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Sexta-feira, 17 de Agosto de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1000
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ENTRE ASPAS > FIM DE SEMANA, 10 E 11/5

Terra Magazine

13/05/2008 na edição 485

DOROTHY STANG
Nélio Palheta

Tragédia amazônica, 11/5

‘O julgamento do fazendeiro Vitalmiro Bastos de Moura, o Bida, livre das acusações de mandar matar a religiosa Dorothy Stang, em 12 de fevereiro de 2005, é mais uma história amazônica. Ou apenas um capítulo da trajetória deste mundo de fronteira. História de impunidade e de fim de mundo.

Ninguém acredita na inocência de Bida, condenado a 30 anos de prisão em maio de 2007, agora absolvido olimpicamente. Com direito a sorrisos e quase festa dentro da sala do Tribunal do Júri, ele saiu para a liberdade com o anúncio de que haveria festa para recebê-lo em Altamira.

Fui o primeiro jornalista a chegar a Anapu naquele sábado caótico para o Pará-Amazônia-Brasil, depois que a notícia se espalhou pelo mundo. Cheguei em missão do governo do Estado, junto com a Polícia Civil. Havia uma multidão na praça central da cidade, cuja avenida principal é a própria Transamazônica, de onde derivam travessas. O aglomerado era mais por causa daquele gigantesco helicóptero militar pousado milagrosamente numa espécie de anfiteatro, no centro da praça, onde desembarcou Marina Silva.

A ministra estava na casa de Dorothy, não muito longe dali. A chegada da polícia causou mais alvoroço. Do meio do povo, uma voz me chama. Quem, ali naquele lugar até então desconhecido pra mim, poderia me conhecer? – pensei. Era o dono da farmácia em frente à praça. Um conterrâneo! Vigiense tem em todo lugar, até em palcos onde se desdobram histórias como essa. Ele tinha um telefone. Era o que mais eu precisava naquele momento para passar as primeiras informações à Coordenadoria de Comunicação do governo.

Infelizmente os afazeres em nome do governo impediram-me de chegar até no local do crime propriamente dito. Não podia me afastar da polícia e do único computador com internet na localidade, que requisitei ao Banpará, ao lado da delegacia improvisada num prédio comum, sem cadeia; o único telefone era tão-somente um orelhão na parte externa, por onde a imprensa do Brasil inteiro se comunicava comigo e com o delegado Waldir Freire, que assumiu ser o porta-voz – alguém com autoridade policial tinha que assumir aquele papel. Era pelo mesmo telefone que eu me comunicava com a equipe da comunicação do governo, de plantão em Belém, no Palácio dos Despachos.

O corpo de Dorothy chegou na noite do sábado. Ficou no necrotério do hospital local. Legistas fizeram as primeiras tomadas de dados ali mesmo. Constataram os seis tiros. Eu fiz uma lista dos papéis, anotações diversas, identidade civil, quase nenhum dinheiro, listas de telefones manuscritas de Dorothy. E a Bíblia – única arma que ela teria levantado para enfrentar os pistoleiros.

Tudo retirado de uma pastinha surrada de congresso, que ela usava e com ela foi recolhido pelos policiais. Havia telefone de políticos, líderes, religiosos. Pessoas das relações pessoais e de ativismo da líder religiosa. Devo ter essa lista em algum arquivo de computador. Deve ter sido um adereço no relatório do inquérito policial. Agora são informações mais emudecidas ainda com o resultado desse julgamento. Dorothy vestia uma bermuda branca (estava muito enlameada) e camiseta de um movimento popular; calçava tênis e meia de cano curto rósea.

Foi uma cena pesada. O corpo de Dorothy ali, cheio de furos. Uma imagem tensa pela história que encerrava; objeto de uma outra história que, infelizmente, continua com capítulos como esse do julgamento que absolveu Bida. O corpo de Dorothy chegou em Anapu no fim da noite. Não atraiu muita gente ao hospital.

Só na madrugada de domingo é que chegaram os primeiros jornalistas, os fotógrafos Paulo Santos e Raimundo Pacó, vindos por Altamira. Viajaram noite e madrugada pela Transamazônica. Ficaram me azucrinando para fazer a foto do cadáver. Acabamos brigando (no bom sentido) para que não se potencializasse a imagem negativa. Foto de cadáver é sempre ruim, muito embora a imprensa tenha banalizado. Como editor de Polícia de O Liberal, nunca publiquei foto de cadáver. Em Anapu, não se tratava de um assassinato comum. Paulo Santos fez a foto que varreu o noticiário, sob minha concordância como assessor de imprensa do governo.

Não comemos naquela noite os ovos fritos com pão e Coca-cola que encomendamos numa padaria porque ficaram prontos na hora que o corpo de Dorothy chegou. Foi difícil engolir o que seriam sanduíches, depois de tudo. Aquela imagem da religiosa sobre a pedra fria de marmorite, ensangüentada, sublimou a fome e agravou minha insônia naquela na madrugada de domingo. Não lembro ter deitado num colchão velho, azedo, coberto com um florão de chita literalmente rasgado e remendado como aquele. Eu e o delgado, na mesma cama (era a que restava, uma só), não dormimos.

Chovia torrencialmente. Ficamos elucubrando teorias jornalístico-policiais, ele registrando no laptop da polícia algumas informações e especulações. Às cinco da manhã pulamos da cama. Sob a chuva e a escuridão da madrugada, os policiais civis e militares tomaram uma pick-up rumo ao PDS onde Dorothy Stang foi morta. Fizeram 40 km de uma estrada de terra lamacenta em quatro horas. Retornaram só no fim da tarde daquele domingo com muitas certezas e algumas pistas que levariam à prisão do pistoleiro e ao mandante do crime. Afinal, era crônica de morte anunciada. Mais amazônica do que colombiana.

Foi um domingo tenso. No decorrer da manhã chegaram as equipes de televisão de Belém. A imprensa toda no meu calcanhar. O Brasil inteiro tentando falar com Anapu por um único telefone público. O ambiente chuvoso agravou ainda mais aquele cenário transamazônico vermelho de laterita lamacenta. Em Anapu não há hotel que se possa chamar de hotel. O banheiro e a privada ocupavam um cubículo ferruginoso – resultado da água quase intragável para o banho.

Muito menos há restaurante que se possa comer como num restaurante. Comemos um apelido de churrasco em frente a um posto de gasolina. E de lá vi uma cena curiosa: frangos tomando banho – o motorista de um caminhão gaioleiro, cheio de frangos, molhava as aves com uma mangueira. Era para amainar o calor.

O ar de Anapu naquele fim de semana tinha o calor das tragédias amazônicas que conhecemos com começo (ameaça), meio (mais ameaças, denúncias, inquéritos policiais, cobranças, às vezes nenhuma providência) e fim (quer dizer, assassinato). Tragédias desde os tempos dos colonizadores portugueses que escravizavam índios e não raro os matavam. Só mudaram os personagens, mas os índios continuam na fita.

Agora, o palco se chama Raposa/Serra do Sol. Religiosos também continuam em cena. Nos episódios do século XVII, principalmente a presença de Antônio Vieira; neste começo do terceiro milênio, Dorothy foi a personagem principal mais badalada, mas outros coadjuvantes igualmente cristãos já foram massacrados e outros estão ameaçados. Passado e presente com um só viés: a ocupação e a exploração de riquezas; das terras, minérios e madeiras. E gentes.

Depois de passar mais releases (sim, Anapu já tinha pelo menos o Banco do Pará com internet, naquela época) para os jornais de Belém e para a Coordenadoria de Comunicação, que se encarregou de abastecer a imprensa do resto do país e as agências internacionais, enfrentamos a Transamazônica, por meio de chuva e muitos precipícios. Um roteiro de 100 quilômetros até Altamira. Os policiais dormiam, tão cansados quanto eu. Mantive-me acordado, junto com o motorista, é claro.

Histórias de assaltos na Transamazônica também são comuns, ouvi dizerem em Anapu. A certa altura, ladeira acima, luzes de carro parado. Acordei os policiais. Era o caminhão de frangos engatado num lamaçal. Só sairia na manhã seguinte, certamente com menos frango, como previra o motorista na sua parada para refrescar sua carga, antes de continuar a viagem para Altamira.

Tudo que a imprensa do mundo todo publicou nas primeiras horas da cobertura do caso Dorothy Stang, a partir de Anapu, teve como fonte os relatórios que enviei e que foram distribuídos pela Agência Pará, da Coordenadoria de Comunicação do Estado. Do domingo em diante, a imprensa nacional já estava entre Anapu e Altamira. Na manhã de segunda-feira, Altamira tinha lá sua comoção.

Mas, a pensar que Bida seria recebido, agora em liberdade, com festa, compreende-se porque a cidade inteira não parou para o segundo velório dos tantos que Dorothy teria. Houve comoção, é verdade principalmente de políticos, sindicalistas, autoridades que acorreram para lá. Não foram poucas. Dando assistência aos policiais, perdi de vista a ministra Marina.

Não me julgo mais capaz do que um juiz, advogados de defesa e membros do Júri para dizer que o fazendeiro Bida é ou não é culpado. Porém, qualquer mortal sabe que o último julgamento não parece justo à sensibilidade das pessoas comuns. As evidências são cristalinas no inquérito policial. O pistoleiro Rayfran das Neves, o ‘Fogoió’, escondeu-se, depois do crime, na fazenda de Amair Feijoli da Cunha, o ‘Tato’ (condenado a 27 anos de prisão como intermediário do assassinato, e que teve a pena reduzida por colaborar com o processo) – apurou de imediato a polícia.

A história de que ‘Fogoió’ agiu de moto-próprio, sem ser dono de um só palmo de terra, sem derrubar uma árvore, sem ter invadido assentamento – nada que justificasse a tese de eventual intriga com a vítima – mas apenas o currículo de pistoleiro, é diatribe advocatícia.

Os defensores do fazendeiro podem ser inteligentes, tecnicamente capazes para livrá-lo da cadeia, mas a sociedade não engole que um ano depois de ter sido condenado a 30 anos de reclusão, o mesmo réu conseguiu provas capazes de provar sua inocência. Bem, os tribunais estão cheios de julgamentos como esse.

O fato é que alguém mandou matar a religiosa norte-americana. A polícia e a promotoria recolheram provas cabais. E alguém tem que ser punido além do pistoleiro pé-rapado, o ‘Fogoió’, e seu comparsa Clodoaldo Carlos Batista, o ‘Eduardo’, que pegou 17 anos, embora não tenha feito disparos.

A Transamazônica (de resto a Amazônia) é tão cheia de colonos, agricultores, religiosos e posseiros quanto de fazendeiros, grileiros, gatos, usurpadores de incentivos fiscais e de outros recursos públicos. E mais: pistoleiros e mandantes de crimes, personagens de velhas e novas histórias da ocupação. Tudo com começo, meio e fim (sempre com assassinatos) contra quem se levanta pelos mais pobres desses enredos.

*Nélio Palheta é jornalista e foi coordenador de Comunicação Social do governo do Pará.’

 

CASO ISABELLA
Claudio Leal

Criminalista: algemar os Nardoni é ‘exagero’, 8/5

‘O criminalista e professor João de Melo Cruz, um dos mais experientes advogados dos tribunais da Bahia, considera ‘compreensível’ a prisão preventiva de Alexandre e Anna Carolina Jatobá, pai e madrasta da garota Isabella, diante dos elementos levantados pela perícia. Mas critica o ‘exagero’ do uso de algemas no cumprimento da decisão judicial.

– Algemar é um absurdo, um exagero. Se o sujeito se apresenta pra ser preso, pra que algemar? Não precisa de nada disso, já é a parte sensacionalista do espetáculo.

Ontem, a Justiça de São Paulo aceitou a denúncia do promotor Francisco Cembranelli e determinou a prisão do casal Nardoni, que se entregou voluntariamente à polícia. Alexandre e Anna Carolina respondem por homicídio triplamente qualificado de Isabella, morta após queda do apartamento do pai, em São Paulo. A madrasta se encontra na Penitenciária Feminina Sant’Ana, no bairro do Carandiru, zona norte da capital.

Melo Cruz acredita que, em caso de júri popular, o resultado é previsível, já que a opinião pública está envolvida emocionalmente com a história.

– Existe um instrumento na lei que visa evitar a contaminação da opinião pública local, pra não afetar o julgamento (…) Mas, nesse caso, em qualquer lugar do Brasil, a justiça vai ser a mesma… A não ser que você peça pra serem julgados na Corte de Haia…

Leia a íntegra da entrevista.

Terra Magazine – O senhor concorda com a prisão preventiva do casal Nardoni? Eles ameaçavam a instrução processual?

João de Melo Cruz – Uma coisa é prisão temporária e outra, preventiva. São duas prisões cautelares, mas uma com prazo limitado – como o nome está dizendo, temporária – e até de objetivo determinado: proteger as investigações policiais. Já a preventiva é uma medida judicial cautelar, uma antecipação, não de pena, mas para atender a determinados requisitos que a lei determina. Os dois básicos são a prova da existência do crime (essa, tem) e indícios suficientes de autoria. Esse requisito satisfaz também.

Foi o que alegou o juiz.

Há indícios e convergência de circunstâncias que, razoavelmente, indicam que eles são os autores. Agora, a prisão só se justifica, nos termos da lei, para assegurar a instrução. Ou seja, impedir que o réu, solto, influencie na produção de provas, ameace testemunhas, crie obstáculos ao processo. O segundo requisito a ser observado é evitar que ele fira o ‘clamor público’, no sentido de que ele volte a praticar delitos ou fugir para evitar a aplicação da lei penal. Não se pode dizer que o Tribunal vai cassar de novo. São circunstâncias diferentes. Na época, quando cassou a primeira prisão, não havia esses elementos dos laudos periciais. Situações diferentes. Nessa questão do clamor público, a doutrina vem oscilando de lá e pra cá.

É um conceito questionável, não?

Existem decisões mais antigas que dizem que a gravidade do crime e a repercussão na sociedade não são justificativas. Mas doutrinas mais recentes vêm no sentido de evitar o choque, o abalo na opinião pública. Então, eu acho que, nesses termos, é compreensível a decretação. Acredito que o desembargador, que será o mesmo – pois a distribuição se dá por prevenção, não há o sorteio de um segundo no mesmo processo-, aguarde mais, peça mais informações ao juiz.

No caso Isabella, houve uma grande revolta popular e o julgamento, também em alguns setores da mídia, já foi feito. Se for pra um júri popular, a condenação não é previsível?

Meu filho, eu sou vítima de um processo aqui na Bahia, em que meus clientes foram condenados por causa da imprensa. A opinião pública foi fundamental. A opinião pública distorcida pelo noticiário da imprensa, que divulgava coisas não existentes no processo. Mas você não pode impedir. Por exemplo, existe um instrumento na lei que visa evitar a contaminação da opinião pública local, pra não afetar o julgamento. É o chamado ‘desaforamento’. Numa cidade do interior, as pessoas são comprometidas, pede-se pedir o ‘desaforamento’ pra uma comarca mais distante. Mas, nesse caso, em qualquer lugar do Brasil, a justiça vai ser a mesma… A não ser que você peça pra serem julgados na Corte de Haia (risos). O fato ganhou repercussão e você não pode impedir a imprensa de divulgar.

Como avalia o comportamento dos jornalistas, perseguindo o casal, pondo câmeras nos rostos?

Um exagero. Quer ver uma coisa? Eu vi a TV entrevistando um vizinho, que disse ter ouvido a gritaria, a discussão. O sacana dizia o seguinte: ‘Cheguei em casa, liguei a televisão e daqui a pouco ouvi gritos de uma menina. E logo em seguida os xingamentos, mas não eram de uma mulher velha. Era uma mulher nova!’ (risos)

Os depoimentos de vizinhos costumam ser duvidosos?

Nem sempre. Você tem condições de examinar a prova, de questionar, de ver uma contradição. Faz o exame da prova. Agora eu tenho ouvido muita besteira desses advogados de São Paulo. Desses criminalistas que dão palpite. Não prender durante a noite está na Constituição, não é no Código Penal. É a inviolabilidade do domicílio. No caso, não houve a quebra desse princípio porque eles concordaram. Outra coisa: algemar é um absurdo, um exagero. Se o sujeito se apresenta pra ser preso, pra que algemar? Não precisa de nada disso, já é a parte sensacionalista do espetáculo.’

 

Fábio Feldmann

A mídia contemporânea, 8/5

‘A mídia exerce no mundo contemporâneo um papel primordial. Quarto poder, ou não, é essencial para a democracia e com a internet está cada vez mais democrática, na medida em que se multiplicaram as fontes, que hoje complementam o que se chama mídia convencional. No Brasil, temos certamente uma mídia responsável, ainda que como em qualquer ‘instituição’ se veja altos e baixos, sem que seja possível se atribuir responsabilidades quando se trata de contextos complexos. O caso mais emblemático nos últimos dias é o do assassinato da menina Isabella, amplamente debatido sob diversos aspectos, incluindo a cobertura jornalística.

Pessoalmente o que me chama a atenção é o fato da não haver regras claras sobre o relacionamento da mídia com as autoridades responsáveis pela apuração policial. Este episódio lembra a promiscuidade entre parlamentares e a imprensa em várias CPIs, nas quais o vazamento da informação era recompensado com a visibilidade nos meios de comunicação, ainda que tais procedimentos pudessem prejudicar a própria averiguação dos fatos.

No caso da menina Isabella me pergunto como uma determinada emissora pode ter acesso exclusivo a determinado depoimento, laudo policial – ou o quer que seja, uma vez que em tese a divulgação dos mesmos deve ser feita de modo democrático, sem privilegiar este ou aquele meio de comunicação, e principalmente sem prejuízo ao próprio procedimento de investigação policial. No caso dessa cobertura jornalística me parece que estamos diante de uma situação semelhante ao das CPIs, entretanto, em se tratando de autoridades policiais submetidas a regime jurídico próprio, com hierarquia clara, não há como deixar de se registrar a ausência de uma orientação formal do alto comando da polícia fixando com clareza regras aplicáveis a situações como essa. A existência de tais regras protegeria a própria autoridade engajada na investigação, tornando-a menos vulnerável à pressão dos jornalistas. Estes, por sua vez, estariam menos pressionados pelo ‘furo jornalístico’, quebrando-se de certo modo o círculo vicioso. Não podemos esquecer do emblemático caso da Escola de Base, causador de prejuízos morais irreparáveis aos envolvidos.

Certamente alguém poderia usar o raciocínio no sentido contrário, ou seja, o ‘furo jornalístico’ valeria mais. O meu argumento é que o vazamento da informação nesses casos deveria gerar a responsabilização por parte dos servidores públicos envolvidos, com o propósito claro de desestimular tais práticas que ao meu ver em se tornando usuais e corriqueiras prejudicam as investigações policiais, o que pode em última instância favorecer os próprios investigados. Muitas vezes condenações da opinião pública não se refletem em decisões judiciais, ou seja, absolvições são obtidas pela ausência de provas ou mesmo anuladas quando as mesmas são obtidas de modo ilícito.

O estabelecimento dessas regras deveria seguir um processo público de consulta, com o propósito de gerar um compromisso aceito por todas as partes envolvidas, fazendo com que aqueles que descumprissem tivessem no mínimo uma sanção moral por parte da comunidade dos próprios jornalistas. Isto, aparentemente ingênuo, poderia trazer mudança nas relações entre as fontes e os meios de comunicação, tornando-as mais éticas sem prejuízo à divulgação das informações ao grande público. Há notícias de que em certas situações como seqüestros de pessoas com expressão na opinião pública há um pacto de não divulgação com o propósito de salvaguardar a integridade da vítima.

Voltando ao noticiário dos últimos dias, não posso deixar de fazer alguns comentários sobre a polêmica da demarcação da Reserva Indígena Raposa Serra do Sol. Minha opinião sempre foi na direção do que foi enfim feito pelo atual governo, tendo defendido a minha opinião publicamente no governo FHC. Alguns anos antes defendi a demarcação do território Yanomami, também objeto de enorme polêmica, prevalecendo na ocasião o entendimento de que a sua efetivação não afetaria o interesse nacional, argumento levantado por aqueles que diziam que tudo não passava de uma grande conspiração internacional contra a soberania do Brasil.

Decorridos todos esses anos os Yanomamis continuam brasileiros e a conspiração não se verificou.

No caso atual da Raposa Serra do Sol o que me chama a atenção é que inverdades legais têm sido colocadas e disseminadas sem o esforço de se verificar a sua adequação: as reservas indígenas são de propriedade da União com usufruto para os índios que lá habitam, sem impedimento de qualquer natureza à atuação das Forças Armadas na defesa da nossa integridade territorial. Quer dizer claramente que o que se diz de ameaça à nossa soberania não existe e no caso dessa demarcação ou qualquer outra a decisão da FUNAI se dá como cumprimento da Constituição Federal de 88. A mesma foi objeto de enorme negociação, sendo que os dispositivos que tratam desse assunto tiveram como um de seus defensores o então senador Jarbas Passarinho, aliás Ministro da Justiça quando da demarcação do território Yanomami.

Será possível se imaginar que o senador Jarbas Passarinho faça parte dessa ‘conspiração’?

A discussão deveria estar concentrada no Estatuto dos Índios, ou seja, na regulamentação do texto constitucional, cujo prazo está há muito esgotado e que permitiria à sociedade brasileira estabelecer as bases para uma discussão menos influenciada por interesses específicos como estamos assistindo. O que é inaceitável são reiteradas afirmações colocando o alinhamento de posições legítimas e amparadas legalmente na Constituição Brasileira como sendo parte de interesses escusos articulados contra o Brasil. Os índios fazem parte da nossa sociedade e podemos aprender e ensinar muito com eles na convivência difícil e complexa de um país que abriga tal diversidade cultural como o nosso.

Por fim não há como não registrar o repúdio à absolvição do mandante do assassinato da missionária Dorothy Stang. O exemplo é péssimo e também exige uma reflexão sobre o judiciário brasileiro, na medida em que crimes dessa natureza e com essa repercussão deveriam merecer foro privilegiado, longe de pressões regionais e locais. Como não conheço detalhes do julgamento, deixo de me aprofundar sem deixar de manifestar preocupação com a principal testemunha que negou suas afirmações anteriores, que levaram à condenação anterior: provavelmente assistiremos a uma ‘queima de arquivo’.

Fabio Feldmann é consultor, advogado, administrador de empresas, secretário executivo do Fórum Paulista de Mudanças Climáticas Globais e de Biodiversidade e fundador da Fundação SOS Mata Atlântica. Foi deputado federal, secretário do Meio Ambiente do Estado de São Paulo. Dirige um escritório de consultoria, que trabalha com questões relacionadas ao desenvolvimento sustentável.’

 

JORNALISMO EMPRESARIAL
Paulo Nassar

O Clã do Jornalismo Empresarial, 10/5

‘Quando a Imprensa nacional comemora os seus primeiros 200 anos, a Comunicação Empresarial comemora, durante os meses de maio e junho, os 20 anos do Clã, que foi, se não o melhor, o mais impactante jornal de empresa feito, até hoje, no Brasil.

Examinado por olhares acostumados as publicações criadas pelas maravilhas e facilidades digitais da atualidade, o Clã, de 1988, ainda pode impressionar pela diagramação, arte e ilustração, essas de autoria de Miguel Paiva.

Mas é pela sua pauta muito além da empresa que o Clã entrou para a história do Jornalismo Empresarial brasileiro e, por que não, do Jornalismo Brasileiro. O jornal para os funcionários da Goodyear do Brasil dedicou o seu número especial para o tema da AIDS, um assunto, ainda agora, carregado de preconceitos, imagine, então, na época.

Para destrinchar o tema tão complexo, a jornalista e responsável pelo Clã, Célia Cambraia, reuniu uma equipe de ouro, comandada por Geraldo Mayrink e Miguel Paiva (Editores), Selma Arruda Alves (Produção), Fernanda A. Torres e Renata Pacheco (Redação), Graciela Karman (Edição de Texto), Jussara Amoroso Dias (Revisão), Helena Ujikawa (Produção e Arte Final) e consultoria do Dr. Drauzio Varella, na época, não tão conhecido, Chefe do Serviço de Imunologia Clínica do Hospital do Câncer de São Paulo.

O grupo produziu uma publicação, formato tablóide, papel offset, quatro cores, 16 páginas, e como manchete principal a palavra AIDS, dramatizada em vermelho. Página a página, a doença foi explicada, harmonizando mensagens de perfis informativo, interpretativo e opinativo, conforme as retrancas didáticas: ‘O que é, ‘O vírus’, ‘Como age’, ‘Seus sintomas’, ‘Seus efeitos’, ‘Onde ataca’, ‘Nas relações homossexuais’, ‘Nos hemofílicos’, ‘Nas transfusões’, ‘Nas mulheres’, ‘Nas crianças’, ‘O que pensa a sociedade’, ‘O Estado’, ‘A Igreja’, ‘A lei’, e outras.

O Clã diante do assunto controverso ouviu dezenas de fontes, entre elas, Betinho, além de muitos outros pontos de vistas sobre a AIDS, pioneiramente difundidos. Os exemplos de vítimas da doença vieram de personalidades conhecidas como o ator Rock Hudson, o grafiteiro Alex Vallauri, o cineasta Leon Hirszman, o pintor Darcy Penteado, o cabeleireiro Markito, o pintor Jorge Guinle Filho e o cartunista Henfil.

A publicação enfrentou bem o desafio de explicar, com ilustrações realistas e textos sem enrolação, como colocar a, até então, ‘invisível’ camisinha. Em sua última página, o Clã organizou dezenas de endereços úteis, em todo o país, para a prevenção e o tratamento da doença.

A importância social do número especial de o Clã foi reconhecida em todo o Brasil, o que fez com que o Departamento de Relações Públicas da Goodyear, dirigido por Cyrill G.P. Walter, imprimisse várias vezes a publicação para atender aos milhares de pedidos de exemplares da publicação, oriundos de organizações populares, escolas, igrejas, dentre outras.

Muito antes da temática da responsabilidade social e da sustentabilidade entrar de forma massiva nas pautas dos comunicadores, o Clã mostrou, 20 anos atrás, que as publicações empresariais, quando não ficam presas aos assuntos da linha de produção ou dos escritórios e tratam também de temas do ambiente social e de interesse de seu empregado enquanto integrante da sociedade, criam valor não só para os acionistas. Por sua comunicação que transcendeu a sua produção de pneus, nos anos 1980, a Goodyear do Brasil e os seus comunicadores serão lembrados também pelo seu Clã.

Paulo Nassar é professor da Escola de Comunicações e Artes, da Universidade de São Paulo (ECA-USP). Diretor-presidente da Associação Brasileira de Comunicação Empresarial (ABERJE). Autor de inúmeros livros, entre eles O que é Comunicação Empresarial, A Comunicação da Pequena Empresa, e Tudo é Comunicação.’

 

PUBLICIDADE
Terra Magazine

‘Propaganda não se adaptou a novas mídias’, 7/5

‘O mundo da publicidade vive algo que os do ramo já sabem, mas que segue desconhecido do grande público: ‘uma profunda crise de identidade’. A definição do que é tão claro para uns poucos e desconhecido para a grande maioria é de Paulo Guerchfeld, agora presidente da nova agência de publicidade, Energy.

A Energy é parte da holding Newcomm, que tem como CEO Roberto Justus. Guerchfeld terá a seu lado o também publicitário Vitor Knijnik, como ele originário da DEZ, empresa nascida e tocada em Porto Alegre desde 1993 por jovens gaúchos. A DEZ, com Guerchfeld e Knijnik, já está há cinco anos em São Paulo na parceria com Justus.

O presidente da Energy entende que a vertiginosa multiplicação de agências de publicidade no mundo embota o que deveria ser a pedra de toque na publicidade: a idéia. Segundo ele, as agências, em busca exagerada por oferecer todo e qualquer tipo de serviço, deixam de estudar e entender seus clientes e optam por uma propaganda ‘tática, mas não estratégica’.

Assim, as agências tentam se adaptar à comunicação contemporânea, que conta com uma infinidade de tipos de mídia, e neste esforço, naufraga ainda mais a forma tradicional de propaganda. Guerchfeld diz:

– Os bureaux de mídia (reserva de grande parcela do espaço publicitário em um veículo) são uma realidade inexorável. Virão para o Brasil e isso fará com que haja um colapso das agências de propaganda. A venda de espaço de mídia, hoje compete apenas às agências, mas isso é completamente anacrônico.

Guerchfeld avalia que as novas agências devem instalar um modelo de ‘alfaitaria’ de publicidade, em que o serviço seja prestado a cada cliente com exclusividade, numa operação de ponta a ponta:

– Todas as agências dizem que fazem de tudo, o que não pode ser verdade, ninguém vai ser bom em tudo – constata o publicitário.

Leia abaixo íntegra da entrevista com Paulo Guerchfeld.

Terra Magazine – Neste vasto mundo da publicidade e propaganda, o que está levando empresas a buscarem outro caminho, recriarem o caminho? Paulo Guerchfeld – Uma profunda crise de identidade nas agências de propaganda…

Apenas no Brasil?

Não, em todo o mundo. À medida que a gente tem uma mudança radical da quantidade de veículos e mídias disponíveis. Há 20, 30 anos trás, propaganda se resumia a fazer televisão, rádio, anúncios e outdoors, basicamente isso. Hoje a gente tem mais de 200 tipos diferentes de mídia, desde o merchandising até o mais sutil esforço de comunicação, que você nem percebe como comunicação. Nesse processo de adaptação, pelo desgaste da forma tradicional da propaganda…

Ela já não é mais ‘notada’, digamos assim?

Deixou de ser tão estratégica como era nos tempos áureos dos ícones da propaganda brasileira. Começou a ter um profundo desgaste da imagem das agências por uma série de motivos, e começou a se criar uma indústria do factóide, que é o que chamo de ‘nomes estrambóticos’.

Me dá um exemplo de o que é isso, indústria do factóide.

Por exemplo, uma determinada agência tradicional diz que está se digitalizando. Cá entre nós, o mundo está se digitalizando. Isso é chover no molhado, evidente. Ou então o seguinte: ‘agora somos os mais capacitados para trabalhar para a mídia digital’. O mundo todo é digital.

Quer dizer, em grande parte isso tem a ver com a transformação desse mundo da internet.

Sem dúvida. Antigamente, quando se falava em fazer um filme para a televisão, você contratava, por exemplo, o Fernando Meirelles – que é um grande diretor brasileiro. Nunca nenhuma agência teve o Fernando Meirelles dentro da sua estrutura. Nós pensamos que cada uma dessas novas mídias têm os seus fernandos meirelles. Tem o cara maravilhoso para criar banner na internet, tem o cara bacana para programar iflash, tem uma turma de jovens na Inglaterra que está fazendo uma pesquisa diferente, de um jeito diferente. Então, em vez de ficar ‘bulshitando’ no mercado que as agências estão se reformatando, a nossa decisão foi: ‘vamos voltar para as origens. Qual é a origem de tudo?’ A origem é – digo ainda, vem da aversão nossa a esses factóides, que às vezes você espreme, espreme, espreme e continua tudo igual – vamos voltar à origem e trabalhar em dois pilares.

O primeiro deles: precisa tratar de entender os clientes com seriedade, profundidade. Tem que ter intuição e tem que ser analítico com as informações disponíveis. E ser incansável nisso. A partir daí a gente vai conseguir fazer a segunda pilastra, que é a… idéia. E a idéia, tanto faz se é para cinema, internet, jornal ou para mídia aeroespacial. A idéia é um conceito que vai se desdobrar nos mais diversos métodos. Eu não preciso ter dentro da empresa o cara que faz serigrafia em borboletas. Vou buscar o que for necessário, mas a idéia tem que sair da agência. O que a gente tem visto no mercado, pela falta de profundidade em entender os clientes, as idéias acabam sendo táticas e não estratégicas. O pessoal acaba dizendo; ‘ah, eu tenho um modelo aqui na minha agêcnia, e agora eu quero trabalhar com arte, exclusivamente com arte’. Isso é uma bobagem, é uma das ferramentas possíveis.

Essa crise é de identidade e, por conseqüência, financeira e econômica. O ‘bureau de mídia’ tem relação com a crise ou já está na prática acontecendo?

Os bureaux de mídias trabalham em todos os países do mundo, à exceção do Japão e do Brasil. São os dois únicos mercados que conseguiram resistir à presença dos bureaux de mídias.

E não são jabuticabas, como dizia o outro: ‘O que só tem no Brasil e é legítimo é jabuticaba’.

Exatamente. Os bureaux de mídia, infelizmente, são uma realidade inexorável. Virão para o Brasil e isso fará com que haja um colapso das agências de propaganda. Isso já aconteceu em mercados do lado, como o da Argentina recentemente. Há muitos anos atrás, começou pelos Estados Unidos. Aí as agências deixarão de ser agências, porque o nome agência vem de agenciamento, ou seja, intermediação, venda. Venda de quê? De espaço em mídia. Eu não faço mais venda de espaço em mídia! Eu também recomendo uma estratégia de mídia, que circunstancialmente, pela inexistência dos bureaux, e pela legislação do nosso setor, eu tenho que fazer. Ninguém mais pode fazer a compra de mídia a não ser as agências. Mas isso é completamente anacrônico.

Também por isso, esse novo caminho múltiplo?

Sim, está todo mundo dizendo que faz tudo. Chupa bala, pirulito, chupa cana e faz malabarismo, tudo ao mesmo tempo. O que não pode ser verdade, ninguém vai ser bom em tudo. O nosso objetivo é ser bom na idéia.’

 

 

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Folha de S. Paulo – 1

Folha de S. Paulo – 2

O Estado de S. Paulo – 1

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