Quarta-feira, 21 de Fevereiro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº975

IMPRENSA EM QUESTãO > ESTADO DE MINAS

Um diário aquém da grandeza das Gerais

03/11/2009 na edição 562

Oitocentos e cinqüenta e três cidades e quase 20 milhões de pessoas. Grandeza e diversidade são qualidades que não faltam a Minas Gerais. Viajar por Minas é surpreender-se com a variedade de paisagens – vales, rios e açudes – e, claro, com a já famosa simpatia de seu povo (e isso não é propaganda enganosa). Acrescente-se ao cenário natural a presença constante de belíssimas montanhas que, dependendo da estação, adquirem tons lilases ou cinzentos.


No entanto, esta Minas, ao contrário do que possa parecer, não é aquela dos cartões postais, dos pacotes de agências de viagem que incluem a capital, cidades históricas ou o famoso circuito das águas. Há outra Minas, muito além desta, que não aparece nos folhetos turísticos. Tenho tantas belas imagens de Minas na memória, tenho tanta poesia e prosa impregnando minhas lembranças; tanto de Drummond ou Rosa! E muito tenho das pessoas simples com as quais convivi e, felizmente, ainda convivo quando viajo para a região na qual nasci: o centro-oeste mineiro.


Minas são muitas (sim, isso foi propaganda de um governo nos anos 1980; perdoem o clichê). Minas é quase um país, na definição de tantas pessoas que já escreveram, cantaram e falaram sobre ela. Mas é incrível o quanto essa diversidade, essa riqueza, esse modo de vida, que encanta qualquer pessoa que se disponha a atravessar um Grande Sertão: Veredas, por exemplo, parece não entusiasmar aqueles que fazem a imprensa em Minas Gerais.


Um ‘reino de felicidade’


Cito apenas o ‘grande jornal dos mineiros’, que é como se define o Estado de Minas. De vez em quando, o jornal faz uma matéria interessante sobre essa diversidade, mas isso é (infelizmente) raro. Na maioria das vezes, o que se vê é a cobertura turística (e superficial) de temas que, se explorados com verdadeiro interesse, dariam matérias, no mínimo, saborosas. É claro que há honrosas exceções, mas é pouco, diante dessa Minas grandiosa. E onde há grandeza e diversidade, há certamente problemas, inúmeros e antigos. Problemas – tão gigantescos quanto o estado – que parecem não existir quando se lê o grande jornal dos mineiros.


As páginas do EM mostram uma Minas sempre perfeita e asséptica. Tudo parece funcionar perfeitamente bem, não há miséria, não há agravos políticos, a economia vai muito bem, não há corrupção… Não há melhor assessoria de imprensa para o governo Aécio Neves do que o Estado de Minas (o grande jornal do… governador de Minas). Sim, qualquer pessoa medianamente informada sabe que conchavos entre mídia e governantes são corriqueiros, mas isso não deveria ser aceito com normalidade. Isso é, sim, revoltante e triste. Triste na medida em que sabemos que a imprensa deveria ser ‘os olhos do povo’, mas quando a esse povo é negado o direito da crítica, temos o cenário perfeito para a imposição de meias verdades e o começo de uma verdadeira ditadura. E isso está acontecendo em Minas.


A constatação está no documentário feito pelo mineiro Daniel Florêncio [o documentário de Daniel Florêncio – a que todo mineiro deveria assistir – chama-se Gagged in Brazil (Censurados no Brasil) e já foi notícia neste Observatório]. Um documentário fundamental, aliás, não só por demonstrar as relações mesquinhas entre mídia e poder, mas também por expor um problema que significa, para mim, a morte do (bom) jornalismo. Coloque no Google ‘Estado de Minas X Aécio’: centenas de notícias aparecerão, todas favoráveis ao governador e todas publicadas no EM. Procurando por Minas sob esse prisma, qualquer pessoa irá achar que se trata de um reino de felicidade, não condizente, por exemplo, com o fato de que o salário do professor em Minas é um dos menores do Brasil. Há algo de errado aí. Vozes dissonantes são caladas e qualquer tentativa de se analisar a coisa por outro ponto de vista é cerceada.


Limpar apenas o alpendre


Como mineira, eu gostaria de ver o grande… sendo realmente ‘grande’, no sentido de oferecer possibilidades para que todos os mineiros e toda Minas fossem representados em suas páginas. Gostaria que houvesse abertura para o debate político saudável, gostaria que os inúmeros prefeitos corruptos de Minas pagassem realmente pelo roubo (literal) que é cometido nas cidadezinhas esquecidas, gostaria que esses tantos roubos fossem investigados e averiguados por jornalistas que, tenho certeza, sentir-se-iam motivados a ir em busca desse tipo de notícia. Há gente valorosa em Minas, entre eles, muitos jornalistas. Mas esta gente valorosa, anda sendo demitida.


No grande jornal só se pode falar da Minas-cartão-postal, a Minas que zerou o déficit, a Minas cor-de-rosa… E se tudo é mesmo assim, e se aqueles que se dispuserem a ler este artigo pensarem que estou sendo romântica demais, que jornalismo é isso mesmo, que o jornal X ou Y desse ou daquele estado também é abertamente do lado deste ou daquele político… Não sou ingênua, mas acredito ainda que tais coisas não devam ser aceitas com naturalidade. Isso não é, definitivamente, jornalismo. Enquanto a situação persistir (até quando?) prefiro procurar a Minas verdadeira, tão bela, pungente (e, sim, problemática) em outros lugares. Lugares reais e não nas páginas do Estado de Minas.


Pois o jornalismo que exclui toda a diversidade (que significa também estradas esburacadas, fome e miséria no norte do estado; salários miseráveis dos professores, agressões ambientais etc.) dessa deslumbrante Minas Gerais e tenta (apenas tenta, pois, como se vê, há descontentes cada vez mais descontentes) criar um mundo bonitinho, sinceramente me assusta e entristece. Limpar apenas o alpendre (como dizemos os mineiros) para receber as visitas enquanto a casa inteira está suja é algo que em Minas soa como falta de hospitalidade no trato com os visitantes.


De certa forma, é isso que o Estado de Minas vem fazendo com os leitores. E ai de quem ousar reclamar.

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Jornalista

Todos os comentários

  1. Comentou em 05/11/2009 Zé da Silva Brasileiro

    Caro Leonardo Brito. Além do blog do professor Massote, indicado pelo José de Castro, existe também o site ( http://www.novojornal.com/politica_noticia.php?codigo_noticia=10499).

  2. Comentou em 05/11/2009 Allan Campos

    A mais de 15 anos fico esperando notícias da grande mídia sobre minha região, mas quase ninguém fala do Vale do Jequitinhonha, como deveria. Embora esteja localizada em uma área estratégica para o turismo, já que liga Minas à Bahia, próximo a Porto Seguro, minha cidade, Santa Maria do Salto, vem ano após ano, uma estrada de chão entre Almenara e Salto da Divisa que nunca termina o asfalto. Todo ano político é a mesma promessa do asfalto, mas nada. Queria que o Estado de Minas falasse sobre o assunto. Tem muita gente que deixa de passar pela nossa região, deviso o péssimo estado da estrada. Fico triste com isso.

  3. Comentou em 03/11/2009 Regiane Santos

    Concordo em gênero, número e grau com você, Ana! Mas, como jornalistas, devemos ir além de ‘O Estado de Minas’, o grande jornal do nosso governador Aécio Neves. Se houver um empenho dos jornalistas bem como cidadãos pró-ativos para a participação e/ou criação de veículos de comunicação alternativos, teremos, sim, uma Minas Gerais retratada em sua diversidade!

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