Domingo, 17 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

IMPRENSA EM QUESTãO > TAM, VÔO 3054

Um mea-culpa que não absolve

Por Ivan Berger em 31/07/2007 na edição 444

Na falta de lenitivo melhor, se é que pode haver algum no rescaldo desse último e doloroso capítulo do apagão aéreo, que remédio senão esperar pelo efeito purgativo que daí possa advir. Apesar do execrável top-top com que o assessor especial da Presidência comemorou o, para ele, fracasso da mídia em culpabilizar o governo pelo acidente, Lula dessa vez viu-se instado a fazer um mea culpa, reconhecendo finalmente as dificuldades para resolver uma crise que se arrasta há quase um ano. O que, juntamente com as providências enfim tomadas, não deixa de representar um avanço. Difícil de engolir, quiçá imperdoável, é que foi preciso o sacrifício de mais 200 vidas para que isso acontecesse.


Obviamente, nada disso o redime e tampouco serve de atenuante para a tragédia anunciada, mesmo porque soluções duradouras vão exigir bem mais que simples boas intenções. Mas não era sem tempo que o presidente caísse na real e assumisse na prática a responsabilidade de promover as necessárias mudanças.Como a substituição do amigo Waldir Pires, cuja inoperância, aliada à total falta de tato para lidar com os problemas que foram se avolumando, contribuiu decisivamente para que a crise enveredasse por esse caminho funesto. A ponto de o próprio presidente confessar, belquiornamente, que também sente medo de viajar de avião.


Empresas imberbes


E não é para menos. Mesmo com a probabilidade de que o acidente de Congonhas tenha sido causado por uma fatídica combinação de fatores, nem por isso as partes envolvidas podem respirar aliviadas. Principalmente a TAM, cuja parcimônia para consertar o tal reversor avariado foi, no mínimo, temerária. Ainda mais sabendo que o avião sinistrado já havia tido dificuldades de pouso dias antes, em condições semelhantes. Mais séria ainda é a revelação de que a carga horária da aeronave andava no limite, voando quase que ininterruptamente. Prática, aliás, que se tornou comum com a necessidade de atender à crescente demanda, como a mídia tem solertemente alertado.


Por essas e outras, o fato de a batata quente ter parado no colo do governo está longe de ser improcedente, e muito menos uma nova forçação de barra da imprensa golpista, como os mais afoitos voltam a tonitruar. São os antecedentes, a omissão, a impotência evidenciada meses a fio que numa hora dessas, de clamor e revolta, inevitavelmente se sobrepõem a tudo.


A mídia sequer tem precisado se esforçar para demonstrar a participação negativa do governo nesse infausto processo. O fato de ter transformado os órgãos responsáveis pelo gerenciamento do setor em produtos de escambo político é o de menos. Pecado maior, além de o de subestimar os problemas, foi ter permitido o sucateamento da Varig, cuja frota e padrão de qualidade eram o ponto de equilíbrio de nossa aviação. Verdade que a empresa começou a ratear décadas atrás, mas faltou a Lula coragem e competência para costurar um plano de salvação, como seu antecessor fez várias vezes, mesmo com um ônus político irreparável, principalmente em relação ao Proer. Mas Lula preferiu entregar o mercado de bandeja a duas empresas imberbes que, não obstante o esforço para dar conta do recado, ainda estão cruas para atender a um mercado em franca expansão.


Sinistra pauta?


Falta de iniciativa, de coragem, de empreendedorismo, como cobram os críticos; ou cautela e austeridade, de acordo com os governistas. Seja lá como se encare o modus operandi lulista, o certo é que toda essa morosidade – e por que não dizer, negligência – acabou deixando-o na corda bamba, com o prestígio em xeque.Coisa que a mídia, nem que quisesse, poderia inventar. Como as vaias do Maracanã e as que começam a persegui-lo onde quer que vá, não deixam de ser uma espécie de sinal de alerta, Lula finalmente resolveu sair da letargia nomeando um magistrado com fama de enérgico e prometendo medidas e recursos que permitam exorcizar a sinistra pauta.


Sinistra pauta? Talvez nem tanto. A água benta do bom senso já seria um bom começo. Como coibir as empresas de vender mais bilhetes do que sua capacidade. De exigir a programação de vôos sob critérios técnicos, ao invés de financeiros.Ter em mente que pista pequena é para avião pequeno, pista grande é para avião grande, limpando a barra de Congonhas. Coisas assim, que podem não ser nenhum ovo de Colombo mas já seriam um bom começo.


***


O estelionato intelectual


‘Só o pedantismo ou o despeito costumam denunciar pequenos erros e lapsos.’ Nada como um parecer insuspeito para deixar as coisas em pratos limpos. Se é que a opinião de um mestre como Otto Maria Carpeaux é suficientemente abalizada para alguém com o farisaísmo intelectual da professora Maria Izabel Brunacci (ver, neste Observatório, ‘A pedagogia do ceticismo‘). Seu proselitismo pode impressionar alunos e correligionários, mas tende a ser tão maléfico para a sociedade quanto aqueles que fazem mau uso de cargos ou ofícios de responsabilidade pública.


Não digo isso por causa dos reparos feitos pela pedagoga a meu artigo anterior (‘Pesquisas em xeque – A cupidez dos números‘), por sinal procedentes, pelo menos no que tange à gramática. Aliás, se é como ela diz no primeiro parágrafo, a discussão de meu texto com seus alunos me deixa até lisonjeado.Pena que nesse tour de force para desqualificar e refutar meus pontos de vista, ela se preocupe tanto com correções gramaticais irrelevantes, que podem ofuscar o texto mas não comprometem o conteúdo. Erros, em sua maioria, fruto de desatenção, quando não de descuido na própria edição da matéria, como ocorre no trecho em que a subtração de um ponto que consta no texto original – explorado por ela com incontido estardalhaço.


Pregação marxista-socialista


Chega a ser estranho, pois nada justifica tanto matraqueado em torno de deslizes que, sob outra ótica que não a do mencionado pedantismo, noves fora o tradicional chauvinismo das esquerdas retrógradas, poderiam perfeitamente ser encarados como simples acidentes de trabalho. Aos quais, mesmo os mais calejados estão sujeitos. Como Paulo Francis, cujas inúmeras mancadas, quem diria, foram impiedosamente dissecadas pelo jornalista e escritor Fernando Jorge num livro de 500 páginas, perpetrado em tom tão desaforado que faz o libelo da professora parecer uma singela declaração amorosa. Seus alunos podem até rir do que chama de suposta falta de seriedade autoral, mas o simples fato de meu febeapá ter rendido toda essa discussão representa para mim o melhor dos desagravos.


Além do que, discurso por discurso, consternador mesmo é ver essa modorrenta ladainha político-partidária sendo levada até às últimas conseqüências por gente que, até por motivos éticos, deveria se abster de um partidarismo tão exacerbado.Tudo bem que as escolas proporcionem aos alunos noções básicas de cidadania e política, mas daí a induzi-los a acreditar na velha pregação marxista-socialista de divisão de classes, na milonga da espoliação dos pobres pelos ricos, na satanização da imprensa, eu diria que esse tipo de manipulação vai muito além dos malefícios atribuídos a imprensa.Trata-se de um verdadeiro estelionato intelectual, que mentores como Brunacci e Caroni promovem inspirados na quimera do lulismo e por isso tremem nas bases diante dos indícios de que o prestígio do homem ameaça desabar.

******

Jornalista, Santos, SP

Todos os comentários

  1. Comentou em 05/08/2007 Filipe Fonseca

    Ivan Berger, achei que era pessoal pelo ‘outro [servidor público]? Ninguém trabalha?’. Mas tudo bem, desculpas aceitas, vida que segue, todo mundo generaliza de vez em quando.

    O que continua a me incomodar é a maneira rasa e desatenta com que você trata os argumentos de que discorda. Você me imputa um pensamento que não é meu. Concordo com você que a vitimização do pobre é errada – e até prejudicial para o pobre-, por exemplo. Mas, por defender a validade de uma análise da qual discordo em muitos pontos, sou taxado de ‘retrógrado’, ou coisa que o valha.

    É isso que eu chamei de defesa do pensamento único. Quando se desqualifica o argumento alheio não por seus méritos e deméritos, mas por sua procedência histórica, se está impedindo qualquer possibilidade de debate. Aliás, se a questão é antigüidade, o liberalismo tem mais de 300 anos. Que dizer dele?

    Já tive o desprazer de conviver com militantes ‘marxistas-socialistas’, e, honestamente, acho insuportável o discurso ralo e a falta de ação deles. Mas isso não pode desqualificar a contribuição do marxismo para a compreensão da realidade.

  2. Comentou em 05/08/2007 Filipe Fonseca

    Ivan Berger, achei que era pessoal pelo ‘outro [servidor público]? Ninguém trabalha?’. Mas tudo bem, desculpas aceitas, vida que segue, todo mundo generaliza de vez em quando.

    O que continua a me incomodar é a maneira rasa e desatenta com que você trata os argumentos de que discorda. Você me imputa um pensamento que não é meu. Concordo com você que a vitimização do pobre é errada – e até prejudicial para o pobre-, por exemplo. Mas, por defender a validade de uma análise da qual discordo em muitos pontos, sou taxado de ‘retrógrado’, ou coisa que o valha.

    É isso que eu chamei de defesa do pensamento único. Quando se desqualifica o argumento alheio não por seus méritos e deméritos, mas por sua procedência histórica, se está impedindo qualquer possibilidade de debate. Aliás, se a questão é antigüidade, o liberalismo tem mais de 300 anos. Que dizer dele?

    Já tive o desprazer de conviver com militantes ‘marxistas-socialistas’, e, honestamente, acho insuportável o discurso ralo e a falta de ação deles. Mas isso não pode desqualificar a contribuição do marxismo para a compreensão da realidade.

  3. Comentou em 05/08/2007 Ivan Berger

    Sr. Filipe, quando falei em mamar nas teúdas e manteúdas têtas públicas não falei especificamente do sr. Como bem sabemos,há ‘mamadores’ bem mais fornidos que os do funcionalismo público,cuja imagem depreciativa,herança dos tempos do estadismo tão defendido pelos petistas,não significa que não haja gente responsável e ciosa de seus deveres no serviço público.Eu mesmo tenho amigos servidores- públicos da maior competência e seriedade,se o ofendi,e outros mais,peço humildes desculpas.O que,no entanto,não me impede de achar que o sr. e outros simpatizantes do discurso marxista deveriam se reciclar,lutar em outras frentes,ao invés de se colocarem sempre como vítimas do capitalismo,das elites exploradoras,da mídia golpista.Que por paradoxal que pareça,são as alavancas básicas do progresso e a razão principal do relativo exito de Lula até aqui.Espero que pelo menos nisso estejamos de acordo.

  4. Comentou em 02/08/2007 Ivan Berger

    Poxa,até que enfim alguém se dispõe a debater idéias,ao invés de encarar tudo sob a ótica caolha da militância e do partidarismo cego ,como a maioria dos simpatizantes governistas.Sou crítico do lulismo,da amoralidade encampada pelo petismo,e acho que os bons números da economia,herdados dos fundamentos deixados pela era FHC,como os próprios economistas simpáticos a Lula reconhecem,não podem servir de biombo para o descalabro dos outros setores vitais do país.Como segurança,educação,infra-estrutura,o caos aéreo,das rodovias,dos portos,e por aí afora.É claro que sanear problemas tão sérios não se faz de maneira indolor,medidas drásticas e impopulares seriam necessárias,como seria o caso de um plano de salvação da Varig.Algo que nosso ilustre presidente,cioso de sua condição de melhor prersidente que o país já teve,conforme uma dessas pesquisas capciosas tão à gosto da propaganda oficial,não parece disposto a fazer.Essa inércia é o grande pecado de um governo que há seis anos se pavoneia da mesma coisa. E o pior de tudo é ver como tanta gente ainda se ilude com essa papagaiada,por conte de idiossincracias político-ideológicas que só em nossos tristes trópicos ainda fazem a cabeça das pessoas.No mais,obrigado por seu comentário,Sérgio.

  5. Comentou em 01/08/2007 Ivan Berger

    Ah,ia esquecendo.professora Maria Izabel , aproveita e faz um cursinho com sua xará,que vc. está precisando mais do que eu.Douto Abelardo,porque será que não me surpreende que vc.não tenha entendido um texto,na sua própria concepção,tão simplório ? Mas não se desespere por falta de companhia,que o coro dos atrabiliários nunca deixa de aparecer.E quer saber,sem eles isso aqui não teria a menor graça.

  6. Comentou em 01/08/2007 Ivan Berger

    Ah,ia esquecendo.professora Maria Izabel , aproveita e faz um cursinho com sua xará,que vc. está precisando mais do que eu.Douto Abelardo,porque será que não me surpreende que vc.não tenha entendido um texto,na sua própria concepção,tão simplório ? Mas não se desespere por falta de companhia,que o coro dos atrabiliários nunca deixa de aparecer.E quer saber,sem eles isso aqui não teria a menor graça.

  7. Comentou em 01/08/2007 Paulo Bandarra

    Se Lula tivesse salvado a VARIG a mídia teria caído de pau nele por colocar dinheiro público em cima de má gestão econômica! E a culpa de não pagar a dívida do governo com ela, deve ser dividido com os governos anteriores, e não apenas com este! É de duvidar que o transponder tivesse funcionado ou a falha do Airbus ao operar com um reverso pinado não houvesse ocorrido! Quanto a professoras adeptas do fascismo internacional socialista, é preocupante, pois professoras que não aprendem com a história, o que podem ensinar para as gerações futuras a não ser perpetuado os erros? Quando não enxergam que estes sistemas socialistas nacionalistas, como o de Chaves e Evo Morales, ou os leninista-stalinistas, estes últimos modelo foram rejeitados pelo seu próprio povo! Mas aquelas professoras que viveram fora sabem mais do que as próprias pessoas que as vivenciaram! Como diz o nosso presidente Lula, só para pessoas que possuem problemas na cabeça, doença incurável!!!

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