Terça-feira, 26 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº959

IMPRENSA EM QUESTãO > OI na TV

Torcedor não aceita pizza

Por Alberto Dines em 04/10/2005 na edição 349

Bem-vindos ao Observatório da Imprensa. A discussão sobre o referendo das armas começou mal, a matéria de capa da última edição de Veja infringe todas as normas de isenção, eqüidistância e responsabilidade jornalística. A mídia eletrônica, porque depende de concessões, está obrigada pela Justiça Eleitoral a manter-se neutra. O jornalismo impresso é absolutamente livre, mas isso não significa que a imprensa deva descambar para a licenciosidade. Veja menosprezou a opinião dos leitores e pisoteou o princípio da pluralidade. As sete razões de Veja para votar ‘não’ representam um ‘sim’ ao facciosismo.


Obras não são sinônimo de progresso: se o desenvolvimento não é sustentável, é atraso. O bispo franciscano Dom Luiz Cappio há anos vem pregando contra o projeto de transposição das águas do Rio São Francisco. Não quiseram ouvi-lo, por isso recorreu ao recurso extremo, a greve de fome. Está sem comer há oito dias e o governo ainda não se mexeu. Está nas mãos da imprensa a tarefa de converter este protesto pacífico e profundamente tocante num movimento capaz de sensibilizar aqueles que ainda se iludem com projetos mirabolantes.


O presidente Lula não dá sorte quando se refere à imprensa. Ontem, na Fiesp, novamente pisou na bola. Não atacou a imprensa, mas atacou o denuncismo que, segundo ele, está solto há quatro ou cinco meses. Não são quatro meses, Excelência, são cinco meses. E não é denuncismo, são acusações concretas, cabais, que levaram o governo a remover ministros, admitir publicamente que foi traído e até a pedir desculpas.


A corrupção estava nas primeiras páginas dos primeiros cadernos, confinadas aos editoriais e às seções de política. Há 10 dias a corrupção transbordou e chegou aos cadernos de esporte. Graças à mesma Veja descobrimos que ao lado das máfias do mensalão e do caixa dois há também uma Máfia do Apito que manipula os jogos de futebol em benefício de uma quadrilha de apostadores na Loteca.


O país do futebol descobriu estarrecido que a sua porção mais ingênua e mais pura, por isso a mais legítima e representativa, foi tomada de assalto pela mesma bandalheira que desmoralizou utopias e lideranças partidárias.


No caso das investigações sobre a corrupção política está ficando claro que as CPIs estão sendo sutilmente manipuladas para não irem muito fundo. O cidadão-leitor não está muito familiarizado com as sutilezas políticas, não repara na armação das pizzas. Mas o cidadão-torcedor, este é um expert e não se deixa ludibriar tão facilmente. Os cartolas não conseguirão manobrar como manobram certas lideranças políticas. O escândalo dos juizes fraudadores é grande demais para ser tratado como caso isolado, pontual. Não adianta algemar os culpados, é preciso mandá-los para o xilindró. É preciso, sobretudo, sanear um sistema que favorece a má-fé, beneficia a improbidade e tira do povo os seus únicos motivos de alegria.

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