Terça-feira, 12 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº969

IMPRENSA EM QUESTãO > IMPRENSA MANAUENSE

Um fenômeno efêmero?

Por Lúcio Flávio Pinto em 19/01/2010 na edição 573

Manaus tem quase 1,8 milhão de habitantes, dos quais 965 mil lêem jornais. É o segundo maior índice de leitura de jornais do Brasil, superado apenas pelo de Porto Alegre, que é de 73%, segundo pesquisa do instituto Ipsos Marplan, divulgada no final do mês passado. Quem encomendou o trabalho foram os jornais Diário do Amazonas e Dez Minutos, do mesmo grupo empresarial, a Editora Ana Cássia. Eles seriam lidos por 726 mil das 965 mil pessoas que constituem o mercado de jornais impressos da capital amazonense. Um índice formidável de domínio de 79%. Ainda mais porque Manaus tem sete jornais diários, enquanto em Porto Alegre eles são apenas três.

Com essa pesquisa, os donos da corporação procuram demonstrar o acerto de suas decisões. O jornal mais antigo, o Diário, tem uma tiragem menor, mas é mais influente, por ser o preferido pelos leitores com mais de 35 anos. Já o Benjamin da cadeia, que tem menos de um ano e meio de vida, se tornou o de maior vendagem no estado, por conquistar o público da faixa entre 18 e 24 anos, com tendência a se dissociar da imprensa convencional ou abandoná-la por completo. A conquista foi facilitada pelos preços dos jornais – o Diário a 50 centavos e o Dez Minutos a 25 centavos, os menores da praça.

Pelos dados do Instituto Verificador de Circulação (IVC), a tiragem paga do Dez Minutos é de 63 mil exemplares, que o coloca em 12º lugar no ranking nacional, e a do irmão mais velho fica próxima de 20 mil. Para cobrirem todo o público que lhes é atribuído, cada exemplar deve ser lido por 10 pessoas, o dobro da média máxima constatada em pesquisas sistemáticas (ou mais do triplo do índice médio de leitura). Os dois jornais amazonenses estariam circulando por mais mãos, o que pode favorecer o crescimento da vendagem mais adiante. Se a amplitude não for fantasiosa.

Caderno sensacionalista

Não consegui ter acesso à íntegra da pesquisa para poder analisá-la melhor. Ela confirmaria a tendência recente, sobretudo a partir da concorrência da internet, de preferência do público por publicações impressas de leitura fácil, aparência atraente e com recursos para conquistar leitor (mulher nua, crime, esporte, show bizz, fofocas e promoções comerciais). Mas se a pesquisa da Marplan está certa, há um componente específico no caso amazonense para explicar o crescimento espantoso do Dez Minutos em tão pouco tempo. Superou não só os seus concorrentes estaduais como quebrou a tradicional hegemonia dos jornais de Belém, que nunca haviam sido perturbados por qualquer outra publicação regional.

De certa forma o índice de leitura dos dois jornais traduz a supremacia de Manaus, que tem o 7º maior PIB dentre as capitais do país, sobre Belém, que ficou na quarta pior posição. O índice de riqueza material, por outro lado, é produto da maior diversificação econômica e social da capital amazonense, com a presença marcante do imigrante, tanto pessoa física quanto jurídica. Ele não conhece a história local nem tem compromissos com sua elite mais antiga.

A Zona Franca atraiu empresários e executivos, mas também técnicos e operários. Eles passaram a ter acesso a uma versão mais convencional do modelo de jornais expressos, que é o Diário, e outra mais ao gosto popular, mas ambas com o atrativo de uma aparência de independência e dinamismo que faltou aos concorrentes, sobretudo o grupo de A Crítica, com 60 anos de atividade (e líder disparado durante a maior parte desse período).

A versão fast food da família Calderaro, o Manaus Hoje, não deu para a competição e o órgão tradicional não se renovou. O grupo do Diário obteve vitória completa, algo que a família Maiorana não conseguiu com sua dupla O LiberalAmazônia contra o Diário do Pará, que imobilizou o segundo jornal dos oponentes com um caderno de polícia sensacionalista e anúncios classificados populares. Ao invés de esmagar o adversário, a aplicação paraense da fórmula provocou mais autofagia do que expansão.

Efeito proveitoso

Essa é mesmo a fórmula do sucesso, veio para ficar e será o meio de reposicionar os jornais no universo das mídias? Ainda é cedo para apresentar uma resposta. No caso do Amazonas, os baixos preços só poderão ser mantidos se surgirem novas formas de faturamento – ou nos próprios jornais ou agregando novas mídias, como a televisão, que o grupo Ana Cássia não tem.

Esse investimento também dependerá do futuro da Zona Franca, atingida pelos efeitos positivos e negativos do câmbio atual e da crise internacional. E pela própria posição editorial que os jornais assumirem a partir da campanha eleitoral, identificados com o público ou com os grupos políticos.

De qualquer maneira, o fenômeno Dez Minutos tem um efeito proveitoso: obriga quem quer entender o que acontece a examinar os fatos com mais atenção, rigor e lucidez.

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Jornalista, editor do Jornal Pessoal (Belém, PA)

Todos os comentários

  1. Comentou em 26/01/2010 Alessandra Magalhaes

    Tal fenômeno, sem dúvida, deve-se ao fato de a empresa ter procurado renovar suas estratégias para atingir novos leitores e manter os leitores que já tinha, já que a concorrência dos jornais on line tem decretado o iminente fim do jornal impresso.
    Não se deve questionar aqui a qualidade do conteúdo, ou mesmo do leitor, mas a estratégia usada, que atende às exigências de um público que busca a informação, cada vez mais resumida. É uma forma de sobrevivência diante desta nova demanda.
    O próprio jornal Diário do Amazonas adotou um formato mais dinâmico, menor e com reformulações na sua diagramação e na sua linha editorial.

  2. Comentou em 30/06/2009 Erika Sarraipo

    Sou leitora assídua do Blog Observatório da Imprensa e há algum tempo atrás, fiz um comentário no Observatório da Imprensa.
    Entretanto, já transcorrido algum tempo, meu comentário e minha identificação completa (nome/sobrenome/email) estão disponíveis nas consultas de meu nome e sobrenome no GOOGLE. Atualmente estou participando de diversos processos de recolocação profissional, incluindo sérios concursos públicos. Tanto os departamentos de Recursos Humanos tem buscado informações na internet, das quais eles deduzem o que bem intenderem coisas dos candidatos, assim como nas segundas etapas dos concursos (promotoria e procuradoria) se vê a necessidade da comprovação de vida elibada do candidato é atestada. Como não tenho nenhuma intenção de enfrentar este dilema ou discutir se é procedente esta ação, e como a área pleiteada é a Jurídica, gostaria de saber se existe a possiblidade de que meus comentários fosse deletados. Em caso negativo, se seria possível ocultar meu sobrenome, pelo menos, como meio de identificação. Segue o link onde eles são encontrados:
    http://www.observatoriodaimprensa.com.br/blogs.asp?id_blog=3&id=%7B7101DB87-0ADF-416E-9E54-5A0DED3BFBAF%7D. Dados do comentário: Erika sarraipo, Engenheira (Sao Paulo/SP); Enviado em 15/5/2006 às 10:46:36 PM Agradeço antecipadamente e espero uma resposta com possível solução para este meu impasse. Erika Sarraipo

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