Domingo, 23 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
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IMPRENSA EM QUESTãO > NOTAS DE UM LEITOR

Suchopárková, a garotona de Ipánemá

Por Luiz Weis em 01/02/2005 na edição 314

Lá vai um palavrão: schadenfreude. É alemão para ‘rir da desgraça alheia’. Foi o que O Globo praticamente não parou de fazer desde que o fotógrafo Marco Antonio Cavalcanti descobriu quem era mesmo aquela dama fotografada ao lado de duas amigas nas areias de Ipanema, que o New York Times pôs na primeira página [veja abaixo] para ilustrar a matéria do seu correspondente Larry Rohter – sim, aquele mesmo que o presidente Lula quis cassar – sobre as ‘calorias à mostra’ nas ‘praias para esbeltos’.

O gancho da reportagem comportamental, como se diz, foi a pesquisa do IBGE que revelou que no perfil demográfico do país os que comem demais pesam mais do que os que comem de menos. A pesquisa deixou Lula zangado – não se sabe se tão zangado como ficou por causa da matéria de Rohter sobre o seu ‘hábito de bebericar’.

Mais um pouco e o leitorado inteiro do Globo aprenderia a pronunciar se não schadenfreude, Suchopárková, o sobrenome da checa naturalizada italiana Milena, 58 anos, 1m75 e 90 quilos, que as lentes do fotógrafo free-lancer John Maier, a quem o NYT sempre recorre, enxergaram como sendo a nova versão, calorificada, da garota de Ipanema.

Está certo que a ‘barriga’ da velha dama cinzenta que lavou a alma do Rio era boa demais para deixar de ser exposta, uma vez e outra e outra ainda, em clima de pré-Carnaval. Mas que a insistência foi ficando mais jeca a cada dia, lá isso foi.

O problema de fundo

Quem repôs as coisas no lugar foi o colunista Zuenir Ventura, chamando a atenção, no mesmo Globo, para algumas verdades elementares: Larry Rohter é um bom repórter, o New York Times é um grande jornal e o problema de fundo do erro de pessoa na foto é a sem-cerimônia com que um certo número de fotógrafos, em toda a parte, entra sem bater na privacidade alheia, registrando e divulgando imagens de pessoas comuns, a quem não se pergunta se aceitam serem clicadas para publicação (ou, como no caso de John Maier, nem o nome).

Pode-se alegar que muita gente, mas muita gente mesmo, adora aparecer em jornal. Melhor ainda em revista. E, glória das glórias, na televisão. Pode-se alegar também que nem sempre as circunstâncias permitem que o repórter-fotográfico explique ao fotografável porque quer fotografá-lo (e por falar nisso qual é o seu nome mesmo?) e peça licença antes de apertar o obturador.

Tanto pior. Em termos gerais, à exceção do caso daqueles que vão para a chuva sabendo que vão se molhar – as celebridades de todo tipo – e salvo quando o que o fotógrafo-jornalista mira é uma situação e não uma pessoa determinada, o direito de não ser usado sem licença para fins de informação se sobrepõe ao direito de informar. Não é à toa que para muitos povos, a fotografia ‘rouba a alma’ do fotografado.

O New York Times acabou se desculpando – a meias. Numa ‘Nota do editor’, lamentou que ‘as nacionalidades das mulheres na foto não foram verificadas’. Quer dizer que se tivessem sido e o fotógrafo ficasse sabendo que elas eram brasileiras, como convinha à matéria, então tudo bem?

***

P.S. O Globo traduziu o ‘International Journal’ mencionado na nota, como ‘editoria internacional’. Errou. O nome, que significa literalmente ‘diário internacional’ (no sentido de diário de um correspondente) é a retranca que o NYT usa para as matérias dos seus repórteres baseados no exterior que tratam de assuntos, por assim dizer, leves.

[Texto fechado às 16h43 de 31/1]

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