Terça-feira, 11 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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Trocadilhos e entrelinhas

Por Gabriel Perissé em 25/07/2005 na edição 339

E perguntaram a Delúbio Soares quando ele e Marcos Valério se conheceram. A resposta: ‘Nós nos conhecemos em meandros de 2002…’ Silêncio… Ouvimos o que ouvimos? Não teria sido em meados de 2002? Entrevemos os meandros do poder, o escuso, o retorcido, os conúbios. E a linguagem, cheia de lábia, furando discursos premeditados, revela o que pensamos sem querer…

E quem será o verdadeiro autor do trocadilho ‘Depois de mim, o Delúbio’ (com base no ‘Aprés moi, le déluge’ de Luís XV)? Daniel Piza, Jô Soares, Macaco Simão ou Paulo Caruso? Tarde demais para saber. O dilúvio nos afoga a todos. Somos todos cúmplices.

E se o Macaco Simão, porta-voz de tantas piadas prontas, lança a dupla Dilúvio e Velório, o próprio Roberto Jefferson, réu e acusador, não resiste: ‘Se PC Farias fez, hoje Delúbio e Marcos Valério fazem’.

E o neologismo Daslula? Não interessa quem o inventou e adotou primeiro. Gilberto Dimenstein, Barbara Gancia, Zuenir Ventura e Leila Cordeiro o empregam sem pudor e sem notas de rodapé.

E os freqüentadores da Casa do Saber, em São Paulo, apelidaram o local de Daslusp, reunindo numa só palavra a referência intelectual (USP) e o alto nível econômico de quem vai assistir às palestras e cursos ali ministrados.

É divertido?

E Arnaldo Jabor, ao escrever sobre o assassinato de Celso Daniel, não resiste à tentação: ‘óbvio que ulula (não o Lula)…’

E Luis Fernando Verissimo menciona o dizlúbio, dízimos em quantidade… que caem do céu.

E assim, lançando mão de trocadilhos mais ou menos intencionais, tecemos uma saída para a depressão em que, a rigor, o Brasil deveria mergulhar. Graças à capacidade de absorver lingüística e piadisticamente os escândalos, dissolvemos perplexidades, não nos levamos a sério. A energia da impossível revolta termina por alimentar o riso. E o riso adia o nosso pranto.

Assim vamos. Vamos e venhamos!

Em passado recente, em São Paulo, tivemos a Martaxa. Millôr Fernandes homenageava o presidente Sarney com um título: Sir Ney. No começo da década de 80, o general Figueiredo gargalhava ao ouvir o trocadilho infame — ‘Tancredo Neves é, na verdade, Tancredo Never…’ E antes ainda, na década de 40, o Barão de Itararé cutucava o poderoso general Góes Monteiro chamando-o general Gás Morteiro…

E uma pergunta entrevejo nas entrelinhas dessas brincadeiras. Afinal de contas, por acaso é divertido ter nascido brasileiro?

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Doutor em Educação pela USP e escritor (www.perisse.com.br)

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