Sexta-feira, 24 de Maio de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1038
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Um jornal apimentado

Por Matías M. Molina em 19/04/2011 na edição 638


‘Meu irmão, Luís Augusto May, portador desta, pede-me que o recomende a Vossa Senhoria. Ele é um doido varrido, mas como também faz caturrizes pode diverti-lo nas horas vagas; queira portanto dar-lhe preferência a qualquer outro que esteja nas mesmas circunstâncias. O conhecimento que tem das línguas inglesa e francesa o habilita igualmente para o serviço civil e militar principalmente se o seu chefe o vigiar bem e não o deixar conversar demais’.


Uma carta com esse texto foi passada ao marquês de Resende por Hipólito José da Costa, o redator do Correio Braziliense que conhecera May em Londres. A parte em itálico é, certamente, uma brincadeira de Hipólito. Há outra versão mais formal para essa primeira parte: ‘Escrevo esta carta ditando ao portador, o tenente Luís Augusto May, o qual, além do ofício que já escrevi a seu respeito, deseja esta carta particular com que se te apresente. É natural que escrevendo ele mesmo a carta, eu não diga nem muito bem nem muito mal’. A segunda parte é idêntica nas duas versões.


A carta foi escrita em 7 de setembro de 1810 pelo conde de Funchal, embaixador em Londres, a seu irmão, o conde de Linhares, ministro da Secretaria dos Negócios Estrangeiros e da Guerra no Rio de Janeiro. Revela, mesmo na versão formal, a insistência de May para conseguir algumas palavras, ainda que não fossem muito lisonjeiras, que o recomendassem a uma alta autoridade. Nascido em Lisboa, ex-seminarista e capitão de artilharia, estava vindo para o Brasil como intérprete dos trabalhadores suecos da fábrica de ferro de São João de Ipanema, em Sorocaba (SP).


Homem culto, ambicioso, de sólidos conhecimentos jurídicos, May procurou no Brasil aproximar-se de pessoas ligadas ao poder. Perseguiu com afinco honrarias, cargos públicos e promoções. Notabilizou-se pelo oportunismo e caráter volúvel.


Pleiteou o cargo de sargento-mor e recebeu apenas o hábito de Cavalheiro da Ordem de São Francisco. Obteve um emprego de oficial da Secretaria dos Negócios da Marinha, do qual conseguiu aposentar-se em 1820, mas quando a aposentadoria foi ameaçada pelas cortes de Lisboa, que acabaram com a seção em que trabalhava, May publicou o jornal A Malagueta em dezembro de 1821, alguns meses depois de ter aparecido o Reverbero Constitucional Fluminense de Gonçalves Ledo e Januário da Cunha. Recebeu, para editar a publicação, ajuda de um comerciante português, Manuel Joaquim Portugal de Lima, que lhe cedeu o material tipográfico.


Nomeação esperada


A Malagueta foi lançada como publicação independente. Foi impressa na tipografia de Moreira & Garcez e depois na Impressão de Silva Porto &c. Custava 100 réis, preço superior aos 80 réis de quase todos os outros jornais. Consistia basicamente num longo e incisivo artigo de May, escrito na primeira pessoa, para tornar-se mais próximo do leitor. José Hipólito da Costa comentou no Correio Braziliense que A Malagueta ‘não é periódica, porque se publica ocasionalmente; nem é destituída de instrução, nem lhe falta um bom raciocínio, e menos a boa linguagem’. Mas seu estilo foi considerado por Juarez Bahia como ‘descuidado, desabrido, abusado, radical, panfletário’. A linguagem era melíflua e insinuante; evitava os ataques diretos; as críticas mais ferinas eram precedidas de lisonjas e misturadas com elogios. Implorava ao mesmo tempo em que agredia. Atacava e se colocava como vítima. Mas adotou um tom pedagógico que atraiu os leitores. Para Carlos Rizzini, May foi ‘o mais destro e pertinaz polemista da Independência’, e também ‘culto, vaidoso e destemido, expoente do jornalismo desregrado de seu tempo’. Gondim da Fonseca escreveu que era ‘o mais célebre jornalista da época’.


Defendeu uma causa popular, que era a permanência do príncipe d. Pedro no Brasil, e uma política de contestação às cortes portuguesas. O êxito foi imediato. Estima-se que A Malagueta em pouco tempo conseguiu 500 assinaturas no Rio, um número muito elevado na época, bem superior ao das publicações concorrentes, apesar de ter um preço maior. Desde o começo, polemizou com outras publicações, como o Reverbero, O Espelho e com José da Silva Lisboa, o visconde de Cairu, que chamava May de ‘tigre devorador sob a pele de mansíssimo cordeiro’. A influência do jornal valeu ao seu redator a alcunha de ‘o Malagueta’. O partido português publicou oito folhetos para polemizar com ele ou para combatê-lo.


A Malagueta, que em geral mostrava uma linha liberal, levantou várias questões constitucionais importantes com profundo conhecimento de causa e, em ocasiões, articulava argumentos bem construídos e relevantes sobre a condução do país. Mas esteve sujeita a bruscas oscilações em sua orientação. Se criticava o governo, também podia bajulá-lo quando isso convinha aos interesses de May. Chegou a defender com empenho iniciativas políticas que depois combateu com o mesmo vigor. Assim como tinha obtido uma boa acolhida inicial, por sua defesa da Constituição, A Malagueta foi perdendo credibilidade por sua linha volúvel.


A vida do jornal foi tão conturbada quanto a sua orientação editorial. Teve várias fases. May esperava ser nomeado para uma alta função no exterior. José Bonifácio, que conhecia sua atração por honrarias e empregos públicos, lhe ofereceu o cargo de oficial-mor da Secretaria dos Negócios Estrangeiros em Washington, desde que deixasse de publicar A Malagueta. Ele, efetivamente, suspendeu a circulação do jornal e explicou aos seus assinantes, nas páginas do Correio do Rio de Janeiro, que o fazia por ‘motivo de serviço nacional’; pouco depois diria, na primeira edição extraordinária de A Malagueta, que a suspensão era definitiva.


Presença de espírito


O jornal parou depois de ter publicado 31 números, de dezembro de 1821 a junho de 1822. Mas não se chegou a um acordo sobre a remuneração que ‘o Malagueta’ iria receber, sua nomeação não saiu e ele rompeu com José Bonifácio; em dezembro, anunciou que voltaria a publicar o jornal fazendo oposição ao governo.


Nesta segunda fase saíram sete ‘Malaguetas’ extraordinárias, sem periodicidade regular, a primeira em julho de 1822, a última em julho de 1824. A terceira fase, com o nome de Malagueta, sem o artigo, foi de 1828 a 1829, com 91 edições, mas não teve a repercussão da primeira. Na quarta e última, entre 1831 e 1832, saíram 36 números. May lamentava ter ficado sem tipografia para publicar o jornal, pois tinha sido ‘despedido pelo impressor que o alugava’, e convidava qualquer senhor dono de tipografia, empreendedor ou mesmo curioso, a tomar conta da folha, mas mantendo o redator.


Depois que May deixara de publicar A Malagueta em 1822, sem conseguir o cargo pretendido em Washington e de ter anunciado em dezembro o relançamento do jornal com ataques ao governo, foi atribuído a d. Pedro um artigo de virulência extremada com o título ‘O calmante da e no Malagueta‘, publicado no jornal O Espelho em janeiro de 1823. Dizia que May era o ‘esturdíssimo, esturradíssimo, constipadíssimo, matoníssimo, politiquíssimo, cacholíssimo sr autor de um periódico cujo nome é o de uma pimenta que se chama aqui malagueta ou, por outra, p. que o pariu (a ele)’, fazendo um trocadilho grosseiro e de mau gosto com a palavra indígena ‘bacupari’, sinônimo de malagueta.


O artigo também ridicularizava a figura de May: o nariz, os pés, as ‘canelas esburgadinhas’, os joelhos, as coxas, ‘a barriga que não tem’, o umbigo, o pescoço, a habilidade nas mãos, e detalhadamente o resto do corpo; o qualificou de impostor, estouvado e interesseiro, fez insinuações de homossexualismo e não poupou nem a sua mulher nem os seus filhos, ao dizer que ele os deixava ‘fazer o que lhes parece’. Chegou a acusar o jornalista de ter roubado documentos do conde de Funchal para vendê-los a Hipólito José da Costa. Isabel Lustosa diz que esta notável peça jornalística é ‘talvez única no seu estilo publicada no Brasil’.


May tinha elogiado d. Pedro em diversas ocasiões. Quando saiu o artigo que o ofendeu, pediu ao imperador que afirmasse publicamente, numa espécie de retratação, não ter sido ele o autor. D. Pedro prometeu fazê-lo através do Diário do Governo. Talvez como compensação e para acalmá-lo, May foi promovido em maio a oficial-mor graduado da Secretaria de Estado dos Negócios da Marinha, o posto mais alto do funcionalismo. Mas como não tivesse sido divulgado o desmentido, May publicou, na Malagueta extraordinária de junho de 1823, uma carta aberta ao imperador. Nela o lembrou da promessa não cumprida de publicar que o governo não tomara parte na ‘publicação suja de 10 de janeiro’, que a ‘todos parecera ter saído debaixo dos auspícios de Alta Proteção’, numa clara referência ao imperador; agradeceu a mercê (promoção) recebida, procurando ‘remediar o mal que outros tinham feito’; e criticou duramente os Andradas e várias pessoas da corte. E disse a d. Pedro: ‘Esta miséria só de per si obriga a Augusta Pessoa de V.M.I [Vossa Majestade Imperial] a tomar as suas medidas para se salvar da imputação que por lá fora se possa fazer – que V.M.I. saboreia tais despropósitos’.


No dia seguinte, José Bonifácio disse a May que iria visitá-lo em sua casa. Foi, não o encontrou e disse que voltaria mais tarde. O Malagueta o esperou na companhia de várias pessoas. Em lugar de José Bonifácio, apareceu um bando de encapuzados que atacou o grupo. Segundo May, tinham ‘espadas nuas e paus grossos que eu vi, e com os quais perpetraram em minha pessoa o massacre que constou de grande primeiro golpe de espada, que foi aparado no castiçal, e na mão esquerda, e do qual resultou o aleijão e ferida aberta que ainda hoje conservo, de mais cinco golpes ou cutiladas, maiores e menores na cabeça, que se me deram enquanto as luzes não se apagaram, além de dez ou doze contusões violentas no pescoço e corpo, de que resultou o aleijão do dedo índice da mão direita; e isto além da ruptura que me sobreveio com os esforços que eu fiz quando na minha fugida dos assassinos, passei a vala que divide a minha chácara da do Padre Serafim dos Anjos, para cuja casa eu me refugiei com o auxílio da escuridão’. Varnhagen escreve que May se salvou ‘pela presença de espírito de uma preta’, que apagou a luz, permitindo que ele fugisse precipitadamente para a chácara do padre vizinho. Um dos presentes, um padre, se escondeu embaixo de uma mesa.


Sem importância


O Diário do Governo publicou vários artigos atacando A Malagueta, sem mencionar a agressão ao seu redator durante vários dias. Quando o fez, um artigo assinado por Observador justificou o espancamento dizendo que era ‘muito e muito natural que um tal escritor provocasse a cólera de imensos indivíduos menos fleumáticos do que eu’. José Bonifácio foi apontado no Rio pela população e pela imprensa como suspeito de ter sido o mandante da agressão. Gondim da Fonseca acredita que, sem dúvida, foram os Andradas. O Correio do Rio de Janeiro escreveu uma quadrilha:




‘Chamam servis os Andradas,


é calúnia, é falso, é peta.


São liberais a ‘matar’,


e que o diga o Malagueta’.


No ano seguinte, num panfleto foi publicada esta quadra:


‘Caro Malagueta meu,


o mundo pasmado está


do pouco se vos dá


do muito que se vos deu’.


No entanto, é provável que a ordem para o espancamento tivesse partido de d. Pedro. Um dos agressores deixou cair uma carta procedente da Bahia que o identificou como uma pessoa de ‘alto cargo’, que teria sido Pedro Dias Pais Leme, futuro marquês de Quixeramobim. May disse que a ordem para a agressão não foi dada pelos Andradas, mas nunca quis revelar, por medo ou conveniência, quem a teria dado. Numa carta escrita do exílio, José Bonifacio disse do imperador que ‘quando o doido do May escreveu contra ele, prorrompeu na atrocidade que todos sabem’. Devido aos ferimentos recebidos, o Malagueta foi aposentado, porém ‘com exercício’ da função, o que levou o visconde de Cairu a escrever que ‘levar pancadas e pedir indenizações assaz lucrativas!!! Não é mau negócio, assim ele dure muitos anos!!!’ May continuou mandando cartas ao imperador pedindo favores, mesmo desconfiando, ou tendo certeza, de sua participação no atentado.


Em agosto de 1829, May foi espancado de novo, quando saía da Câmara. Recebeu várias pancadas na cabeça com um pau com pregos na ponta e ficou seriamente ferido. Novamente, é provável que o mandante fosse o imperador. O jornalista tinha escrito um artigo, ‘A fita e as devisas (sic)’, por ocasião do segundo casamento de d. Pedro, numa referência à preferência da nova imperatriz, Amélia Eugênia, pela cor rosa, que ficou na moda na corte. Em sua homenagem, o imperador criou a Ordem da Rosa e a corte lhe ofereceu um baile em que todas as damas usaram vestidos dessa cor.


A respeito desse segundo o atentado, o Jornal do Commercio escreveu: ‘A soltura de linguagem do redator da Malagueta, que nas suas cáusticas jeremíadas nem as cinzas dos mortos respeitava, tornasse como infalível uma tal catástrofe, contudo um atentado destes é para lastimar, pois a vida do Cidadão e do Deputado deve ser respeitada, quando se trata de reprimir a ousadia do jornalista. Assaz castigado se acha o redator da Malagueta pelo descrédito em que caiu na opinião pública’. Com essa agressão terminou uma das etapas da Malagueta.


May, que tinha sido eleito deputado, não conseguiu a reeleição. Tentou aproximar-se de Feijó, durante a Regência. No ocaso, escreveu ao regente que, no tempo de Pedro I, ‘se então era odiado, ao menos não era eu desprezado; hoje vou à casa de V. Excia. (pela terceira vez) e seus lacaios correm com a gente; ora, isto é duro’. O Malagueta tinha perdido a importância que conseguira com A Malagueta.

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Autor do livro Os Melhores Jornais do Mundo, em segunda edição

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