Segunda-feira, 25 de Junho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº992
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IMPRENSA EM QUESTãO > MAREMOTO NA ÁSIA

Tsu (onda) + nami (porto)

Por Alberto Dines em 04/01/2005 na edição 310

Cataclismo, flagelo, calamidade, hecatombe – o vocabulário e ranking das catástrofes foi ultrapassado, de repente, com a expressão japonesa, tsu (onda)+nami (porto) imposta pelo funesto recorde de vítimas do maremoto.

‘Onda no porto’ é uma dupla metáfora, confronto dialético propiciado pelos ideogramas japoneses no qual o porto conota-se com a idéia de abrigo, refúgio, santuário, proteção e a onda representa a violência, a quebra da ordem natural e a irrupção do caos. Não são muitas as palavras japonesas incorporadas aos idiomas ocidentais (a maioria tem origem na popularização da gastronomia nipônica). Tsunami garantiu instantaneamente um trágico lugar no esperanto da mídia embora o arquipélago japonês, desta vez, tivesse escapado do desastre.

Menos evidente, quase escondido, o rescaldo filosófico desta desgraça que nos aflige desde o último domingo. As compulsões do fim de ano e sobretudo o impacto das notícias impedem maiores reflexões. A mesma necessidade de esfolar-se na corrida para sair da cidade e descansar em outro lugar acabou por vitimar tantos estrangeiros, especialmente europeus, lá nos confins do Índico.

Em nome de Deus

Os questionamentos são comandados pelos instintos, ora motivados pela insegurança (será que um dia seremos afogados por um maremoto?) ou pela necessidade de incriminar alguém (falhou o sistema de vigilância e alarme!). O apocalipse nos antípodas não produziu aqui angústias apocalípticas; a loucura da Natureza – usualmente sábia – não causou, entre nós, maiores perplexidades. A sensação de sentir-se à beira do abismo ou às vésperas do Juízo Final ainda não fez aquela comichão na alma capaz de produzir as perguntas ou queixas essenciais.

Exceção foi o texto de Helio Schwartsman na Folha de S.Paulo (terça, 28/12, pág.2) ao lembrar uma espécie de polêmica entre Voltaire e Rousseau no ano seguinte ao terremoto de Lisboa (1755). O primeiro questionava a benevolência de Deus ao permitir tamanho desastre (cerca de 60 mil mortos) e o segundo inocentava o Todo Poderoso e a Mãe Natura atribuindo a culpa ao desatino dos homens.

Valeria a pena acrescentar que o mesmo Voltaire acolheu as interpretações e superstições que tomaram conta de Portugal e chegaram à França quando se soube que a Inquisição mandou queimar o jesuíta Gabriel Malagrida (também chamado de Apóstolo do Brasil), pelo panfleto onde denunciava a perversidade humana como causadora da catástrofe lisboeta. Em obra posterior ao terremoto porém anterior à execução (Candide, de 1759), Voltaire retrataria as crueldades do Santo Ofício em nome de Deus.

Velocidade do tempo

A faixa devastada pelo tsunami é uma das mais pobres e castigadas do planeta, insanidade atribuir aos milhares da sacrificados pela fúria emanada das entranhas da Terra qualquer falta ou pecado, a não ser a passividade com que aceitavam a vida naquelas condições. Ao lado daqueles infernos construídos pela incúria, alguns enclaves paradisíacos atraíam hordas de turistas empurrados pela necessidade de movimentar-se, buscar o exótico, aquecer-se ao sol.

Inútil buscar causas, culpas ou aliviar-se com desabafos mundanos da angústia propiciada pelas imagens e textos dantescos exibidos na mídia. Crentes ou agnósticos, religiosos ou seculares, não é esta a hora de argüir ou submeter-se à Divina Providência.

No início de um novo ano, quando o tempo assume-se como protagonista, conviria pensar sobre a velocidade com que ele se escoa, como se desperdiça, como desgasta palavras, ações e intenções. Hora de pesar. Hora dos pesares.

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