Sexta-feira, 24 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

IMPRENSA EM QUESTãO > AQUECIMENTO GLOBAL, JORNALISMO DESAQUECIDO

Todos são culpados. Inclusive a mídia

Por Alberto Dines em 06/02/2007 na edição 419


O que é pecado, quem é pecador? Esta é a questão central que, ao longo dos séculos, movimenta o espírito humano, aciona angústias, fabrica as religiões, filosofias e ideologias.




O painel de climatologistas & afins reunidos sob a égide da ONU em Paris proferiu uma sentença que vai além das catastróficas previsões ambientais: com 90% de probabilidade, a humanidade é a grande culpada pelo apocalipse anunciado. A questão transcende ao aquecimento global, é moral – em crimes de proporções cósmicas, todos são bandidos. Full time ou part-time.


O Pólo Norte vai desaparecer, o mar vai subir, ondas de calor e enchentes vão aumentar. A culpa não é só do megavilão George W. Bush Jr., que se recusou a assinar o Protocolo de Kyoto, a culpa não é apenas de Ahmadinejad, Chávez e da camarilha dos petrodéspotas preocupados apenas em oferecer emissões de dióxido de carbono a preços acessíveis. A culpa é da Rússia, da China, dos pastores de cabras e criadores de zebus, dos desmatadores da Amazônia e destruidores das encostas, a culpa é dos emergentes e submergentes.


A proximidade da reprise do Dilúvio deixou claro que ninguém é inocente, inclusive os inimputáveis. Em Paris, talvez por inspiração cartesiana, acabam de ser estabelecidas as bases para a socialização do pecado e a mundialização da culpa, corolário da globalização, herdeiras da circunavegação de Fernão de Magalhães e da aventura de juntar os oceanos através do mar de lama que resultou no canal do Panamá.




Estamos todos no mesmo barco, ninguém é uma ilha, os sinos dobram a cada segundo por algo ou alguém que erra ou desaparece. [Sobre o artigo ‘Todos são culpados‘, Último Segundo, 2/2/2007]


A mídia também está no banco dos réus, ocupa posição privilegiada no esquema de culpas concêntricas que provocou o aquecimento do planeta. Seus alertas foram débeis – pífios é a palavra apropriada – seus apelos e convocações foram burocráticos e seu compromisso educativo vem sendo progressivamente pisoteado ao longo das duas últimas décadas. Justamente quando a degradação ambiental chegou ao paroxismo.


A própria mídia está sendo palco de um confronto entre puristas (que apostam no conteúdo e nos seus compromissos originais) e os eufóricos (fascinados com avanços tecnológicos e seus desdobramentos mercadológicos). Este confronto é na realidade a reprodução em pequeno formato do grande confronto entre ambientalistas e desenvolvimentistas.


Pressionada pelas maravilhosas invenções e as respectivas mudanças que acarretam, perdida no tumulto da velocidade, a mídia não consegue se encontrar. Não sabe a que veio. Segue as ondas, modas, senhas e, principalmente, a agenda imposta por interesses alheios aos seus. Agora vai encarar uma realidade que sempre disfarçou com os seus truques otimistas.


Previsão do tempo


Quantos comentaristas políticos pontificam nas páginas de jornais e revistas e em que página são publicadas suas transcendentais especulações? Nosso elenco de observadores da cena política é imenso, formidável em matéria de competência, bem pago, e aparece nas melhores vitrines da nossa mídia. Nada contra: são craques, responsáveis, e o público precisa ser permanentemente esclarecido diante da volatilidade política. Quase o mesmo acontece com os analistas de economia e negócios (sobretudo depois que a grande mídia decidiu transformar o brasileiro num ‘empreendedor’).


E quantos especialistas em meio ambiente temos na grande mídia? Onde são publicadas as suas preocupações, suas advertências e qual a periodicidade? Não há termo de comparação e, no entanto, o mundo está seriamente ameaçado por riscos meteorológicos e socioeconômicos dificilmente reversíveis causados pelas agressões à natureza – e, não, pelas agressões políticas ou ideológicas.


Quantos Washington Novaes temos na grande imprensa? Apenas o próprio, decano do jornalismo ambiental, que escreve uma vez por semana (sextas-feiras) na página 2 do Estado de S.Paulo. Há outros, claro, igualmente competentes, experientes, idealistas.


Não basta. O ambientalismo deve infiltrar-se nos aquários onde se processam as decisões editoriais, nas redomas dos editorialistas e também nos gabinetes onde são tomadas as decisões de mercado capazes de mudar a essência do processo jornalístico. A defesa da Natureza compreende uma percepção ampla sobre a natureza das coisas, dos sistemas e da humanidade.


A Rede Globo só há pouco conseguiu valorizar a previsão do tempo do Jornal Nacional, libertando-a da gangorra das máximas (no Norte-Nordeste) e das mínimas (no Sul-Sudeste). Compreender o clima é muito mais do que estender a mão além da vidraça para saber se será necessário sair com o guarda-chuva.


Combustíveis e alimentos


Nossa mídia precisar esverdear ou, pelo menos, abrandar as cores da sua palheta. Dispensam-se as batas, batique, chinelos de couro cru, não é necessário trocar o look Hugo Boss pelo jeito hiponga. Basta a abrir-se à percepção ecológica. Antes de tudo, é preciso entender o significado da palavra ecologia, ciência que estuda a relação entre o homem e o meio ambiente. Depois disso, o resto é fácil.


A ecologia é uma ciência que não cabe numa editoria. Confiná-la a uma página num determinado dia pode ajudar, mas é insuficiente porque a ecologia está exigindo reflexões e desdobramentos em todas as áreas do conhecimento.


Na ânsia de aquecer o noticiário, nossa mídia deixou de lado o aquecimento global. Só acordou agora com a catástrofe anunciada. Preferiu a rotina, o chove-não-molha, abriu mão da sua capacidade de provocar questionamentos e insatisfações, perdeu o interesse pelas opções mais difíceis, porém mais corretas.


Há cerca de dois meses, quando começou a discussão sobre a necessidade de acelerar o crescimento econômico, a mídia preferiu embarcar no falso dilema entre o desenvolvimentismo (representado pela ministra Dilma Rousseff) e o ambientalismo (representado pela ministra Marina Silva). Forçou um confronto que só existe na cabeça dos simplistas. Com raras exceções, optou pelo crescimento acelerado sem preocupar-se com a sua sustentação.


Auto-engana-se com a miragem dos biocombustíveis e nem sequer acompanha devidamente o que está acontecendo no México, onde a repentina valorização do preço do milho para produzir etanol nos EUA tirou a tortilla da mesa dos mexicanos pobres que fazem dela o seu prato de resistência.


Os agrocombustíveis serão sempre mais atraentes em matéria ambiental do que os combustíveis fósseis, mas é preciso lembrar que quanto mais terra for destinada a movimentar a frota de veículos menos terra sobrará para produzir alimentos.


Ímpeto arrefecido


A mídia não está preocupada com tais sutilezas, suas opções são elementares, ela gosta do básico. Descobriu Adam Smith com 200 anos de atraso e está felicíssima com a façanha. Nem os habituais denunciadores dos ‘complôs da mídia’ perceberam que a mídia está perdendo o bonde da história e que eles viajam no reboque. Engajados no mesmo delírio do crescimento preconizado por uma parte do governo não se interessam por traumas, choques ou emergências. Precisam de culpados, desde que não seja o petróleo dos caudilhos amigos.


Viciada em anabolizantes, a mídia ficou chocada com a proximidade do apocalipse preconizada pelo painel da ONU. Rádios e telejornais na sexta e jornais de sábado pareceram frenéticos. No domingo, sossegaram: muitos veículos preferiram ir à praia. Nesta segunda-feira (5/2), apenas a Folha de S.Paulo considerou o anúncio da catástrofe iminente merecedor de destaque na primeira página pelo terceiro dia consecutivo.


Assim caminha a humanidade.

Todos os comentários

  1. Comentou em 29/04/2008 celita fayad

    onde posso encontrar alguns comentários sobre as alterações havidas na Lei de Imprensa?

  2. Comentou em 29/04/2008 celita fayad

    onde posso encontrar alguns comentários sobre as alterações havidas na Lei de Imprensa?

  3. Comentou em 10/02/2007 Wagner A. Moreno

    A midia, esta fazendo seu papel, informar. Agora a mudança é política e educacional. Aos grupos ecônomicos que viraram de costas para o problema, quero vêr onde irão gastar o dinheiro ou colocar seus filhos!

    1. Penso que estamos em vias de vêr o fim da raça. O ciclo é pra mais de 100 mil anos e não importa oque o homen possa fazer.
    Sabemos viver no espaço e no fundo do mar, mas por pouco tempo. Agora temos o desafio de viver muito tempo numa vida jamais pensada, numa toca talvez com o uso de muita tecnologia, mas com poucas pessoas. Sobreviver sem testar?

    Como disse:Lendo o artigo sobre o aquecimento. Fica dito que o aquecimento é um fato gerado por seres humanos, mas tenho visto e lido que efeito estufa é um ciclo normal do planeta, já ocorreu anteriormente, apenas estamos acelerando o processo. Obrigado. Boa sorte a todos!

  4. Comentou em 10/02/2007 Wagner A. Moreno

    A midia, esta fazendo seu papel, informar. Agora a mudança é política e educacional. Aos grupos ecônomicos que viraram de costas para o problema, quero vêr onde irão gastar o dinheiro ou colocar seus filhos!

    1. Penso que estamos em vias de vêr o fim da raça. O ciclo é pra mais de 100 mil anos e não importa oque o homen possa fazer.
    Sabemos viver no espaço e no fundo do mar, mas por pouco tempo. Agora temos o desafio de viver muito tempo numa vida jamais pensada, numa toca talvez com o uso de muita tecnologia, mas com poucas pessoas. Sobreviver sem testar?

    Como disse:Lendo o artigo sobre o aquecimento. Fica dito que o aquecimento é um fato gerado por seres humanos, mas tenho visto e lido que efeito estufa é um ciclo normal do planeta, já ocorreu anteriormente, apenas estamos acelerando o processo. Obrigado. Boa sorte a todos!

  5. Comentou em 08/02/2007 nelson perez de oliveia jr

    Errei: O NOSSO ALCOOL PRODUZ 5 VEZES MAIS ENERGIA QUE O ALCOOL DE MILHO. Quero comentar que DINES e alguns colegas de sítio gostam de cobrar dos outros( GOVERNO, INSTITUIÇÕES E POLÍTICOS EM GERAL ) AÇÕES, mas, somos todos no planeta responsáveis pela poluição e pelo efeito estufa, somos nós que cotidianamente devemos dar nossa contribuição inclusive educando nossos familiares, o problema é nosso e não de salvadores da pátria. Estamos no mesmo barco, o nosso barco. CHEGA DE PANFLETARISMO E PRIMARISMO CRÍTICO, O NEGÓCIO É AGIR.
    Neste momento a imprensa age com primarismo e pitaquismo ridículos,
    só porque é a manchete da moda? Só porque é fácil jogar para a galera?
    Só porque é fácil escrever qualquer bobagem cujo único mérito é ser a favor de uma causa que não tem como ser contra? Cinismo….

  6. Comentou em 07/02/2007 targino Jose da Silva

    O co2 não é o único responsável pelo aquecimento global. Não ha calor sem fonte. Mesmo que limpe a atmosfera, o calor continuara. São 150 milhões de automóveis novos por ano queimando gasolina e aquecendo a atmosfera. Sem mencionar outras fontes de calor. Um radiador de automóvel não refrigera o motor, ele apenas transfere o calor do motor para atmosfera.Enquanto houver gelos nos pólos a situação estará equilibrada. O gelo dos pólos consome boa parte do calor guardado na atmosfera. A atmosfera se tornou um imenso calorímetro de massa. Os ventos transferem o calor de um lugar para o outro, criando uma temperatura media.Plantar arvores não resolve o problema, demora muito tempo. Temos que usar meios mecânicos para retirar o co2 da atmosfera. Quando mais pesada a atmosfera mais quantidade de calor ela absorve, sem necessariamente aumentar muito a temperatura. Essa quantidade de calor acumulada na atmosfera é que vai fazer o estrago. O co2 tornou a atmosfera mais pesada e isso fez a diferença.Uma bacia de melado a 50 graus Celsius queima mais que uma bacia de água a 80 graus Celsius. É preciso estabelecer um limite para a energia que o homem pode consumir diariamente, mas isto as grandes potencias economicas não querem. Precisamos, 2 dias por semana, parar todos os automóveis do mundo, mudar o asfalto das cidades e das rodovias por um material refratário.

  7. Comentou em 06/02/2007 orlando nascimento

    A mídia passou os últimos 4 anos louvando o crescimento da China em detrimento dos ‘pífios’ resultados da economia brasileira. Só esqueceu de enfatizar que tal crescimento é feito às custas do meio-ambiente e dos direitos individuais. Afinal, trata-se de uma ditadura, como Cuba, não é? A Índia, democrática – embora o insuportável sistema legal de castas, está também entre os maiores poluidores do planeta, outro dado escamoteado para os confins dos noticiários. Caso os dois gigantes asiáticos tivessem que adequar suas indústrias às exigências do tratado de Kyoto, por exemplo, estas sofreriam um aumento brutal de custos. E adeus competitividade. Quanto aos caudilhos petroleiros… Se, em 1953, britânicos e americanos não tivessem conspirado para derrubar o governo democrático de Mossadegh, no Irã, e entronizado o ignóbil Xá Reza Pahlevi (para defender o interesse das companhias ocidentais que sangravam o petróleo e o povo iraniano) será que teria existido a Revolução dos aiatolás? As monarquias árabes distribuíram melhor a riqueza e estão aí até hoje. Já a Venezuela, cuja estatal do petróleo era, em 1994, a número dois do mundo, superando a Shell ( a Petrobrás era a 17!), viu fabulosos US$ 300 bilhões oriundos do boom dos anos 70 desmancharem-se no ar da especulação ou nos bolsos de corruptos de altos e baixos coturnos. E o povo, ó. Porta aberta para um Chaves, uai.

  8. Comentou em 06/02/2007 gilberto lopes da silveira

    , parabéns pelo inconformismo, e rebeldia mesmo passando dos 40. Ainda temos voz e devemos usa-la. Devemos realmente nos rebelarmos para o essencial – nossas proprias vidas , a raça humana – Este interesse deveria ser o norte comum a todos cidadãos, engenheiros, médicos, dentistas, operários, metalurgicos, comerciantes , empresários e etc.. principalmente aos jornalistas. -explico – não estou agredindo – apenas deixando claro que a vcs pertence o direito de falar . Não se pode simplesmente comunicar há que dizer a verdade – se empresa tal aqui no RGS estiver causando mortandade de peixes, não deixe o chefe de redação ou o dono do jornal, ou mesmo o ancora ‘ LASIER MARTINS ou as ‘assessoretes’ de comunicação dizerem que não encontraram o dono da empresa- pq esta paga propaganda no jornal ZERO HORA- peçam demissão , mas falem a verdade . Empresa tal… é a culpada ! , com a mesma voracidade que inquirem uma duvida da esquerda politica. Sr. deputado Vieira da Cunha quem sabe crie uma CPI do ambientalismo gaucho. Sr. Leal, magistrado, solicite providencias com a mesma ternura com que pede verbas suplementares ,Sr Busato faça um pacto pelo ambiente escreva um livro e exija as providencias cabiveis, Sr proença junte-se ao povo , e some sua empresa de comunicação ao grupo RBS e usem seus veículos para manter em pé o espirito farropupilha que de fato vale na alma gaucha.

  9. Comentou em 06/02/2007 Lau Mendes

    Os donos da mídia não estão nem aí. Para êles o mundo poderia acabar em barranco com o exemplar do dia mancheteando alta do dólar .Tal qual a natureza se adaptarão.Talvez algum dinossauro não sobreviva mas as baratas continuarão com ou sem ‘caudilhos’ ,amigos ou inimigos. A prova disto é a invasão nem tão silenciosa das papeleiras que para a mídia será apenas mais um anunciante a passar no caixa.E enquanto isso a região sul vai virar sertão como na música.E coincidência, já temos sanfoneiros.

  10. Comentou em 06/02/2007 Ricardo Dias

    Caro Dines,

    a ciência moderna é fundada em dados estatísticos. É possível, analizar, calcular e prever com variáveis doses de exatidão.

    Recomendo o livro ‘O ambientalista cético’ do Bjorn Lomborg antes de acreditar nas previsões apocalípticas de última hora. É sempre bom tentar saber quem está ganhando com isso. O mundo continua melhorando, e muito,apesar de tanta gente continuar dizendo que não.

    Pra começar, que tal deixar de lado o automóvel, uma máquina que pesa kg 1.200 e que transporta kg 1.270. O dia em que isso for de fato um problema, a coisa se resolve em pouquíssimo tempo.

    Um abraço,

    Ricardo

  11. Comentou em 06/02/2007 MªCatarina E.S.Lima

    Pela primeira vez dou razão ao Dines!

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