Domingo, 13 de Outubro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1058
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IMPRENSA EM QUESTãO >

Um caso para ninguém ver ou saber

Por Julio Ottoboni em 15/09/2009 na edição 555

O último episódio da enfadonha jornada espacial brasileira ocorreu no dia 26 de agosto, na sede a Agência Espacial Brasileira (AEB), e mostrou que o órgão federal se tornou mais uma destas aberrações que prosperam em Brasília. E que consegue tomar vulto pelo despreparo de jornalistas que pomposamente ostentam o crédito de especializados em ciência.

Uma briga na sala de reunião da AEB foi incapaz de chamar atenção dos jornalistas científicos, mesmo estando ligada a um dos mais importantes programas espaciais do país. O caso e o descaso deram as mãos e mergulharam no ridículo. A atenção da imprensa veio após a publicação, no Diário Oficial da União, da exoneração, no dia 10 de setembro, do brigadeiro e engenheiro do Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA) Antonio Hugo Pereira Chaves.

Em tempo: o brigadeiro Chaves está longe de ser um destes monstrengos nacionalistas forjados pela ditadura militar que ainda circulam por aí. É um dos maiores conhecedores do Programa Nacional de Atividades Espaciais (Pnae), doutor engenheiro em automatismo pela Escola Nacional Superior de Aeronáutica e Espaço, em Toulouse (França), orientador acadêmico nos cursos de pós-graduação do ITA e foi ainda diretor do Instituto de Estudos Avançados (IEAv).

No epicentro do abalo sísmico nas más alicerçadas estruturas do nosso programa espacial, a figura, no mínimo controversa, do ex-ministro de Ciência e Tecnologia Roberto Amaral, que atuou ainda no primeiro mandado do presidente Lula, nos anos de 2003-2004, e foi protagonista de situações bizarras e de puro anacronismo com a realidade do programa espacial brasileiro.

Barraco sideral

Enfim, esse ser assincrônico pertence aos quadros de alto escalão do PSB e se notabilizou por resgatar o pior do discurso dos anos 1950-60 assim que ingressou no executivo federal. Diante de tantos holofotes, não conteve a verve saudosista da Guerra Fria e enalteceu a necessidade da construção da bomba atômica. Em seguida, interpelou, em tom de exigência, a Nasa sobre os motivos do astronauta e hoje palestrante bem-sucedido Marcos Pontes, ainda não ter ido ao espaço.

O então ministro conseguiu com a história da bomba provocar uma quase intervenção estrangeira no programa nuclear do país, além de constipar ainda mais a relação indigesta com a Nasa que, com o tempo, teria resultados – no mínimo – mais bombásticos que o beligerante Amaral previa.

O furo de reportagem veio na edição de 1º de setembro, no Correio Braziliense, com o feliz título ‘Um barraco espacial’, de autoria de Noelle Oliveira. E, vale dizer, ninguém da imprensa buscou avançar na história mesmo com a enorme repercussão do caso no meio científico, particularmente no segmento espacial. O texto de abertura da matéria revela bem o nível de ingerência de politiqueiros oportunistas em questões de ordem técnica.

Reunião quase termina em pancadaria

‘O que era para ser mais uma das 20 reuniões já realizadas pela cúpula Agência Espacial Brasileira (AEB) para discutir a questão espacial brasileira acabou em xingamentos e quase em agressão física na última quarta-feira. O resultado da confusão será o afastamento de um dos diretores da agência, cuja exoneração deve ser publicada nos próximos dias no Diário Oficial da União (DOU). A confusão envolveu o diretor-geral brasileiro da Alcântara Cyclone Space (ACS), o ex-ministro da Ciência e Tecnologia Roberto Amaral, e o então diretor de Transporte Espacial e Licenciamento da AEB, major-brigadeiro Antonio Hugo Pereira Chaves.

A reunião realizada no início da tarde na sede da AEB, no Setor Policial Sul, tinha como pauta alguns ajustes com relação ao lançamento do primeiro foguete da empresa, o Cyclone 4, previsto para dezembro do ano que vem. Durante a discussão, no entanto, Amaral teria cobrado alguns posicionamentos da agência. O ex-ministro e outro integrante da Cyclone foram interrompidos várias vezes pelo diretor Antonio Chaves, o que irritou Amaral. Chaves e Amaral chegaram a esmurrar a mesa, até que o diretor da Cyclone xingou verbalmente o major-brigadeiro que, irritado, jogou um copo de água em Amaral. Segundo um funcionário presente à reunião, a discussão só não terminou em pancadaria pela intervenção dos presentes. Fontes do setor afirmam que o major-brigadeiro Antonio Chaves foi demitido no mesmo dia. Já Amaral, com 70 anos de idade, acabou indo parar em um hospital no dia seguinte, apresentando quadro de pressão alta.

Procurado pelo Correio, Amaral confirmou por meio de sua assessoria a ocorrência do incidente. Ele destacou que as relações da AEB com a Cyclone são harmônicas e que ficarão `melhores ainda a partir de agora´.’

O bode expiatório

O que ainda perambula entre comentários, boatos e fofocas é dúvida sobre o verdadeiro motivo desta discussão. Uma incógnita que tende a virar mito, muito por incompetência dos pretensos jornalistas científicos, mais preocupados em exercer seus personalismos em blogs e colunas, particularmente dos grandes jornais – independente da mídia utilizada – com seus espantos e basbaquismos oriundos da mais plena ignorância sobre temas de estudos. Algo que pode ser definido como assombros do analfabeto científico.

Mas para um inebriado com a própria condição, os jornalistas deixam de lado o mínimo de investigação para embasar as informações que serão divulgadas ao público. Bastava alguém se lembrar: essa não é a primeira vez que um político lança mão de sórdido expediente para conseguir exonerar um diretor da agência, coincidentemente do setor de Transporte Espacial e Licenciamento da AEB.

Vale ainda recordar que Amaral, como titular do Ministério da Ciência e Tecnologia, esteve junto com o ministro da Defesa, José Viegas, ligado à tragédia na Base de Lançamentos em Alcântara, em 2003. Mesmo como responsáveis maiores pelo ocorrido, se eximiram de qualquer responsabilidade sobre a morte de 21 técnicos em conseqüência da ignição espontânea dos boosters do Veículo Lançador de Satélite (VLS).

Outra vez se lançou mão de artifícios da mais rasa e vil politicagem. O discurso fácil se fez presente e lançou à comoção e fúria nacional, além da vergonha internacional, o então presidente da AEB, Luiz Bevilacqua. O bode expiatório, renomado no meio acadêmico e doutor em Mecânica Teórica e Aplicada pela Stanford University, foi sacrificado com todos os requintes de crueldade por parte de seus superiores, os sacerdotes do poder federal.

A risível Missão Centenária

Pela estupidez de um de seus assessores, o então dirigente geral da AEB não foi avisado sobre a tragédia em Alcântara e manteve-se em reunião com dirigentes da Ucrânia – os mesmos que atualmente se aliaram ao Brasil no programa Cyclone –, totalmente alheio ao ocorrido. Ao sair da sala, encontrou uma turba de repórteres que tiveram acesso ao interior do prédio da AEB. Abordado sobre a explosão do foguete (que na verdade foi queima dos motores, nada explodiu no VLS), ele respondeu com a ironia inocente dos traídos: ‘Só se for um foguete de São João’.

Execrado nacionalmente, Bevilacqua faz questão de manter-se afastado de qualquer assunto desta origem e exerce o cargo de reitor da Universidade Federal do ABC. Depois dele, a direção da AEB passou a ser gerida por políticos ligados ao PSB. E a dificuldade em conseguir um nome de projeção no meio científico para retornar a dirigir a agência mostrou como era gigantesco o descrédito do órgão.

Nenhum dos procurados pelo governo federal, inclusive o presidente da SBPC, Marco Antonio Raupp, e doutores da Unicamp e USP, entre diversas outras entidades de pesquisa, aceitou o convite quando da saída de Sérgio Gaudenzi para a Infraero. O senso comum mostrava que ali não era mais lugar para cientistas. Atualmente, a AEB é presidida pelo economista Carlos Ganem, ex-advogado e administrador de empresas.

Nos últimos anos, a AEB foi descaracterizada e deixou de lado seu caráter científico para mergulhar no marketing tupiniquim de suspeitíssima qualidade e necessidade. A risível Missão Centenária, que levou o astronauta Marcos Pontes até a Estação Espacial Internacional, foi além de uma tentativa fracassada de se criar um ídolo nacional. Mas colheu como resultante a pulverização da credibilidade nacional junto a outros países que ainda se iludiam com a suposta seriedade brasileira neste segmento.

Expulsos pela Nasa

A Rússia, com o seu programa de turismo espacial, aceitou por insistência do próprio astronauta brasileiro, levá-lo como passageiro numa missão. E conseguiu um desconto de 50% na passagem, que saiu da casa dos US$ 20 milhões para US$ 10 milhões, dinheiro esse que foi retirado às pressas do programa de satélites sino-brasileiro Cbers, gerenciado pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

Um dos motivos de Pontes tomar a frente do processo e acabar por convencer o alto escalão do governo federal a aceitar a proposta foi exatamente a visão míope existente no meio político sobre a necessidade de um programa sólido no setor espacial. Viram aquilo como uma resposta à sociedade brasileira, mas se esqueceram de dizer que o astronauta teria grandes chances de ser aproveitado numa missão oficial entre 2007 e 2009 a um custo muito inferior e com alto benefício para a ciência nacional. Mesmo com a falta de pagamento por parte do Brasil junto à Nasa, acordado na época da inclusão do brasileiro em seu programa de treinamento.

Depois do vôo e do circo montado, tanto pelo governo como pela imprensa, num espetáculo de mediocridade e provincianismo, veio a surpresa: a Gazeta Mercantil, em meados de 2007, publica uma extensa reportagem sobre a exclusão do Brasil do megaprojeto técnico-científico, a Estação Espacial Internacional (EEI).

Isto teria ocorrido numa reunião em Washington, em novembro de 2006, por ordem direta da direção da Agência Espacial dos Estados Unidos. O motivo: o governo brasileiro não foi capaz de cumprir nenhuma das etapas previstas no cronograma multinacional. A comitiva brasileira foi enxotada da sede da agência, sequer com direito a argumentar sobre seus sucessivos fiascos e descompromissos.

Contrato sem licitação

A empresa binacional Alcântara Cyclone Space (ACS) é resultado de um termo de cooperação entre o Brasil e a Ucrânia para desenvolvimento de foguetes e readequação do Centro de Lançamentos de Alcântara (MA). A multiestatal tem viés comercial e está vinculada, pelo lado brasileiro, à AEB e ao Ministério da Ciência e Tecnologia.

Mas, atenção, nada de coincidência entre o seu diretor geral ter sido o mesmo a assinar o termo de constituição da parceria em outubro de 2003, quando ainda era ministro brasileiro de Ciência e Tecnologia. Pela Ucrânia, o signatário foi o ministro das Relações Exteriores, Kostiantyn Gryshtchenko.

Porém, a direção ACS instou o pólo aeroespacial brasileiro a contratar, no começo deste ano, sem licitação, a empresa Invap, da Argentina, para diversos serviços. Isto dispensaria grande destaque na imprensa se a indústria e institutos nacionais fossem incapazes de realizar o pedido com larga vantagem econômica e tecnológica. Algo ainda a ser investigado, se os jornalistas científicos não julgarem o assunto como banal e inapropriado à sua função.

Como ovelhas no pasto

Em agosto último, a vice-ministra da Economia da Ucrânia, Nataliya Boitsun, esteve no Brasil, na sede da Alcântara Cyclone Space, em Brasília. Na oportunidade, ela se reuniu com os dois diretores-gerais, Oleksandr Serdyuk (Ucrânia) e Roberto Amaral (Brasil). O objetivo foi conhecer o cronograma de atividades e a situação financeira da empresa, cujo capital é de US$ 487 milhões a ser integralizado em partes semelhantes por ambos os sócios.

Amaral, em sua ânsia ufanista, diz que ‘agora chegou a vez do Brasil’. Ele quer a todo custo ter o primeiro lançamento de um foguete da ACS no próximo ano e outros seis em 2011. Embora tenha retirado do seu caminho o brigadeiro Chaves e conte com grande parte do rebanho de jornalistas calmos e solícitos, como ovelhas no pasto, em nada custa rememorar que desde a tragédia de 2003 a base de Alcântara se encontra no mesmo estado. E por isso o ex-ministro pretende construir outra estrutura no local, avaliada em alguns bilhões de dólares.

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Jornalista e pós-graduado em jornalismo científico

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