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Quinta-feira, 16 de Agosto de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1000
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IMPRENSA EM QUESTãO > FOLHA DE S.PAULO

Um passo à frente, outro atrás

Por Alberto Dines em 15/04/2008 na edição 481

‘Excepcionalmente hoje a coluna [do ombudsman] não é publicada.’ A explicação está na edição da Folha de S.Paulo‘ de domingo (13/4, pág. A-8) e, na verdade, dizia aos leitores o seguinte: ‘Desculpem. Ainda não temos um substituto para exercer a Ouvidoria’.


O jornal meteu-se numa enrascada pública, mesmo que tenham desaparecido magicamente as cartas dos leitores reclamando contra a não-renovação do mandato do ombudsman Mário Magalhães. Quando o pressionou a aceitar o fim do boletim diário de críticas pela internet, a direção do jornal deveria ter aventado a hipótese de uma recusa. Não pensou nisso, nem tinha um nome alternativo. E, se tivesse, deveria ter sido anunciado de imediato ou, pelo menos, uma semana depois da cerimônia do adeus de Magalhães, ainda que sua ‘posse’ viesse a consumar-se posteriormente.


E isso acontece num jornal que tem a coragem e a galhardia para diferenciar-se do grosso da grande mídia (e alguns dos seus mais reacionários colaboradores) ao organizar um debate sobre a TV Pública com um imbatível elenco de participantes: os presidentes das duas redes públicas (Tereza Cruvinel e Paulo Markun) e dois dos mais lúcidos observadores da imprensa – Eugênio Bucci e Carlos Eduardo Lins da Silva, ambos colaboradores regulares deste Observatório (ver aqui nota sobre o evento, para assinantes).


As mesmas pessoas que fizeram a tresloucada opção de encostar o ouvidor contra a parede tiveram a sensibilidade para perceber que a despudorada campanha contra a TV Brasil e o conceito de TV Pública empreendida pela ‘imprensa sadia’ (para usar a velha expressão de Gondin da Fonseca) é xiita. Pior: xiita e canhestra.


Quem se não os governos têm condições de bancar uma televisão de qualidade? Sob a égide exclusiva do Ibope será possível fazer um telejornalismo capaz de deixar resíduos informativos, culturais e existenciais?


Teor e atributos


É evidente que o distanciamento ou aproximação da TV Brasil com o governo não será muito diferente dos balanceamentos adotados pela TV Cultura ou pela antiga TVE durante gestões de profissionais como Fernando Barbosa Lima. Então, por que este ataque encarniçado e implacável a uma emissora que tem apenas cinco meses de vida e sequer teve tempo para escolher o seu logotipo?


A Folha deu um passo à frente ao organizar um evento com esta densidade e um passo atrás no caso da dispensa indireta do seu ouvidor. Pela aritmética, empate. No cômputo moral, a perda de um ‘defensor do leitor’ – e nas condições em que ocorreu – pesa mais. Todo jornalista é um ouvidor, todo jornalista é um crítico de jornalismo. Descartar um ouvidor, mesmo que venha a ser plenamente substituído, significa descartar um símbolo.


Alem de dedicar-se à defesa do interesse público o jornalismo não deve desobrigar-se do papel de ‘maldito’. Maldito, no caso, é sinônimo de inconformado, exigente, obstinado, turrão. E solitário. A última profissão romântica tem este nome porque romantismo é algo necessariamente tormentoso, prenhe de exaltações e dilemas.


A decadência apontada pelos consultores de mídia não diz respeito apenas ao jornalismo impresso: o processo jornalístico vem se decompondo por inteiro, perde teor e atributos. Hoje fala-se em ética como poção que se compra na farmácia, mas não existe ética sem dor. Cada decisão jornalística tem que ser onerosa e dolorosa. Bom jornalismo só se pratica com o ranger dos dentes, mesmo nos melhores momentos.


Benditos os malditos.

Todos os comentários

  1. Comentou em 18/04/2008 Octavio Luiz dos Santos Junior

    Ainda não entendi qual o motivo, da imprensa mover uma campanha despudorada e um ataque encarniçado e implacável contra a TV Brasil.
    Admito que pode haver um ataque ao govêrno, não a tv em si.
    Com todo o respeito, a TV Brasil não tem tanto poder assim nem tanta audiência para tal.
    Entendo por exemplo a imprensa atacar a Globo, algumas vêzes sem razão, por motivos concorrenciais.
    Agora na minha opinião o govêrno da todos os motivos para isso, a implantação da TV Brasil como o govêrno quis implantar pode ser necessária, mas não prioritária, com este montante de verba e por decreto , e achei estranha a atitude do Observatório que antes fez restrições a isso e depois acabou aceitando, e este episódio com Luiz Lobo, acaba por gerar desconfiança e dar motivos
    para ela ser chamada de TV do Lula, o que a prinípio rejeitei, e a reação da imprensa pode ser devido aos consatantes ataques do govêrto a imprensa.

  2. Comentou em 17/04/2008 Rogério Ferraz Alencar

    Também acho, Cid Elias, que esse ombudsman será defensor do jornal, e, não, dos leitores. Até acho que ele foi indicado por José Serra. Por falar em José Serra: hoje, 17/04, em editorial, a Folha tratou da ameaça de apagão elétrico em São Paulo. A culpa, é claro, foi jogada para o governo federal, embora a Folha, surpreendentemente, tenha atribuído parte da culpa ao ‘governo paulista’ e ao PSDB. Ainda não foi dessa vez que a Folha teve a ousadia de associar o nome de José Serra a algum problema em São Paulo. Quando há problema, que é logo minimizado ao máximo, a culpa é do governo paulista ou do governo estadual. José Serra só aparece tentando resolver os problemas causados pelo governo estadual. Como na própria edição do dia 17, quando, em uma matéria, José Serra aparece cobrando, do governo federal, o repasse de recursos, para evitar o apagão.

  3. Comentou em 16/04/2008 amarildo garcia

    O considerado Alfredo Spínola de Mello Neto, paulistano, advogado e jornalista “porque ninguém é perfeito”, como ele mesmo diz, escreveu ao então ombudsman da Folha de S. Paulo, Mário Magalhães, para lhe perguntar o significado da palavra clégima, encontrada em matéria do jornal, porém desconvizinha de todos os dicionários.
    Depois de 12 dias de espera, o ombudsman respondeu que não poderia falar a respeito do assunto, porque a autora do texto estava de férias. Foi então que assomou o advogado Spínola, disposto a não deixar barato, e atormentou de tal forma o, digamos, ouvidor, que este pediu demissão do cargo, conforme todos sabem.
    Pelo menos foi assim que Janistraquis interpretou a surpreendente catástese de Mário Magalhães.
    Confira no Blogstraquis a troca de mensagens entre leitor e demitido, numa das quais Spínola escreveu, premonitoriamente:

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