Sábado, 26 de Maio de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº988
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IMPRENSA EM QUESTãO > O FATO E A EDIÇÃO

Sutilezas do noticiário econômico

Por Luciano Martins Costa em 18/12/2008 na edição 516

Os jornais paulistas (Folha e Estadão) dão como manchete o novo pacote econômico do governo brasileiro de estímulo ao crédito. Já O Globo preferiu destacar na primeira página que o maior corte na produção de petróleo em todos os tempos não provocou aumento no preço do combustível.


As duas notícias se complementam com uma terceira – a previsão do ministro das Minas e Energia, Edison Lobão, de que o preço da gasolina deverá cair no Brasil nos próximos seis meses.


Todos esses acontecimentos são bem recebidos pela imprensa.


Serão quase 95 bilhões de reais disponíveis para crédito bancário no ano que vem. Os recursos deverão alterar o atual cenário de concorrência entre as instituições financeiras, dando maior poder de fogo aos bancos oficiais, especialmente Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal.


Por enquanto, a imprensa ainda não registra queixas dos bancos privados, que há dois meses encontraram bastante espaço para criticar a medida provisória número 433, que autoriza o Banco do Brasil e a Caixa a adquirirem outras instituições financeiras.


O setor bancário privado teme que os bancos oficiais saiam muito fortalecidos da atual crise e são discretamente apoiados pelos jornais. Em geral, as medidas de ampliação da competitividade de estatais são vistas pela imprensa como ingerência indevida do governo nos mercados.


Bater bumbo


A crise tem levantado questões sobre o papel do Estado na economia, mas as costumeiras pregações sobre a auto-suficiência da iniciativa privada andam ausentes das páginas dos jornais.


Nas edições de quinta-feira (18/12) também circula a notícia de que muitos investidores brasileiros foram apanhados no golpe do ex-presidente da Bolsa Nasdaq, Bernard Madoff, mas, segundo a imprensa, ninguém ainda apresentou queixa [ver ‘A imprensa e o golpe de mestre‘].


Os jornais não apostam se a causa de tamanha discrição é o constrangimento por haver caído em armadilha tão conhecida ou pela possível ocorrência de irregularidades na transferência de capitais para o exterior.


O noticiário sobre a queda do preço do petróleo faz coro com a indicação do ex-governador do estado de Iowa Tom Vilsack para a secretaria da Agricultura do governo de Barack Obama. Vilsack é defensor do etanol brasileiro e já se manifestou favorável às fontes alternativas de combustível.


O noticiário é favorável ao Brasil, mas a imprensa tem evitado bater o bumbo. Afinal, o atual presidente da República já conta com índices elevados de aprovação e, como se sabe, imprensa é sempre de oposição.


***


Duas histórias exemplares


O Globo entrevistou a família do agricultor Daniel Manoel da Silva, que, mesmo tendo perdido todos os seus bens com o deslizamento de terra que destruiu sua casa, devolveu os 20 mil reais encontrados num casaco que recebera como doação. O jornal carioca faz uma comparação com outra família, a de Rogério Longen, um dos voluntários apanhados roubando donativos destinados às vítimas da chuvas calamitosas em Santa Catarina.


Daniel Silva perdeu um irmão e quatro de seus netos, entre eles dois bebês, quando a enxurrada destruiu a propriedade onde morava, na localidade de Ilhota. Sua casa e uma pequena fábrica de cachaça, além de suas seis vacas leiteiras, foram levadas pelas águas. Ainda assim, vivendo de favor em casa de amigos e sem recursos para recomeçar a vida, o agricultor não hesitou em devolver o dinheiro encontrado na manga de um casaco que havia sido enviado por doadores.


A família Silva ganhou celebridade. Uma das filhas de Daniel, que inicia a carreira de modelo em São Paulo, tornou-se famosa instantaneamente e já recebe propostas que devem alavancar sua carreira.


Pela maneira como a história da família é contada pelo jornal, o agricultor não terá dificuldade para encontrar ajuda para reerguer suas finanças. Trata-se de um caso exemplar para uma imprensa sempre ávida por bons enredos.


Já na outra família, aquela que ganhou a triste notoriedade por se aproveitar de donativos enviados aos flagelados, o relato é oposto. A mãe de Rogério Longen, que sofreu uma fratura quando a enchente invadiu sua casa, condenou publicamente a atitude do filho e da nora. Rogério rompeu com a mãe, vai responder na Justiça por furto e teve que devolver os donativos que havia levado.


Parece novela?


Anotem o nome da jovem modelo: Isabel Cristina.

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