Sábado, 23 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

IMPRENSA EM QUESTãO > CASO WALDOMIRO

Últimas quatro linhas

Por Gustavo Barreto em 24/02/2004 na edição 265

O jornalista Aloysio Biondi escreveu em 1999: ‘Os editores escondem a verdade, isto é, os problemas, nas últimas quatro linhas – o que lhes permite fingir que não estão deixando de noticiar nada, uma atitude hipócrita, pois eles sabem muitíssimo bem que a informação que impressiona o leitor é aquela estampada no título e no lide’ (Caros Amigos, agosto de 2000).

‘O assunto deve esfriar no carnaval’

Estamos acompanhando um escândalo envolvendo o ex-assessor do ministro José Dirceu, Waldomiro Diniz, demitido na sexta-feira por envolvimento em escândalo de corrupção. Observe o trecho a seguir:

‘A Secretaria de Comunicação encomendou uma pesquisa para avaliar se o caso Waldomiro prejudicou a imagem do governo. No Planalto, a orientação política é tentar evitar a instalação de uma CPI. Os assessores políticos do presidente apostam que o assunto deve esfriar no carnaval.’

Fonte: Últimas quatro linhas da reportagem do jornal O Globo (18/2/04) sobre o Caso Waldomiro, cujos títulos principais foram:

‘PF vai investigar atuação de Waldomiro no governo’, com subtítulo ‘PT diz que só aceita CPI se apuração for ampla e irrita até os aliados’ (primeira capa);

‘Devassa nos atos de Waldomiro’, com subtítulo ‘PF vai apurar ações de ex-assessor do Planalto. Delegado pode pedir quebra de sigilo telefônico’ (pág. 3)

A pauta mais adequada não foi colocada: O PT-Governo é contra a CPI (absurdo número 1); O Planalto espera que o assunto ‘esfrie no carnaval’ (absurdo número 2). Os assessores do presidente dizem claramente: ‘O povo não liga para a corrupção, pois está aí o carnaval para fazer eles esquecerem que dinheiro público foi desviado’.

Aloizio Mercadante (PT-SP): líder do governo no Senado: ‘A orientação é olhar para a frente, não imobilizar o Congresso. Não agimos com revanchismo. Mas, se a oposição quer olhar para trás, voltar ao passado, recuar dois anos, então vamos recuar oito’.

Percebam uma condição implícita neste discurso. A única forma de conseguirmos ter uma real apuração do que ocorreu nos anos FHC é achando atos irregulares no PT-Governo. Se ninguém ameaçar, estamos quites.

Este tipo de imprensa, meus amigos, é quase tudo o que nós temos. Os políticos, nossa escolha. E o PT, nosso partido da ética.

Bom carnaval.

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Editor da revista Consciência.Net (www.consciencia.net)

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