Sábado, 18 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

IMPRENSA EM QUESTãO > MÍDIA & ELEIÇÕES

Todos vermelhos

Por Alberto Dines em 09/11/2004 na edição 302

A cobertura das eleições nos EUA enriqueceu o glossário político com novas expressões, algumas surpreendentes. Falar em God fearing people (os tementes de Deus) é normal em templos, púlpitos e sermões mas insólito num embate político que decidiria os destinos do mundo. No entanto, estes crentes localizavam-se nos red states (estados vermelhos).

Como o rubro (desde a queda da Bastilha) é associado à idéia revolucionária, geralmente esquerdista, parece incoerente vê-lo como identificação do Partido Republicano, hoje ultraconservador. Os republicanos americanos tomaram da bandeira tricolor apenas o vermelho porque é também a cor do barrete da efígie de República (que os franceses carinhosamente chamam de Marianne).

Não são insignificâncias: a esmagadora vitória de George W. Bush introduz definitivamente a crença em Deus no debate político internacional. Num único golpe aposentou o materialismo, o determinismo e até mesmo o iluminismo cuja filha dileta é a própria república americana. A substituição da ideologia pela religião é uma revolução. Para trás. Retrocesso diabólico, mas revolucionário. Altera drasticamente a forma de escolher governantes vigente há mais de dois séculos. É um dado político que não pode ser desconsiderado.

Não foi a luta mundial contra o terrorismo, a promessa de mais empregos ou a cantilena em favor da diminuição dos impostos que reelegeram Bush e deram o tremendo safanão direitista aos EUA. A América falou em defesa dos moral values, os valores ditos morais. O valor destes valores foi decisivo porque, na realidade, nada têm de espirituais, situam-se no plano dos costumes mas, principalmente, no simplismo teológico que encara a ciência como uma ameaça a Deus e o homem dono do seu arbítrio como precursor do apocalipse.

Não é teoria dos analistas ou elocubração dos cientistas políticos – esta foi a estratégia formulada, assumida e agressivamente comandada por Karl Rove, principal conselheiro político da Casa Branca. Deu certo.

Os EUA hoje são ‘vermelhos’ – exceto nas regiões costeiras sempre mais cosmopolitas e seculares – porque o debate sobre a guerra no Iraque foi embutido e disfarçado pela pregação republicana em favor de uma nação destemida e, ao mesmo tempo, temente a Deus. Neste clima quem ousaria escrever um discurso dizendo que a guerra é uma ofensa a todas as religiões?

Os ‘vermelhos’ não estavam interessados em questões como unilateralismo nas relações internacionais, leis repressoras na esfera doméstica ou iminência do perigo fascista. Nem se sensibilizam com os apelos dos ambientalistas mostrando que os homens estão destruindo a Natureza criada por Deus. A equação proposta por Bush é simples e poderosa: temer a Deus é o bastante para colocar Deus ao seu lado.

Assim como o fundamentalismo islâmico mostra-se imune às conquistas humanitárias e humanistas dos últimos dois milênios, assim também este neocalvinismo americano mostra-se impermeável às sutilezas que preocupavam a maioria dos patriarcas da república tais como democracia, justiça, liberdade, igualdade, respeito humano.

Inútil discutir se está iminente um choque entre civilizações como quer o historiador Samuel Huntington. No dia 2 de novembro ficaram visíveis as dimensões de uma legião ‘vermelha’ blindada à fúria das celebridades do show-biz mas sensível à conclamação de Osama bin Laden para uma guerra santa.

Eleições não são definitivas, sempre corrigidas pelas eleições seguintes. Mas é preciso levar em conta que Bush ganhou a Casa Branca, a Câmara dos Representantes, o Senado e, seguramente, mais três vagas na Corte Suprema. Será difícil passar uma borracha nas leis que votarão e na jurisprudência que deverão firmar. O eleitor pode trocar de partido mas os tementes a Deus são fieis, não mudam o voto.

Os EUA avermelharam com a obsessão sagrada, nós ruborizamos de vergonha. E o Todo Poderoso deve estar indignado com aqueles que invocam o seu nome em vão.

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