Sexta-feira, 18 de Agosto de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº954

IMPRENSA EM QUESTãO > MÍDIA NOS EUA

Temporada de liquidação de jornais e revistas

Por Arnaldo Dines, de Nova York em 16/01/2007 na edição 416

Um pequeno item nos noticiários financeiros americanos de quarta-feira (10/1) informava que a companhia E. W. Scripps estava estudando a venda de sua divisão de jornais. Em comparação com a cobertura econômica naquela mesma semana sobre a queda no preço do petróleo, ou o lançamento do iPhone da Apple, a notícia passou quase despercebida. Mas para quem acompanha o mercado financeiro, as ações da empresa subiram no mesmo dia quase 4% na Bolsa de Valores de Nova York.

A razão para tamanha disparidade é que, nos mercados financeiros, palavras como jornal ou revista são hoje sinônimos de prejuízo, haja visto o mísero desempenho das ações da The New York Times Co., que publica o The New York Times e Boston Globe; da Dow Jones & Co., controladora do The Wall Street Journal e Barron´s, ou da Tribune Co., dona do Los Angeles Times e do Chicago Tribune. Uma comparação gráfica do desempenho das ações dessas companhias aponta em uma única direção: para baixo.

No caso da E. W. Scripps, a empresa possui uma lucrativa divisão de canais de televisão por cabo, especializada em culinária, decoração e turismo. Seus principais canais são The Food Network, Home and Garden Television (HGTV) e The Travel Channel. Além destes, a empresa atua também na área de compras na internet com o website Shopzilla.com, que funciona como um instrumento para a comparação de preços para consumidores.

A realidade é que o desempenho da divisão de jornais da empresa, que consiste em 20 veículos de médio porte nos Estados Unidos, é literalmente deprimente, ao menos na visão dos investidores. Enquanto em 2000 os jornais contribuíam com 55% do faturamento da companhia, em 2006 a porcentagem caiu para 25%. Em uma comparação inversa, a contribuição dos canais de cabo subiu de 17% para 64% nos últimos 5 anos.

Em outras palavras, programas de culinária, decoração e turismo em canais de cabo, mesmo com distribuição limitada, dão mais lucro do que jornais diários como o Rocky Mountain News, o mais importante jornal na cidade de Denver, no estado de Colorado, ou o Ventura County Star, que circula numa das mais afluentes áreas urbanas da Califórnia.

Prestígio comprado

Este quadro parece ser uma constante em empresas de comunicação. Nos casos de conglomerados de maior porte, como a Time Warner, a divisão de mídia impressa da empresa, conhecida como Time Inc., possui algumas das revistas de maior circulação no país – como People, Sports Illustrated e Time. Mesmo assim, a divisão vem passando pela faca empresarial com consecutivas reduções de pessoal, inclusive na área editorial, e com a venda de revistas de menor circulação, independente de sua lucratividade.

Outro multiconglomerado, a News Corp. do magnata Rupert Murdoch, viu suas ações subirem aproximadamente 30% em um ano graças à aquisição do website MySpace.com, após amargar anos de prejuízos no seu tablóide New York Post e com a baixa lucratividade do The Times, de Londres. O interessante é que por enquanto a lucratividade do MySpace.com é mínima. É tudo uma questão de percepção de futuro.

O problema se agrava com a falta de entusiasmo dos possíveis compradores de empresas jornalísticas. A Tribune Company, por exemplo, dona do Chicago Tribune e do Los Angeles Times, entre vários outros jornais, foi colocada à venda em setembro do ano passado. Só que as propostas de compra vieram tão anoréxicas que a empresa está agora considerando a venda individual de suas publicações.

Indiscutivelmente, existe interesse pelo Los Angeles Times por parte de alguns bilionários – principalmente David Geffen, parceiro de Steven Spielberg na empresa Dreamworks, de produção de filmes. Mas, neste caso, se trata pura e simplesmente do prestígio de possuir um jornal numa cidade como Los Angeles. Enquanto isto, o resto do acervo jornalístico da empresa fica condenado à venda no varejo, por preço de liquidação.

Tradição jornalística

A questão que se coloca é se existe uma solução para este quadro. Infelizmente, a resposta parece ser negativa. Por um lado, a previsão de circulação de jornais e revistas aponta continuamente para baixo, e, por outro, a transição para a internet ainda não se sustenta economicamente em termos publicitários.

O paradoxo da situação é que a queda brutal no valor dessas empresas criou uma oportunidade para os herdeiros dos fundadores readquirirem o controle acionário, por meio da compra de ações no mercado. Circula um boato, por exemplo, de que a família Sulzberger, controladora da The New York Times Co., está pensando em fazer uma proposta para recomprar o restante das ações da companhia e fechar seu capital. Nesse ínterim, continuam a enxugar o quadro de funcionários como indica o anúncio divulgado na quinta-feira (11/1) de mais uma leva de demissões na redação do Boston Globe. Este jornal é um dos alvos prediletos da diretoria da empresa por não ter o mesmo desempenho de seu primo rico, o The New York Times.

Já no caso da E. W. Scripps, os netinhos e bisnetinhos de Edward W. Scripps, que fundou a empresa em 1878, preferem lavar as mãos de qualquer pretensão de manter viva a tradição jornalística da empresa. Ao contrário, a opção escolhida é vender o peixe a preço de banana o quanto antes, com medo de que o cheiro possa afugentar os potenciais fregueses.

Todos os comentários

  1. Comentou em 18/01/2007 Luís Alberto Alves

    A imprensa brasileira tem seus gargalos. Algumas empresas de comunicação estão penduradas na Previdência, por falta de recolhimento de INSS de seus funcionários. Porém, fazem troca de barganha com o governo e nada acontece. Às vezes recebem ajuda, como a Globo, que pegou alguns milhões do BNDES, na primeira gestão Lula. O problema se baseia na falta de gente competente na área administrativa. Com raras exceções, a diretoria é composta de amadores, que usam o jornal como moeda de troca com políticos e o mercado publicitário. Não se pode colocar um funileiro para administrar uma padaria. Ou seja, tem muito administrador de empresa de comunicação, que nem sabe que Guttemberg inventou a máquina que possibilitou a impressão de livros. Assim, o caminho é o abismo. São poucas as empresas, que têm um talento igual ao Mino Carta no comando. A maioria se preocupa apenas com a vaidade, que o diga alguns setores do grupo Abril. Essa história se repete nos Estados Unidos. Leitor gosta de informação e entretenimento. Profissionais de comunicação sabem oferecer essa comida, mas seus patrões desconhecem o tempero e os ingredientes desta refeição.

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