Segunda-feira, 14 de Outubro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1058
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ENTRE ASPAS >

Terra Magazine

22/01/2008 na edição 469

ENTREVISTA / GIL
Claudio Leal

Gilberto Gil: ‘A imprensa é reducionista’, 21/1

‘O ministro da Cultura, Gilberto Gil, revela entusiasmo com a recente viagem à Amazônia, acompanhado pelo ministro de Assuntos Estratégicos da Presidência, Roberto Mangabeira Unger.

Na semana passada, o filósofo e ex-secretário de Planejamento de Longo Prazo (pasta extinta) organizou uma comitiva do governo à região Norte para debater o desenvolvimento sustentável da Amazônia.

Em conversa com Terra Magazine, ao fim de sua coletiva à imprensa durante a São Paulo Fashion Week, no sábado 19, Gil avaliou a importância da viagem:

– Pra mim, ela foi ilustrativa em vários sentidos. (…) Ilustrativa porque nós constatamos que a Amazônia, especialmente o Estado do Amazonas, é hoje uma fronteira avançada no sentido do relacionamento, do estreitamento que precisa ser feito entre os setores atrasados da produção e os setores avançados.

Em debates no Pará e no Amazonas, Mangabeira apresentou o primeiro trabalho desenvolvido no governo Lula: o Projeto Amazônia. Nesse documento, esboça os eixos de ocupação e exploração da floresta. Prevê o planejamento do transporte, da matriz energética, da mineração e do uso da água.

‘O bioma Amazônica está ao lado do semi-árido nordestino. Numa região, sobra água, inutilmente. Na outra região, falta água, calamitosamente. O ingênuo indagará: por que não transportar de onde tem para onde falta?’, diz um dos trechos que despertou polêmica. Em Manaus, Mangabeira Unger negou que estivesse propondo a construção de um aqueduto entre a Amazônia e o Nordeste.

As idéias do ministro de Assuntos Estratégicos receberam fortes críticas nos jornais brasileiros. Para Gil, que se incorporou à fase final da viagem, a cobertura da imprensa sobre o Projeto Amazônia é ‘reducionista’.

– A imprensa é reducionista! O trabalho da imprensa, o interesse prioritário da imprensa é o interesse industrial, é o interesse da indústria jornalística. Os outros interesses são secundários. (…) O modo como a imprensa brasileira, parcialmente, tratou os primeiros momentos dessa proposta do Projeto Amazônia é reducionista.

Na SPFW, a mais importante semana de moda do País, Gilberto Gil fez uma palestra/coletiva sobre a moda e a economia da cultura. Comparou a indústria brasileira da moda à Amazônia e seu ‘potencial não completamente realizado’.

Dois dias antes, em Salvador, anunciou a permanência no Ministério da Cultura, depois de ter anunciado seu afastamento para tratamento das cordas vocais. Foi tranqüilizado por sua fonoaudióloga. ‘A questão é não mais a perda vocal, mas o uso da voz’, explicou a jornalistas em São Paulo.

Perto de terminar a sessão de perguntas, uma repórter pediu ao ministro para definir a moda. Gil ponderou: ‘Não defino, a moda é plural’. Para ilustrar, recordou sua roupa na passagem de som, três dias antes, no Festival de Verão de Salvador.

– Fui para o ensaio com uma calça muito usada pelos meninos do Ilê Aiyê, na Bahia. É a calça do dia de minha iniciação no Opô Afonjá (terreiro de Candomblé em Salvador). Me sinto bem com ela, e tenho outras duas. Minha moda é assim: da calça do Ilê a esse terno Prada aqui…

A bancada dos jornalistas abandonou a sobriedade e se entusiasmou ao ouvir a palavra ‘Prada’. Gritos e aplausos. ‘Uh-hu, uh-hu!’. Gil voltou ao microfone:

– Ah, é? Vocês só gritam ‘uh-hu’ quando eu falo no terno Prada? Não vi a mesma reação com a minha calça. Essa é uma mentalidade colonizada que precisamos superar. Prada não é mais elegante que um turbante do Ilê Aiyê!

Leia a entrevista com Gilberto Gil.

Terra Magazine – Qual avaliação que o senhor faz da viagem à Amazônia com o ministro Mangabeira Unger?

Gilberto Gil – Pra mim, ela foi ilustrativa em vários sentidos. Mais que ilustrativa, ela foi uma injeção no entusiasmo. Ilustrativa porque nós constatamos que a Amazônia, especialmente o Estado do Amazonas, é hoje uma fronteira avançada no sentido do relacionamento, do estreitamento que precisa ser feito entre os setores atrasados da produção e os setores avançados. Ou seja, onde novas tecnologias, novas formas de gestão, novos modelos gerenciais e negociais podem se associar a setores como os de lá – populações indígenas, populações ribeirinhas, historicamente apartadas da fruição da riqueza etc. etc., mas extraordinariamente ricas na diversidade cultural, em capacidade empreendedora, em capacidade de associativismo. E isso tudo foi uma demonstração extraordinária para nós.

Nessa viagem, vocês tiveram a percepção de como o Estado deve se associar a esses grupos locais?

Primeiro, fazendo essa prospecção, tomando conhecimento nessa medida que nós fomos tomar conhecimento lá, porque, ao tomar esse conhecimento, terá necessariamente impulsos novos, no sentido das políticas públicas que contemplem esses setores que estão lá. Contemplem essa visão de integração entre tecnologias avançadas, o mundo da internet, o mundo do conhecimento contemporâneo e a dimensão social, digamos assim, historicamente apartada dessas populações. Enfim, a capacidade de novas formas de produção, artesanatos associados a novas tecnologias… É o ânimo que o Estado ganha ao ir lá conferir essas novas realidades. O ânimo que tem que ser traduzido agora em compromisso em novas políticas, em vontades políticas…

E qual foi o diálogo com a Cultura?

É isso, é pra o Estado brasileiro, o governo brasileiro no seu conjunto. Tava lá o ministério da Ciência e Tecnologia, tava lá o ministério do Meio Ambiente, tava lá o ministério da Cultura, tava lá o ministério da Indústria e Comércio, tava lá o ministério da Integração Nacional, tava lá o governo brasileiro.

Na imprensa, a gente lê muitas críticas…

Mas a imprensa é reducionista! A imprensa é reducionista! O trabalho da imprensa, o interesse prioritário da imprensa é o interesse industrial, é o interesse da indústria jornalística. Os outros interesses são secundários. É compreensível que sejam, mas esses interesses secundários refletem na forma de pautar. Refletem na forma de tratar as pautas brasileiras. O modo como a imprensa brasileira, parcialmente, tratou os primeiros momentos dessa proposta do Projeto Amazônia é reducionista.’

 

FEBRE AMARELA
Alexandre Xavier

Febre de pânico, 18/1

‘Atravessei a fronteira do Distrito Federal com Goiás no início do ano sem estar vacinado contra a febre amarela. E não estou febril e nem morri. Pensei em compartilhar esse relato com as pessoas que faziam fila em frente a um posto de vacinação do Rio de Janeiro nesta segunda-feira, mas iam me chamar de suicida. E eu ia chamá-los de malucos, já que o risco de se pegar febre amarela no centro do Rio é inexistente e, mesmo sem viajar para as áreas de risco, muita gente esperou HORAS para ser vacinado à toa. Depois de ver a reportagem da Globonews com a posterior cara de preocupada da apresentadora, cheguei à seguinte conclusão: brasileiro não só gosta de fila, como também gosta de tomar injeção. Qual a outra explicação? Medo? De fato a febre amarela é o principal assunto da mídia brasileira em 2008. É papel dela alimentar o pânico na audiência para vender mais jornal (só lembrar que quando o PCC ‘sitiou’ São Paulo, os sites de notícia ficaram entupidos, quando o avião da TAM explodiu, as revistas venderam mais e quando o Corinthians caiu, o diário Lance evaporou).

Mas a mídia não é a vilã dessa história sozinha; toda reportagem sobre a febre amarela traz o adendo com certo destaque de que ‘não há risco de epidemia’. Nos últimos dois meses, mais gente morreu devido a complicações respiratórias por causa da poluição endêmica de São Paulo do que devido à febre amarela. A febre amarela hoje é dos problemas menos graves do Brasil, por incrível que pareça. E mesmo assim anda causando tumulto.

O que falta mesmo é aparecer um mosquito que dissemine a febre do bom-senso. Uma epidemia de bom-senso faria deste um país muito menos doente (é claro que muito jornal e tevê por aí ia exigir vacina contra o bom-senso pra não perder leitor e audiência). Mas já que o vírus do bom-senso anda extinto, vacine-se contra a mídia de massa. A febre amarela é inócua perto dela.’

 

ENTREVISTA / QUÉRCIA
Claudio Leal e Raphael Prado

Quércia nega compra do SBT: ‘Não é nada disso’, 17/1

‘O ex-governador de São Paulo Orestes Quércia negou, em entrevista a Terra Magazine, que negocie com Sílvio Santos a compra do SBT. A notícia foi publicada ontem pelo site Jornalistas&Cia e comentada nesta quinta-feira na coluna Toda Mídia, do jornalista Nelson de Sá, na Folha de S. Paulo.

Correu pela internet a possível compra do SBT, mas Quércia atribui o boato à sua ligação com a empresa. ‘Sou afiliado deles’, diz.

A seguir, o diálogo com Orestes Quércia.

Terra Magazine – O senhor pretende comprar o SBT?

Orestes Quércia – Não, não. Não é nada disso.

De onde nasceu a notícia?

Gostaria de saber também. (risos)

O senhor não tem interesse?

Interesse eu teria, né? Mas… (risos) Quem não teria interesse em comprar uma televisão, né? Mas eu não tenho, nunca conversei com ninguém, nem teria condições de comprar uma televisão dessa.

Nem mesmo conversou com Sílvio Santos?

Não, não. É que eu sou afiliado deles. Eu tenho televisão em Campinas e Santos, que transmitem o SBT. Talvez, em razão disso… Sei lá.’

 

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Clique nos links abaixo para acessar os textos do final de semana selecionados para a seção Entre Aspas.

Folha de S. Paulo – 1

Folha de S. Paulo – 2

O Estado de S. Paulo – 1

O Estado de S. Paulo – 2

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