro viajante da peça de Arthur Miller. Ao notar o desespero do marido Willy Loman, que não consegue sobreviver na economia modernizada do pós-guerra, ela pede aos filhos que prestem atenção a ‘uma coisa terrível que está acontecendo com ele’.


‘Attention must be paid’, a frase dita em A Morte do Caixeiro Viajante, tornou-se uma expressão comum de alarme e compaixão e me veio à cabeça, enquanto ouvia o editor de um site de notícias, gabar-se do tratamento dado aos jornalistas na sua redação. O site Gawker dá prêmios em dinheiro para matérias que atraiam mais tráfego. Um telão pendurado na redação vai atualizando as mais lidas com o nome dos autores. O fundador do Gawker, Nick Denton, um sujeito que faria o finado Arthur Miller vomitar, disse ao New York Times que vê seus repórteres postados diante do telão, como hominídeos embevecidos diante de um monólito.


O comentário foi inserido numa reportagem recente do New York Times sobre a notável ocorrência de desgaste físico e emocional no jornalismo online.


Segunda função


A expressão slow-blogging, uma referência ao movimento culinário slow-cooking, não é nova, assim como não é novidade que toda brusca mudança tecnológica e econômica desperta reações e manifestos para se tirar o pé do acelerador. Mas, depois de uma década de blogues e uma primeira geração de jornalistas formados online, as consequências vão além de tendinites, dores na coluna e obesidade, males comuns de quem passa a maior parte do dia ao computador.


A reportagem do Times relatou um alto índice de pedidos de demissão em redações como a do Politico, o site cujo repórter mais famoso acorda às 2 da manhã para começar a blogar.


Num debate inspirado pela matéria do Times – sim, o bastião da velha mídia continua dominando a conversa muito mais do que gente como Nick Denton gostaria –, a estação de rádio pública nova-iorquina dedicou meia hora ao admirável mundo novo do jornalismo online.


Repórteres de grandes jornais, depois de entregar suas matérias, gastam uma parte do dia repassando textos e links para sua rede de contatos sociais, pelo Facebook, Twitter e outros, numa tentativa de aumentar o tráfego, disse um dos convidados. A autopromoção passou a ser esperada do jornalista e o choque de gerações aí se torna inevitável.


Num grande jornal nova-iorquino, cujo nome não foi revelado por um entrevistado do programa, os editores ficaram tão assustados com a lista das reportagens mais lidas, composta de manchetes de crime, que entraram no site e manipularam a seleção para proteger sua reputação.


Um editor-chefe, também não identificado, mantém em sua mesa um spreadsheet com índice de comentários por matéria e dá sinais de que usa seus dados para promover repórteres.


Embora editores do New York Times digam a seus comandados para não se preocupar com o tráfego, o próprio jornal mantém a página www.nytimes.com/mostpopular, onde as matérias são listadas como mais lidas, mais enviadas, mais blogadas. Não é segredo nenhum que jornalistas se tornam cada vez mais escravos do algoritmo do Google e usam nas manchetes e nos leads palavras que façam seus textos subirem na página do maior site de busca.


Um conhecido jornalista carioca, que publica a maior parte do trabalho online, queixa-se comigo de que um número absurdo de horas do seu dia é devotado aos comentários de leitores e, como ele está num portal com grande tráfego, os donos de seu pedaço virtual exigem dele que seja mediador e sancione todas as centenas de e-mail diários. Dos comentários sensatos aos xingamentos à sua mãe.


É uma evolução curiosa da nossa atividade. O jornalista não é dono do conteúdo, não pode arrecadar publicidade. Mas é obrigado a ‘vender’ seu trabalho nas mídias sociais e a exercer uma segunda função, antes limitada aos encarregados das cartas à redação.


Revolução e tragédia


Embora escreva da idílica Paraty, numa varanda colonial visitada por beija-flores, quero acreditar que não sofro de passadismo profissional. Sou a primeira a comprar um sanduíche na esquina quando os prazos me impedem de contemplar no vapor os belos legumes orgânicos das fazendas da região de Nova York. Saio para entrevistas levando um gravador, uma câmera de vídeo e outra de fotos, não me iludo sobre a redefinição inevitável do meu ofício.


Mas, algo ou alguém tem que ceder. Se temos que bater de porta em porta para vender o nosso peixe, quanto tempo sobra para pescar? Qual a independência do repórter preocupado com algoritmos do Google e números de tráfego? Se o drama da peruca loura de Lindsey Lohan na prisão é igual ao drama do Golfo do México perante um algoritmo, para onde vai aquele sistema político inventado na Grécia antiga?


Attention must be paid.


O trágico Willy Loman já nasceu condenado na página, criado como manifesto moral num país cuja velocidade não conseguia acompanhar.


O jornalismo online é uma revolução bem-vinda e não precisa inspirar tragédias. Mas o alerta de Arthur Miller serve para o exército de Willy Loman criado pela nova mídia.


É preciso prestar atenção.

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