Sexta-feira, 24 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

IMPRENSA EM QUESTãO > Intimidação como estratégia de comunicação

Trump não gosta da mídia

Por Alberto Dines em 14/01/2017 na edição 930

Donald Trump não gosta da mídia, escolhe o jornalista para fazer perguntas e só responde ao que lhe parece conveniente. Não é o primeiro caso de governante vaidoso e arrogante, com aversão a repórteres e a notícias negativas. O pior é que a moda pode pegar por aqui. Cômodo e gratificante.

Bons repórteres fuxicam, escavam, insistem , contestam, descobrem coisas e irritam os governantes como aconteceu esta semana com Trump e a CNN que revelou a existência do relatório de inteligência americano sobre supostas operações ilegais de agentes russos para chantageá-lo. “Você, não”, Trump agrediu o repórter na primeira coletiva como presidente. “Você publica notícias falsas”. E continuou, ” só a imprensa liga para o meu imposto de renda. O povo não dá a mínima. Notícias falsas…”

O episódio trouxe lembranças nefastas ocorridas há 33 anos. Lembra o general Newton Cruz quando convocou uma coletiva em dezembro de 1983 para prestar contas sobre as medidas de emergência em vigor no país há dois meses. Logo no começo o repórter Honório Dantas , da rádio Planalto , perguntou : “A democracia sofreu um retrocesso ?”. Ouviu-se a gritaria de Nini, como era mais conhecido o então comandante militar do Planalto.

“Que retrocesso coisa nenhuma! Democracia é a aplicação da lei. Que retrocesso coisa nenhuma, isso daí é reproduzido em centenas de jornais, atinge milhões de brasileiros, uma única fonte dizendo falsidades — cada jornal reproduz como se fosse notícia sua! Vale dizer,  sai de uma maneira num jornal, sai de outra maneira em outro jornal! Isso aí fica espalhado no Brasil todo! Fonte? Uma única– e falsidade!”

O presidente João Figueiredo chamava Nini de  “o nosso Mussolini”. Que fazia jus à comparação . O general primeiro exigiu que o radialista calasse a boca, depois o empurrou  com violência e seguida enlaçou seu pescoço numa “gravata” exigindo, aos berros, um pedido de desculpas. Tudo exibido no Jornal Nacional para a posteridade.

Esta semana a FENAJ, Federação Nacional dos Jornalistas registrou 161 casos de agressões físicas , verbais e intimidações a jornalistas no ano passado, cerca de 18% a mais que em 2015 , a maioria por parte de policiais militares, guardas municipais mas , também, de manifestantes nas ruas. Dois mortos .

Jornalistas não podem se intimidar com o berro de um general, agressões de policiais ou de quem quer que seja, mesmo  vindo de um presidente dos Estados Unidos. Nenhum juiz pode exigir quebra de sigilo de suas fontes como aconteceu ano passado com o colunista Murilo Ramos da revista Época.

E não só porque os jornalistas podem derrubar um presidente como aconteceu com Bob Woodward e Carl  Bernstein que tiraram  Richard Nixon da Casa Branca ao conduzir até o fim as investigações do caso Watergate no Washington Post na década de 70.

Os detetives da democracia

Ou porque jornalistas como Martin Sixsmith descobrem uma história fantástica e escrevem um livro como “Philomena” que virou filme (Stephen Frears, 2016) sobre o convento que abrigava mães solteiras na Irlanda de 1952, separando filho e mãe em nome do pecado. Ou porque três repórteres revelam a os abusos sexuais cometidos por mais de 70 padres pedófilos na cidade de Boston em 2002, feito que também virou filme, “Spotlight” (Tom McCarthy, 2015) reproduzindo as reportagens do Boston Globe.

Se não fosse pela Folha de S.Paulo não saberíamos que ex-governador do Rio Sérgio Cabral e sua mulher Adriana Ancelmo fizeram 71 viagens, 40 oficiais e 24 a turismo durante o mandato e mesmo sete anos após. Jornalistas da Folha se deram ao trabalho de cruzar os dados da Polícia Federal na Operação Calicut quando perceberam que não mostravam as entradas e saídas do casal.

E se não fosse o repórter Lucas Martins do programa “Brasil Urgente”da Band talvez o corpo esquartejado encontrado em Cotia ainda estivesse sem reconhecimento. Foi ele que desconfiou do saco plástico azul com fecho vermelho encontrado em supermercados que atendem a população de maior poder aquisitivo. Os sacos envolviam as partes do corpo anônimo que o repórter investigava. Uma perna na estrada dos Pires, em Caucaia do Alto. Achou outros sacos. Percebeu que vestia calça Diesel. “Joguei no Google,  mais de R$600 mil”, descobriu. Em outro saco a camiseta polo de manga comprida trazia a etiqueta Ralph Lauren. Olhou a cueca branca de marca, o rosto indicando traços asiáticos. Pensava: “isso não é coisa do crime organizado, esse cara tem dinheiro, essa história vai render”. O editor não parecia convencido mas o repórter lutou até o fim para emplacar a matéria.

O corpo era de Marcos Matsunaga, morto pela mulher Elisa a 19 de maio de 2012, um sábado, um crime sem testemunha. O repórter da Band com faro apurado foi o primeiro a dar o furo. O caso está contado na revista Piauí deste mês na reportagem “Um Caso Célebre” por Paula Scarpin.

Segundo o diretor de Jornalismo em Stanford, o economista James T. Hamilton, autor de “Democracy’s Detectives”(Harvard University Press), jornalismo investigativo gera lucros para a sociedade : “Para cada dólar investido pelo Washington Post numa reportagem investigativa envolvendo governantes, os ganhos da sociedade foram superiores a US$ 140″(Folha de S.Paulo,2/1).

Vale a pena desafiar , inclusive Donald Trump.

***
Alberto Dines é jornalista, escritor e cofundador do Observatório da Imprensa

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