Sexta-feira, 15 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

ENTRE ASPAS > REDE GLOBO

Telejornalismo leniente com a repressão policial

Por Maurício Caleiro em 15/12/2009 na edição 568

A cobertura, pelos telejornais da Rede Globo, da repressão policial aos protestos pelo impeachment do governador José Roberto Arruda (DEM-DF), em Brasília, suscita relevantes questões para o exame da relação entre jornalismo, violência e representatividade social.

No dia mesmo do ocorrido, a estrutura das matérias pouco se alterou, seja no Jornal Nacional ou nos noticiosos da Globo News: descreve-se, com imagens e palavras, o confronto ocorrido, contextualizando-o no bojo do protesto contra Arruda; são entrevistados ‘especialistas’ e fontes oficiais condenando a forma como o protesto foi feito; ouve-se, de forma breve, uma vítima da violência; e é cedido um tempo consideravelmente maior para a explicação das autoridades (que atualmente em Brasília,devido ao vácuo político provocado pelo ‘panetonegate’, limitam-se a militares e fontes ligadas à Segurança Pública).

Essas opções editoriais, que privilegiam excessivamente as fontes oficiais – um problema central e recorrente no telejornalismo ‘global’, como apontam estudos recentes do professor Mauro Porto (Tulane University, EUA) – acabam por construir uma narrativa ‘romanceada’ dos acontecimentos, com começo, meio e fim e direito a moral da história. Resumidamente: um bando de jovens ‘radicais’ extrapola no exercício do seu direito ao protesto, a polícia é obrigada a intervir para garantir o direito de ir e vir, o uso da força é necessário devido à reação, mas ao final a ordem é restabelecida – e é isso que importa.

Pauta restrita

Convém sublinhar que a denominação ‘um grupo de jovens’ para designar um conjunto de cidadãos que protestam após um caso escandaloso de corrupção estabelece uma clara distinção axiológica, no âmbito do discurso, à qual vem somar-se o tom indisfarçavelmente preconceituoso com que o telejornalismo da emissora os enfoca (na edição das 18h do Em Cima da Hora, a apresentadora Leilane Neubarth chega a afirmar peremptoriamente que ‘não há nada de pacífico’ no protesto deles – isso num momento em que se limitavam a entoar palavras de ordem). Sequer sendo propriamente retratados, são, portanto, julgados a priori.

A esse bando de manifestantes não pacíficos e praticamente sem voz contrapõem-se as longas explicações de uma autoridade militar claramente preparada para fornecê-las – talvez não propriamente com argumentos, mas, com certeza, com uma fala mansa, pausada, bem encadeada e plena de racionalidade. A contradição entre tal discurso e a ação excessivamente violenta da polícia é evidente, mas os telejornais da Globo não a enfocam.

Há razões para suspeitar que o padrão de abordagem acima descrito, com uma ou outra variante, seja mais ou menos o mesmo adotado pela maioria dos telejornais do país. Pois, como apontou o cientista político Fernando Latman-Weltman, da Fundação Getúlio Vargas, em recente congresso da Compolítica, a repetição de modelos de abordagem pelo jornalismo televisivo brasileiro tem sido um dos empecilhos não apenas para a representação de certos atores sociais, mas para o fornecimento de uma visão mais elaborada e complexa das questões em conflito em nossa sociedade.

Confrontados com avaliações semelhantes às acima desenvolvidas, os profissionais de imprensa reagem, com frequência, acusando seus críticos de desprezo ou pouca atenção às dinâmicas práticas que regem o exercício do jornalismo televisivo, modalidade que – notadamente em relação a ‘notícias quentes’, se desenvolve sob uma pauta tornada restrita pela intensa pressão de tempo e espaço. Há também, é evidente, a pressão dos interesses políticos e empresariais, mas, certamente por não ser de bom tom, estes eles não mencionam.

Base de sustentação

Claro está que levar em conta a dinâmica concreta na qual se dá o exercício do jornalismo televisivo é condição sine qua non para a produção de análises equilibradas e para o exercício de uma crítica verdadeiramente construtiva. A devida atenção para tais condicionantes, no entanto, não transforma os transtornos inerentes à produção de matérias televisivas em álibis que legitimizariam práticas jornalísticas questionáveis.

Em primeiro lugar porque, como aponta com o brilho costumeiro Sylvia Moretzsohn, no livro Jornalismo em ‘Tempo Real’ – O Fetiche da Velocidade (Editora Revan, 2002), são precisamente as razões que estruturam tais pressões sofridas pelo jornalismo que devem ser questionadas, se se quer efetivamente aprimorá-lo.

Em segundo lugar porque, mesmo de acordo com a atual concretude dos modos e práticas do telejornalismo, a Rede Globo é um grupo comunicacional com recursos materiais, humanos e tecnológicos suficientes para multiplicar os enfoques de suas pautas de modo a fornecer uma visão mais ampla e diversificada de tais acontecimentos. Não o faz por deliberada estratégia editorial, a qual, na atual gestão, privilegia a difusão da visão de mundo dos gestores do conglomerado comunicacional em detrimento de um jornalismo profissional de fato – já que este, apesar da aparente excelência técnica, está subordinado a um fator ideológico evidente, apesar de devidamente escamoteado.

Na verdade, no caso em questão, o grau de violência desnecessária e abusiva aplicado pela PM de Brasília contra civis desarmados e que não apresentavam resistência – incluindo repórteres – foi tamanho que obrigou algumas redes televisivas a uma correção de abordagem ao longo da cobertura (tanto os vídeos de tais cenas – incluindo estudantes sendo gratuitamente pisoteados pela cavalaria da PM – quanto a cobertura mais incisiva levada a cabo pela Record podem ser conferidas aqui no blog do jornalista Luis Nassif.

Trata-se, claramente, de uma exceção, propiciada tão-somente pela profusão de imagens documentando a ação abusiva da polícia (significadamente, em um caso causado justamente por vídeos flagrando políticos em atos pra lá de suspeitos).

Pois há evidências várias de que, livre da oposição ‘sociedade organizada civil versus regime militar’, o telejornalismo brasileiro passou a adotar, notadamente a partir de meados dos anos 1990, um discurso caudatário da criminalização das manifestações sociais – discurso este que se sedimentaria no modelo monocórdio de cobertura dos confrontos entre manifestantes e forças oficiais.

A base de sustentação de tal discurso é a afirmação– como princípio, correta – de que o direito constitucional de ir e vir dos cidadãos se sobrepõe ao direito de um grupo consideravelmente menor de protestar. A tal premissa se alia a justificação de que o emprego da força seria, nesses casos, portanto, justificável.

Comodidade desossada

Há, porém, duas falácias totalitárias por trás de tal lógica. Primeiro, porque as duas práticas – o ir e vir e o direito ao protesto – não são necessariamente auto-excludentes: no mais das vezes, pode-se perfeitamente garantir, a um tempo, o direito de ir e vir das pessoas e o direito de protestar de cidadãos compreensivelmente indignados pelos sucessivos escândalos de corrupção. Esta primeira falácia procura dar sustentação racional, ainda, a um ordenamento das manifestações populares que, na prática, minimiza seus efeitos e esvazia o seu poder – afinal, de um ponto de vista filosófico, insurgir-se de acordo com regras predeterminadas não é protestar, mas deixar-se cooptar. O esvaziamento do poder efetivo dos protestos populares nos Estados Unidos nas últimas duas décadas – concomitante à regulação extrema de tais manifestações – é um dentre muitos exemplos dos efeitos neutralizantes que vêm no bojo de tal processo.

Segundo, porque o emprego da força deve ser obrigatoriamente antecedido pelo esgotamento das negociações e das técnicas de dissuasão – e caso sua aplicação seja realmente inevitável, deve ser utilizada de forma técnica, objetiva e na medida suficiente para cumprir o objetivo traçado. Portanto, sem os excessos sádicos que tiveram lugar na capital do país.

Infelizmente, não é isso que se tem observado; e três episódios recentes – a repressão aos estudantes na USP, aos que protestavam contra a governadora Yeda Crusius (PSDB-RS) em Porto Alegre, e agora aos estudantes em Brasília – têm em comum a exacerbação da violência policial e sua aplicação contra manifestantes pacíficos. (E, ainda que queiramos evitar entrar, neste espaço, no Fla-Flu político ora em andamento, é forçoso apontar que, nos três casos, os governantes responsáveis pela ação de sua Polícia Militar pertencem à aliança DEM-PSDB – ‘coincidência’ que os telejornais não têm feito a mínima questão de correlacionar e analisar.)

Similarmente ao que foi dito em relação a modos alternativos de repressão policial (modos estes que deveriam ser a regra), é plenamente possível, a despeito das pressões de tempo, espaço e interesses políticos e comerciais, oferecer, na cobertura de manifestações coletivas e de episódios de uso de força policial excessiva contra manifestantes, enfoques jornalísticos que levem em conta múltiplos ângulos da questão – e não necessariamente priorizem o discurso oficial. Este vício do telejornal nativo o torna previsível, repetitivo e conservador, na acepção precípua do termo.

É urgente, portanto, para a própria revitalização do debate público no Brasil, que os responsáveis pelo jornalismo televisivo abandonem essa comodidade desossada que impinge como norma ouvir invariavelmente vozes que legitimam o emprego da violência oficial, substituindo-a por enfoques investigativos mais diversificados que incluam diferentes atores sociais e priorizem, acima de tudo, o interesse pelo diálogo e pelos valores da democracia.

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Jornalista e cineasta, doutorando em Comunicação pela UFF; seu blog

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