Segunda-feira, 09 de Dezembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1066
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IMPRENSA EM QUESTãO >

Treze anos de mistério

Por Marcelo Auler em 06/06/2005 na edição 332

A revelação da identidade do Deep Throat, o ‘Garganta Profunda’, como sendo W. Mark Felt – vice-diretor do FBI nos anos 1970 – pôs fim a um antigo segredo. Descobre-se agora que a misteriosa fonte do jornalista Bob Woodward na série de reportagens sobre o escândalo do Watergate que ele publicou, com Carl Bernstein, no Washington Post, culminando na queda do então presidente Richard Nixon, era um seu antigo conhecido. Ou seja, trata-se de uma amizade cultivada por Woodward desde o fim de sua juventude, ainda servindo à Marinha americana.

O fato de Felt ter se tornado o informante do jornalista pouco depois da morte de seu superior no FBI, J. Edgar Hoover, certamente deixará no ar a suspeita de ter sido motivado pelo rancor, já que foi relegado na substituição do chefe quando o presidente Nixon convocou um amigo pessoal, preterindo Felt, que era visto como a opção natural por ser o vice de Hoover.

No fundo, a história do informante que ajudou a derrubar o presidente da maior potência mundial é uma história que apenas corrobora a velha tese de que o bom jornalista precisa, acima de tudo, cultivar boas fontes. Aquela começou a ser cultivada antes mesmo de Woodward decidir-se pela profissão de repórter.

Clima de baixo astral

Existem casos, porém, em que a fonte surge inesperadamente, com informação preciosa, sem jamais se revelar ou ser descoberta. Neste momento um certo faro profissional e uma boa dose de sorte podem ajudar ao repórter, ou à equipe, a transformar a dica anônima em manchete, e até contribuir para derrubar um presidente. Aconteceu algo assim no caso Collor de Mello, na redação da revista Veja, em 1992. Decorridos quase 13 anos, a identidade da fonte continua, oficialmente, um mistério.

Era uma terça-feira, 30 de junho, semana em que a revista IstoÉ tinha como capa uma espetacular reportagem com o motorista Eriberto França denunciando os depósitos sistemáticos de Paulo César Farias na conta bancária da secretária particular do presidente, Ana Acioli. Com isto, a revista quebrava a seqüência de furos com que a Veja mantinha-se à frente dos demais órgãos de imprensa no assunto, desde a publicação de um dossiê contra PC Farias feito por Pedro Collor (edição de 13 de maio) e, duas semanas depois, a famosa entrevista do irmão do presidente, denunciando as falcatruas do grupo alagoano.

O clima na redação da Veja, portanto, era de baixo astral com a descoberta do motorista pela concorrente quando, na hora do almoço daquela terça-feira, surgiu um telefonema anônimo. Do outro lado da linha, a voz masculina mostrava-se um típico leitor insistente, pois foi logo lembrando que já ligara na véspera, contando a mesma história: ‘O Opala verde, blindado em São Paulo, que durante um bom tempo atendeu aos filhos do presidente Collor no Rio e que, segundo os próprios meninos, pertencia a um empresário amigo do pai, saiu de circulação tão logo surgiram as primeiras denúncias envolvendo PC Farias’.

Saída cansativa

O nosso ‘Garganta Profunda’ não afirmava, mas insinuava que o Opala poderia ser a prova concreta de que o dinheiro do ex-tesoureiro da campanha eleitoral, que estava sendo acusado de controlar a caixinha da corrupção no governo, beneficiava diretamente a família do presidente. Nenhuma outra informação foi dada que ajudasse a desvendar o mistério, o que quase fez com que a denúncia fosse deixada de lado. Sem poder contar com os parentes da ex-mulher de Collor, Lilibeth Monteiro de Carvalho, que dificilmente falaria sobre o caso, restou uma única saída: a Polícia Federal no Rio, encarregada da segurança de Arnon Affonso e Joaquim Pedro, os filhos do presidente.

A reação do então superintendente da PF no Rio, delegado Edson Antônio de Oliveira, no telefonema em que era questionado sobre o assunto, foi a confirmação de que algo realmente existia: ‘Como vocês ficaram sabendo disso?’, perguntou, antes de se recusar a entrar em detalhes. Também o chefe do setor encarregado de dar proteção às autoridades e, no caso, aos dois meninos, o agente policial Floses, não escondeu o incômodo: ‘Só a pergunta já me deixa em situação difícil’.

Nos arquivos do Detran de São Paulo não aparecia nenhuma informação sobre carros em nome da Empresa de Participação e Consultoria que pertencia a Paulo César Farias. Também no nome do empresário não existia qualquer registro. Para se descobrir a placa do Opala, restou uma aparentemente cansativa saída: visitar todas as oficinas que, em São Paulo, faziam blindagens de carro. Se a memória não falha, eram cinco.

Primeira confirmação

A espinhosa missão coube à hoje colunista da Folha Mônica Bérgamo. Mas a esperteza dela, iniciando pela maior e mais famosa das oficinas, a Massari Ltda., facilitou o trabalho. Ao que parece, o pretexto apresentado era discutir blindagem de carros por conta do clima de insegurança nos grandes centros, incluindo a onda de seqüestros, o que não deixava de ser uma preocupação real dos Collor, já que um possível plano de rapto dos filhos do presidente tinha sido descoberto dias antes. Da própria Massari Mônica ligou para a redação do Rio informando a placa do Opala que a oficina tinha blindado sabendo que ele atenderia aos dois filhos do presidente no Rio: VY-2745 (na época ainda não tinha sido feita a troca pelas placas com três letras).

Daí foi fácil constatar no Detran paulista que aquele carro estava em nome da EPC-Empresa de Participações e Consultorias, ficando explicado o motivo pelo qual as buscas anteriores nos computadores não terem dado nenhum resultado: as três letrinhas iniciais fizeram a diferença.

Como se estivesse querendo cobrar o resultado da apuração, a fonte misteriosa voltou a ligar para a redação. Ao contrário do que aconteceu com os jornalistas do caso Watergate, que tinham como enviar mensagens ao seu Deep Throat, no nosso caso a via era de mão única: se ele não ligasse, não tínhamos como contatá-lo. Mas ele não só ligou, como ainda complementou as informações.

Na Massari, Mônica soube ainda que o carro tinha voltado para uma revisão por conta de um bala alojada na lataria. Foi decorrente de um acidente que acabou gerando sindicância policial, sobre a qual o então superintendente se recusou a falar. Mas o nosso ‘Garganta Profunda’ esclareceu o caso, servindo-me como uma primeira confirmação da minha suspeita de que ele era também um policial federal.

Interesse: a verdade

O acidente foi provocado por um dos policiais da segurança dos filhos do presidente quando eles foram comer pizza no restaurante Gato Pardo, na Lagoa Rodrigo de Freitas, Zona Sul do Rio. O agente que tomava conta dos carros – o Opala verde e outro preto, da Polícia Federal, usado pelos seguranças – resolveu dar a tradicional cochilada e, para tanto, quis reclinar o encosto do banco do carro da polícia. Mas, no lugar de apertar o pino que faria o banco reclinar, apertou o gatilho de uma metralhadora que estava debaixo do banco. A bala atravessou a porta do carro oficial – provocando a sindicância por conta do bem público avariado – e alojou-se na blindagem do Opala verde, obrigando-o a passar por uma revisão na oficina paulista.

A história, porém, não estava fechada. Mesmo tendo conseguido uma confirmação em off da própria Polícia Federal, a chefia de redação da revista queria um on de alguém dizendo ter visto os meninos no Opala. Esta confirmação só foi obtida no último minuto do segundo tempo do jogo: passava das 21h da sexta-feira, dia 3 de julho, quando os então repórteres Telma Alvarenga e Arnaldo César, que faziam cerco na porta do condomínio onde os meninos moravam, conseguiram ouvir um morador afirmar que conhecia o Opala verde.

A identidade da fonte até hoje continua, oficialmente, um mistério. Anos depois, a suspeita de que se tratava de um policial federal foi robustecida por novo telefonema, desta feita ao jornal O Dia, quando denunciou falcatruas numa prova realizada pela Polícia Federal, que acabou anulada. Depois, não mais se manifestou, pelo menos como fonte. Como tenho quase certeza de que se trata de um policial, pode ser até que já tenhamos ficado frente a frente, sem que eu soubesse estar diante de quem me ajudou a ganhar um pedaço do Prêmio Esso de Jornalismo de 1992, com a equipe da Veja. Sem conhecê-lo, não terei como saber o que o motivou a fazer a denúncia. Para mim, assim como deve ter acontecido no Caso Watergate, dificilmente a motivação foi meramente pessoal, mas o interesse maior de ajudar a fazer prevalecer a verdade.

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