Sábado, 23 de Junho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº992
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IMPRENSA EM QUESTãO > JORNALISMO LUSÓFONO

Um idioma, três diferenças

Por Alberto Dines, de Lisboa em 18/01/2005 na edição 312

Quando, na sessão final, a relatora do 6º Congresso Internacional de Jornalismo de Língua Portuguesa resumiu os trabalhos daqueles dois dias, começaram a se delinear as discrepâncias em matéria de liberdade entre os países participantes.

No bloco africano – os PALOP (Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa) – evidenciaram-se desigualdades preocupantes. Embora formalmente democráticos, os graus de autonomia e pluralidade são díspares. Enquanto Cabo Verde e Moçambique admitem o funcionamento de empresas jornalísticas privadas em competição com os conglomerados estatais, em Angola, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe (também em graus variados) os controles estatais são mais rigorosos.

No bloco luso-brasileiro, teoricamente mais homogêneo, as assimetrias também se descortinam. A própria concentração da mídia (ou dos ‘media’, como se diz aqui), mãe de todos os problemas, manifesta-se de forma diferenciada.

Enquanto no Brasil o Grupo Globo (isto é, as afiliadas da Rede Globo) constituem um imbatível sistema de hegemonias regionais, a concentração portuguesa tende a criar dois pólos privados mais ou menos equilibrados (o chamado ‘Grupo Balsemão’ e o Lusomundo), com dois grupos comerciais menores (o Independente e o Correio da Manhã), todos observados pelas congêneres espanholas que não escondem o apetite pelo pequeno, porém importante, mercado vizinho. Numa faixa paralela correm as emissoras estatais competindo diretamente com a mídia privada.

Assim, apesar da concentração empresarial, o quadro português é mais diversificado em matéria informativa do que o brasileiro com mais e maiores veículos.

Só o idioma

Enquanto o rádio e a televisão brasileira, mesmo os privados, fazem questão de esquecer seus compromissos com o interesse público, a tradicional presença do Estado português na mídia eletrônica (através da RTP – Rádio e Televisão de Portugal e da RDP – Radiodifusão Portuguesa) criou um paradigma que mesmo os competidores comerciais se obrigam a respeitar.

As práticas e preocupações dos jornalistas também se distinguem. A grande imprensa brasileira ainda não conseguiu se libertar das coberturas de saturação que banalizam até as questões mais transcendentais. Em geral é incompetente em matéria investigativa, a não ser quando privilegiada por fitas, vídeos ou dossiês secretos fornecidos por interesses escusos.

Já a grande imprensa portuguesa mostra-se capaz de investir em coberturas personalizadas em todas as partes do mundo e, quando envereda pelo jornalismo investigativo, não depende de fornecedores suspeitos. Isto explica a multiplicação de conflitos judiciais envolvendo a revelação das fontes, situação bastante rara em nosso país.

O jornalismo norte-americano não se diferencia do jornalismo britânico. Além do idioma, o comportamento é comum. No mundo lusófono, só o idioma é o mesmo.

***

O 6º Congresso Internacional de Jornalismo de Língua Portuguesa foi organizado pelo Observatório da Imprensa (Portugal), presidido por Filomena Silva (Cabo Verde) e teve como relatora Norma Couri (Brasil). Demais participantes brasileiros: José Paulo Cavalcanti (presidente do Conselho de Comunicação Social), Fernão Lara Mesquita (Grupo O Estado de S.Paulo), Leão Serva (Último Segundo/iG) e este Observador, representante do Observatório da Imprensa (Brasil).

Todos os comentários

  1. Comentou em 22/01/2005 José Aloise Bahia

    Muito interessante a participação e cobertura feita pelo Alberto Dines. Fundamos aqui em Minas Gerais a ALIPOL (Associação Internacional de Literaturas de Língua Portuguesa e Outras Linguagens). Com certeza, no nosso primeiro encontro internacional, em set/out de 2005, teremos uma mesa sobre a linguagem jornalística no mundo lusófono. Baterei na tecla e na necessidade da figura do ‘ombudsman’. Parece-me que o termo usado para o ‘ombudsman’ nos jornais portugueseses ‘Diário de Notícias e o ‘Público’ é ‘Provedor dos Leitores’. Bem melhor que ‘Ombudsman’, usado aqui no Brasil, EUA, Canadá e, claro, na Suécia. Por falar nisto Alberto Dines, você tem notícias sobre os trabalhos desenvolvidos pelos ‘Ombudsmans’ nos jornais portugueses? E na África? Acredito que daria uma matéria interessante uma análise comparativa da figura e trabalhos dos ‘ombudsmans’ na comunidade lusófona. Em tempo, mais informações sobre a ALIPOL: http://www.alipol.org. Obrigado pela atenção e um abraço do jornalista josealoisebahia/bhz/mg…

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