Domingo, 19 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

IMPRENSA EM QUESTãO > TV NOS EUA

Tortura na ficção influencia cenas reais

19/02/2007 na edição 421

Desde 2001, ano marcado pelos atentados terroristas de 11 de setembro, houve um aumento significativo no número de cenas de tortura no horário nobre da TV americana, afirma a organização Human Rights First (HRF). Segundo Jill Savitt, um dos diretores do grupo, tais cenas chegaram ao ponto de inspirar a vida real: interrogadores americanos no Iraque estariam imitando o que vêem na televisão, como cenas protagonizadas por Jack Bauer, personagem interpretado pelo ator Kiefer Sutherland no seriado 24 Horas.

Recentemente, o HRF levou interrogadores militares aposentados a Hollywood para conversar sobre suas preocupações sobre a vida imitando a arte com produtores das séries 24 Horas e Lost, noticia David Bauder [AP, 11/2/07]. Tony Lagouranis, ex-especialista do exército americano que interrogou prisioneiros de Abu Ghraib, afirmou ter presenciado cenas de tortura já mostradas no seriado 24 Horas. Certa vez, seus colegas pediram a um tradutor iraquiano para fingir que estava sendo torturado para assustar um prisioneiro, depois de ter assistido a uma cena semelhante em DVD.

A televisão, no entanto, não é a única que influencia tais atos. Segundo Lagouranis, muitos interrogadores são jovens, recebem pouco treinamento e são pressionados por superiores a extrair informações de prisioneiros a qualquer custo – e o mais rápido possível.

Antes, apenas os vilões

Antes de 2001, as poucas cenas de tortura no horário nobre da TV geralmente mostravam os vilões como torturadores, analisa Savitt. Em 1996 e 1997, não houve cenas de tortura em tais horários na programação televisiva, segundo dados do Parents Television Council, grupo que monitora a TV nos EUA. Em 2003, foram registradas 228 cenas do tipo, com aumento de cerca de 100 cenas entre 2004 e 2005.

Para Howard Gordon, produtor executivo do 24 Horas, o programa pode estar apenas refletindo o medo nacional do terrorismo e da guerra no Iraque, com os americanos tolerando mais cenas de violência no horário nobre. ‘Talvez, em algum nível, isto seja uma expressão de nossa raiva e de nosso desamparo’, opina.

A HRF espera, no entanto, que cenas de tortura não sejam de modo algum toleradas. ‘Não tentaremos nunca censurar ninguém. Não diremos nunca a Hollywood o que fazer, mas estamos tentando dizer a eles como funciona um procedimento interrogatório – o que é bem diferente do mostrado na TV, pois é um processo que requer sutileza, paciência e tempo. Se isto os fizer mudar de atitude, será uma conquista’, afirma Savitt.

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