Terça-feira, 19 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

IMPRENSA EM QUESTãO > SALVATORE CACCIOLA

Um prato cheio para a imprensa

Por Luciano Martins Costa em 25/09/2007 na edição 452

A imprensa brasileira ainda não parece ter percebido a excelente oportunidade que surge com a iminente extradição, pelo principado de Mônaco, do ex-banqueiro Salvatore Alberto Cacciola. Uma pequena nota na revista Veja (nº 2027, de 26/9/2007) dá conta de que Cacciola tem mandado, por meio de familiares, alguns recados ameaçadores: ele promete contar detalhes do que antecedeu e do que se seguiu ao escândalo relacionado à desvalorização do real, em 13 janeiro de 1999.

A julgar pelo conteúdo do livro Eu, Alberto Cacciola, confesso: o escândalo do Banco Marka, que lançou em 2001, Cacciola tem muito a oferecer aos jornalistas. Suas insinuações podem apontar para uma sólida ponte entre o caso que a imprensa está chamando de ‘mensalão mineiro’ e que trata de possíveis desvios de dinheiro público para a campanha à reeleição do então governador de Minas, o tucano Eduardo Azeredo, e o escândalo que a imprensa denominou simplemente ‘mensalão’, e que tem como principais protagonistas ex-dirigentes do PT e parlamentares da base de apoio do governo federal.

Mas é preciso contar a história toda. Primeiro, esclarecendo que Cacciola não era um aventureiro internacional que especulava no mercado brasileiro, como ficou indicado no noticiário da época. Ele nasceu na Itália durante a Segunda Guerra, mas veio para o Brasil ainda menino, nos anos 1950, quando sua família emigrou para o Rio. Ele começou a trabalhar no mercado financeiro no final dos anos 1960, compondo a primeira geração de yuppies do Brasil, jovens operadores da Bolsa que fizeram fortuna com apostas ousadas e se beneficiaram do crescimento da economia no período do chamado ‘milagre econômico’.

‘Protegido pela máquina’

Nos anos 1990, Cacciola já era dono do banco Marka e de duas empresas no exterior, que, segundo se apurou depois, utilizava para operações de remessa ilegal e lavagem de dinheiro. No final de 1998, quando o mercado foi sacudido pelas crises da Ásia e da Rússia, o governo brasileiro ainda mantinha o câmbio fixo, com o real equiparado ao dólar e o presidente Fernando Henrique Cardoso, em plena campanha pela reeleição, garantia que a política cambial não seria alterada.

Vencida a eleição em primeiro turno, o presidente fez o que dizia que não seria feito menos de duas semanas depois de tomar posse. No dia 13 de janeiro, substituiu o presidente do Banco Central, Gustavo Franco, defensor do câmbio fixo, por Francisco Lopes.

Trabalhando com informações privilegiadas que lhe passavam pessoas bem situadas no Banco Central, Cacciola não acreditou nos boatos de que o governo promoveria uma grande desvalorização da moeda logo no começo de janeiro. Ele havia grampeado os telefones do investidor Luiz Augusto Bragança, amigo de infância de Francisco Lopes, e comparava os dados que obtinha por esse meio com as informações recebidas diretamente de suas fontes no BC.

Apostou no real e perdeu. Mas resolveu usar suas informações para forçar Francisco Lopes a salvar o Marka. Lopes vendeu ao Marka e ao banco FonteCindam, que também corria risco por haver apostado no real, os dólares de que eles necessitavam para cobrir seu patrimônio, o que deu aos cofres públicos um prejuízo calculado em 1,6 bilhão de reais.

A imprensa publicou tudo isso. Publicou também o resultado de investigações centralizadas pelo senador petista Aloizio Mercadante e toda a apuração que se seguiu através da CPI dos Bancos, segundo as quais 24 bancos haviam sido beneficiados por informações privilegiadas sobre a desvalorização do real. Cacciola foi preso num spa do Rio Grande do Sul enquanto esperava o julgamento. Beneficiado por um habeas-corpus do ministro Marco Aurélio Mello, que havia assumido interinamente a presidência do Supremo Tribunal Federal, fugiu para a Itália, de onde não poderia ser extraditado.

Lançou seu livro em 2001, no qual afirma que Francisco Lopes era um personagem menor do escândalo. ‘Ele foi um fantoche usado por pessoas muito mais importantes’, disse Cacciola, em entrevista ao jornalista Leão Serva, do Último Segundo, do portal iG. ‘Acho que ele foi protegido pela máquina do governo e tudo o que foi feito em termos de Chico Lopes foi muito mais um cinema, porque na realidade nada aconteceu com ele’, observou o ex-banqueiro. De fato, Lopes nunca foi condenado por gestão fraudulenta, o que o tiraria do mercado financeiro, e segue ainda hoje atuando como consultor.

Noite na cadeia

Cacciola também estranha que, logo após a CPI dos bancos, o senador Aloizio Mercadante tenha esquecido as denúncias e que a CPI não tenha se aprofundado no esclarecimento das responsabilidades de quem havia comandado a mudança na política de câmbio. Ele insinua que há uma relação entre o retraimento do PT em suas acusações e o financiamento da campanha eleitoral em 2002.

Entre a campanha de 1998, onde teria surgido o chamado ‘valerioduto’ – esquema de captação de dinheiro para a campanha do PSDB em Minas, que passava pelas empresas do publicitário Marcos Valério –, e o chamado ‘mensalão’, que levou à desgraça a antiga cúpula do PT, pode estar o episódio que tem Salvatore Alberto Cacciola como personagem central.

A imprensa tem a oportunidade histórica de destrinchar esse caso, nomeando todos os envolvidos, sem privilegiar partidos com os quais possui afinidades ideológicas. Com isso, pode abrir a possibilidade de um movimento cívico que convença o Congresso Nacional – ou o que dele sobrar – a finalmente promover uma reforma política. Mas também pode repetir o que fez em 2005, sitiando o governo e privilegiando um dos lados da história.

A convergência dos dois capítulos do escândalo que envolve o caixa 2 em campanhas eleitorais tem potencial para levar ao banco dos réus representantes de praticamente todos os grandes partidos políticos. O escândalo Marka-FonteCindam, que deve reviver com a extradição de Salvatore Cacciola, aponta para as cabeças coroadas do PSDB. No meio de todas essa barafunda, é bom não esquecer a figura do presidente do Senado, Renan Calheiros, que vem registrando em seu diário de bordo os feitos e desfeitos de muitos personagens importantes da República.

O Globo saiu na frente, em sua edição de domingo (23/9), com um alentado levantamento sobre os crimes financeiros dos últimos 25 anos, calculando em quase 51 bilhões de reais as perdas causadas à sociedade e aos cofres públicos. É um bom começo, mas ainda distante de relacionar os crimes financeiros com a política. Por enquanto, o único banqueiro que já passou uma noite na prisão foi Salvatore Cacciola, ainda antes do seu julgamento, e nenhuma prisão aconteceu depois de sua condenação. Nem um centavo desses muitos bilhões foi devolvido ao tesouro nacional.

Todos os comentários

  1. Comentou em 02/10/2007 Paulo Bandarra

    Engraçado, caro Publicitario Marcelo Ramos , São Paulo-SP – Carta Capital e Mino Carta, sempre defenderam que nunca existira e que era ‘invenção da crise’! Quer dizer que em Minas realmente ocorreu, só depois que não? Que interessante?

  2. Comentou em 26/09/2007 Octavio Hollemberg

    Já que o Dines não fala, o Zé Dirceu diz: _____________________’Aos poucos, parte da nossa mídia vai transformando uma denúncia que envolve o PSDB, o partido de FHC, Tasso Jereissati, Artur Virgílio, José Serra, numa denúncia contra o Ministro da Articulação Política do Governo Lula, Valfrido dos Mares Guia. Vão sumindo os nomes de Eduardo Azeredo e Aécio Neves. O PSDB quase nunca é citado ou cobrado, como se fosse natural esse partido e o PFL fazerem caixa dois. Vão surgindo listas que envolvem parlamentares, lógico em primeiro lugar do PT, depois do PSDB e do PFL. O chamado valerioduto mineiro, nada mais é do que mais um caso de caixa dois, mas aqui a mídia não procura chefes, nem quadrilhas ou bandos, mas sim quem do governo Lula ou do PT teria participado do esquema mineiro. ‘

  3. Comentou em 26/09/2007 Octavio Hollemberg

    Já que o Dines não fala, o Zé Dirceu diz: _____________________’Aos poucos, parte da nossa mídia vai transformando uma denúncia que envolve o PSDB, o partido de FHC, Tasso Jereissati, Artur Virgílio, José Serra, numa denúncia contra o Ministro da Articulação Política do Governo Lula, Valfrido dos Mares Guia. Vão sumindo os nomes de Eduardo Azeredo e Aécio Neves. O PSDB quase nunca é citado ou cobrado, como se fosse natural esse partido e o PFL fazerem caixa dois. Vão surgindo listas que envolvem parlamentares, lógico em primeiro lugar do PT, depois do PSDB e do PFL. O chamado valerioduto mineiro, nada mais é do que mais um caso de caixa dois, mas aqui a mídia não procura chefes, nem quadrilhas ou bandos, mas sim quem do governo Lula ou do PT teria participado do esquema mineiro. ‘

  4. Comentou em 26/09/2007 marcos miguel targino

    A imprensa já escolheu o que fazer. Esconde o que pode do caso Cacciola. O que não pode,publica em pequenas notas, sem dar repercussão a elas.Em troca do quê o BC encomendou à BM&F um parecer recomendando socorrer Cacciola, para dar ‘verniz’ técnico àquela vergonha?A anuência de Pedro Malan à operação se deu em qual contexto?Quanto FHC sabia do passo-a-passo desse enorme desfalque ao bolso do povo?São dúvidas que SC poderia esclarecer.Engajada em desgastar Lula (e contrariada pelos sucessivos indicadores positivos de seu Governo), a imprensa está, e vai continuar ‘blindando’ o PSDB.E ainda vai tentar, como já faz na cobertura do mensalão ‘mineiro’ (é proibido associar o PSDB a escândalos), jogar a culpa em Lula e no PT. Por essas e outras, o Movimento dos Sem-mídia cresce.

  5. Comentou em 25/09/2007 Jose Paulo Badaro

    Uma pequena nota na revista Veja (nº 2027, de 26/9/2007) dá conta de que Cacciola tem mandado, por meio de familiares, alguns recados ameaçadores: ele promete contar detalhes do que antecedeu e do que se seguiu ao escândalo relacionado à desvalorização do real, em 13 janeiro de 1999.

    Vejo, sem trocadilho, tudo com reservas o que diz essa revisteca, mas se ameaças forem verdadeiras, que bom! Se eu fosse da direção do PT pagaria pra ver, até porque o desgaste do mensalão para o PT ou para o governo, a despeito do forrobodó que se armou, pouco ou quase nada adiantou; o Lula e os deputados petistas foram reeleitos na boa. É a vez de saber se os tucanos são frouxos na hora de apanhar ou se também possuem poder de resiliência.

    Conta Cacciola, conta! Sou todo ouvidos!!!

  6. Comentou em 25/09/2007 Jose Paulo Badaro

    Uma pequena nota na revista Veja (nº 2027, de 26/9/2007) dá conta de que Cacciola tem mandado, por meio de familiares, alguns recados ameaçadores: ele promete contar detalhes do que antecedeu e do que se seguiu ao escândalo relacionado à desvalorização do real, em 13 janeiro de 1999.

    Vejo, sem trocadilho, tudo com reservas o que diz essa revisteca, mas se ameaças forem verdadeiras, que bom! Se eu fosse da direção do PT pagaria pra ver, até porque o desgaste do mensalão para o PT ou para o governo, a despeito do forrobodó que se armou, pouco ou quase nada adiantou; o Lula e os deputados petistas foram reeleitos na boa. É a vez de saber se os tucanos são frouxos na hora de apanhar ou se também possuem poder de resiliência.

    Conta Cacciola, conta! Sou todo ouvidos!!!

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