Segunda-feira, 22 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1009
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IMPRENSA EM QUESTãO >

Um mea-culpa que não absolve

Por Ivan Berger em 31/07/2007 na edição 444

Na falta de lenitivo melhor, se é que pode haver algum no rescaldo desse último e doloroso capítulo do apagão aéreo, que remédio senão esperar pelo efeito purgativo que daí possa advir. Apesar do execrável top-top com que o assessor especial da Presidência comemorou o, para ele, fracasso da mídia em culpabilizar o governo pelo acidente, Lula dessa vez viu-se instado a fazer um mea culpa, reconhecendo finalmente as dificuldades para resolver uma crise que se arrasta há quase um ano. O que, juntamente com as providências enfim tomadas, não deixa de representar um avanço. Difícil de engolir, quiçá imperdoável, é que foi preciso o sacrifício de mais 200 vidas para que isso acontecesse.


Obviamente, nada disso o redime e tampouco serve de atenuante para a tragédia anunciada, mesmo porque soluções duradouras vão exigir bem mais que simples boas intenções. Mas não era sem tempo que o presidente caísse na real e assumisse na prática a responsabilidade de promover as necessárias mudanças.Como a substituição do amigo Waldir Pires, cuja inoperância, aliada à total falta de tato para lidar com os problemas que foram se avolumando, contribuiu decisivamente para que a crise enveredasse por esse caminho funesto. A ponto de o próprio presidente confessar, belquiornamente, que também sente medo de viajar de avião.


Empresas imberbes


E não é para menos. Mesmo com a probabilidade de que o acidente de Congonhas tenha sido causado por uma fatídica combinação de fatores, nem por isso as partes envolvidas podem respirar aliviadas. Principalmente a TAM, cuja parcimônia para consertar o tal reversor avariado foi, no mínimo, temerária. Ainda mais sabendo que o avião sinistrado já havia tido dificuldades de pouso dias antes, em condições semelhantes. Mais séria ainda é a revelação de que a carga horária da aeronave andava no limite, voando quase que ininterruptamente. Prática, aliás, que se tornou comum com a necessidade de atender à crescente demanda, como a mídia tem solertemente alertado.


Por essas e outras, o fato de a batata quente ter parado no colo do governo está longe de ser improcedente, e muito menos uma nova forçação de barra da imprensa golpista, como os mais afoitos voltam a tonitruar. São os antecedentes, a omissão, a impotência evidenciada meses a fio que numa hora dessas, de clamor e revolta, inevitavelmente se sobrepõem a tudo.


A mídia sequer tem precisado se esforçar para demonstrar a participação negativa do governo nesse infausto processo. O fato de ter transformado os órgãos responsáveis pelo gerenciamento do setor em produtos de escambo político é o de menos. Pecado maior, além de o de subestimar os problemas, foi ter permitido o sucateamento da Varig, cuja frota e padrão de qualidade eram o ponto de equilíbrio de nossa aviação. Verdade que a empresa começou a ratear décadas atrás, mas faltou a Lula coragem e competência para costurar um plano de salvação, como seu antecessor fez várias vezes, mesmo com um ônus político irreparável, principalmente em relação ao Proer. Mas Lula preferiu entregar o mercado de bandeja a duas empresas imberbes que, não obstante o esforço para dar conta do recado, ainda estão cruas para atender a um mercado em franca expansão.


Sinistra pauta?


Falta de iniciativa, de coragem, de empreendedorismo, como cobram os críticos; ou cautela e austeridade, de acordo com os governistas. Seja lá como se encare o modus operandi lulista, o certo é que toda essa morosidade – e por que não dizer, negligência – acabou deixando-o na corda bamba, com o prestígio em xeque.Coisa que a mídia, nem que quisesse, poderia inventar. Como as vaias do Maracanã e as que começam a persegui-lo onde quer que vá, não deixam de ser uma espécie de sinal de alerta, Lula finalmente resolveu sair da letargia nomeando um magistrado com fama de enérgico e prometendo medidas e recursos que permitam exorcizar a sinistra pauta.


Sinistra pauta? Talvez nem tanto. A água benta do bom senso já seria um bom começo. Como coibir as empresas de vender mais bilhetes do que sua capacidade. De exigir a programação de vôos sob critérios técnicos, ao invés de financeiros.Ter em mente que pista pequena é para avião pequeno, pista grande é para avião grande, limpando a barra de Congonhas. Coisas assim, que podem não ser nenhum ovo de Colombo mas já seriam um bom começo.


***


O estelionato intelectual


‘Só o pedantismo ou o despeito costumam denunciar pequenos erros e lapsos.’ Nada como um parecer insuspeito para deixar as coisas em pratos limpos. Se é que a opinião de um mestre como Otto Maria Carpeaux é suficientemente abalizada para alguém com o farisaísmo intelectual da professora Maria Izabel Brunacci (ver, neste Observatório, ‘A pedagogia do ceticismo‘). Seu proselitismo pode impressionar alunos e correligionários, mas tende a ser tão maléfico para a sociedade quanto aqueles que fazem mau uso de cargos ou ofícios de responsabilidade pública.


Não digo isso por causa dos reparos feitos pela pedagoga a meu artigo anterior (‘Pesquisas em xeque – A cupidez dos números‘), por sinal procedentes, pelo menos no que tange à gramática. Aliás, se é como ela diz no primeiro parágrafo, a discussão de meu texto com seus alunos me deixa até lisonjeado.Pena que nesse tour de force para desqualificar e refutar meus pontos de vista, ela se preocupe tanto com correções gramaticais irrelevantes, que podem ofuscar o texto mas não comprometem o conteúdo. Erros, em sua maioria, fruto de desatenção, quando não de descuido na própria edição da matéria, como ocorre no trecho em que a subtração de um ponto que consta no texto original – explorado por ela com incontido estardalhaço.


Pregação marxista-socialista


Chega a ser estranho, pois nada justifica tanto matraqueado em torno de deslizes que, sob outra ótica que não a do mencionado pedantismo, noves fora o tradicional chauvinismo das esquerdas retrógradas, poderiam perfeitamente ser encarados como simples acidentes de trabalho. Aos quais, mesmo os mais calejados estão sujeitos. Como Paulo Francis, cujas inúmeras mancadas, quem diria, foram impiedosamente dissecadas pelo jornalista e escritor Fernando Jorge num livro de 500 páginas, perpetrado em tom tão desaforado que faz o libelo da professora parecer uma singela declaração amorosa. Seus alunos podem até rir do que chama de suposta falta de seriedade autoral, mas o simples fato de meu febeapá ter rendido toda essa discussão representa para mim o melhor dos desagravos.


Além do que, discurso por discurso, consternador mesmo é ver essa modorrenta ladainha político-partidária sendo levada até às últimas conseqüências por gente que, até por motivos éticos, deveria se abster de um partidarismo tão exacerbado.Tudo bem que as escolas proporcionem aos alunos noções básicas de cidadania e política, mas daí a induzi-los a acreditar na velha pregação marxista-socialista de divisão de classes, na milonga da espoliação dos pobres pelos ricos, na satanização da imprensa, eu diria que esse tipo de manipulação vai muito além dos malefícios atribuídos a imprensa.Trata-se de um verdadeiro estelionato intelectual, que mentores como Brunacci e Caroni promovem inspirados na quimera do lulismo e por isso tremem nas bases diante dos indícios de que o prestígio do homem ameaça desabar.

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Jornalista, Santos, SP

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