Domingo, 17 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

IMPRENSA EM QUESTãO > HOMENAGEM SOMBRIA

Torturador é nome de rua

Por Deonisio da Silva em 12/02/2008 na edição 472

Estava participando do programa Intersom Debates, da Rádio Intersom, em São Carlos (SP), na companhia de José Edson de Toledo Piza, mais conhecido pelo apelido de Juquita, e do também radialista Alberto Santos, quando o assunto veio outra vez à tona. Era a manhã de sexta-feira (8/2).

Sérgio Fernando Paranhos Fleury, nascido em Niterói (RJ), dá nome a uma rua de São Carlos (SP). O município presta sinistra homenagem ao homem que comandou as torturas mais cruéis do período pós-68, quando a chamada Revolução de 1964 radicalizou para enfrentar a luta armada.

Em 2002, a antiga sede do Dops de São Paulo, que ele comandou, foi transformada em museu, onde foi instalado o Memorial da Liberdade. O edifício foi construído em 1914 e, antes de ser sede do Dops, de 1935 a 1983, foi ocupado pelos armazéns da São Paulo Railway Company.

Os presos políticos eram obrigados a tortura adicional: assistir a sessões de tortura de companheiros de cárcere e às vezes de cela.

Afogado em Ilhabela

‘‘Se alguém abaixasse a cabeça diante de um preso ensangüentado, o delegado Fleury nos segurava pelo rosto e nos forçava a olhar’’, relatou a ex-presa política Neide Regina Cousin Barriguelli.

Sérgio Fernando Paranhos Fleury morreu sem pagar por seus crimes, apesar de ter sido indiciadoem vários processos. Para salvar a pele dele, foi criada a Lei 5941, mais conhecida como Lei Fleury.

É verdade que este diploma legal passou a proteger também todos aqueles que, tendo bons antecentes, caem nas malhas da lei pela primeira vez. Dependendo do que fizeram, passam a gozar os benefícios da sursis, palavra latina, do antigo direito romano, que, depois de passar pelo francês, ganhou o significado de suspensão da pena, em domíno conexo com o verbo surseoir, suspender, dispensar.

A morte de Fleury foi uma grande surpresa para todo o Brasil. Ele morreu afogado no dia 1º de maio de 1979, em Ilhabela, no litoral paulista, depois de cair do iate onde estava. Faria 46 anos dali a 18 dias. Nos obituários de então, foi lembrado o seu papel de torturador e de líder do Esquadrão da Morte. E também a destacada atuação que teve na prisão dos estudantes no famoso congresso de Ibiúna e na morte de Carlos Marighella.

Sinistra lembrança

O escritor Carlos Heitor Cony foi encarregado de entrevistá-lo quando o romancista estava no batente do jornalismo e Sérgio Fernando Paranhos Fleury comandava o Dops. Escreveu Cony: ‘Ele torturava pessoalmente, matava pessoalmente e eu fui fazer uma entrevista com ele. Me recebeu com uma metralhadora em cima da mesa.’

Nesse dia, Fleury, que matara tantos, declarou ser a favor da pena de morte para todos os crimes de homicídio. Surpresa seria se ele fosse contra!

Mas o delegado fez uma estranha exceção: a pena de morte não deveria atingir o crime passional, ‘porque o crime passional está além da natureza humana’.

E, coisa mais curiosa ainda, o jurista Evandro Lins e Silva, que recebeu o título de ‘advogado do século’ e foi ministro do STF, foi o primeiro a usar o conceito de vitimologia, palavra que entrou para a língua portuguesa em 1956. Na verdade ele trouxe para o português o conceito criado pelo jurista israelense Benjamim Mendelsohn, que consiste em analisar a contribruição da vítima para o crime.

Evandro Lins e Silva levantou a tese na defesa do playboy Doca Street, que matou com vários tiros a então famosa socialite mineira Ângela Diniz.

O escritor Roberto Drummond escreveu o conto ‘Isabel numa sexta-feira’. A protagonista foi inspirada em Ângela Diniz, a quem ele tinha entrevistado. Vale a pena reler este conto, principalmente depois de tudo o que houve com ela.

Na denominação de nossas ruas, dá-se algo semelhante com o que acontece nas prisões. Muitos que estão ali, não deveriam estar. E outros, que deveriam estar, não estão.

Todavia, mais grave do que qualquer omissão é esta sinistra lembrança de homenagear um torturador. No Parque Santa Marta, bairro de São Carlos, foi erguido um monumento para homenagear um são-carlense torturado por Fleury, mas esqueceram de pôr o nome da vítima.

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Escritor, doutor em Letras pela USP e professor da Universidade Estácio de Sá, onde é vice-reitor de pesquisa e pós-graduação e coordenador de Letras; seus livros mais recentes são Os Segredos do Baú (Peirópolis) é A Língua Nossa de Cada Dia (Novo Século)

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