Terça-feira, 18 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1004
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IMPRENSA EM QUESTãO > MÍDIA & CRISE POLÍTICA

Um resumo dos depoimentos à CPI

Por Luiz Antonio Magalhães em 12/07/2005 na edição 337

A Comissão Parlamentar Mista de Inquérito dos Correios investiga um fato determinado, surgido a partir de denúncia publicada na revista Veja: a de que existe um sistema de corrupção na empresa, tal qual revelou Mauricio Marinho, ex-diretor da estatal, então na condição de diretor, em uma já célebre gravação, realizada sem o seu conhecimento, na qual ele aceita uma propina de R$ 3 mil. A fita que flagrou Marinho acabou na redação de Veja e foi o estopim da crise política que o Brasil atravessa: foi por causa da divulgação da cena da propina que o deputado federal Roberto Jefferson, presidente licenciado do PTB, decidiu partir para a ofensiva e contar a sua versão das negociações realizadas entre governo e a base aliada.


O resto da história os brasileiros ainda estão acompanhando. Os fatos se sucedem em velocidade impressionante, e a cada dia parece haver um escândalo novo, para deleite dos donos de jornais, para os quais o grande objetivo da comunicação social é vender mais exemplares. Os proprietários dos órgãos de comunicação, porém, não deveriam ficar tão alegres com as vendas maiores que esta crise, em particular, possa estar proporcionando. Talvez não tenham se dado conta, mas o fato é que a mídia está no centro dos problemas não apenas por ter sido facilitadora do início da crise, ao dar ciência à gravação, ilegal, por sinal; mas também porque em diversos momentos se torna ela mesma protagonista da história. No meio dos depoimentos e inquirições à CPI, vão sendo reveladas as relações promíscuas entre as revistas IstoÉ, Veja, veículos da Globo (Época e TV Globo) e os poderosos de plantão.


Para oferecer ao leitor uma leitura mais rápida do que a das mais de 800 páginas de depoimentos colhidos até agora pela CPI, este Observatório vai selecionar os momentos desses depoimentos em que a imprensa é nominalmente citada, quase sempre de forma não exatamente alentadora. Abaixo, seguem os ‘melhores momentos midiáticos’ dos depoimentos de Mauricio Marinho, Joel Santos Filho e Arlindo Molina.


1. Depoimento de MAURICIO MARINHO ( 21/06/2005)


Polêmica sobre a fita


O SR. HERÁCLITO FORTES (PFL – PI) – Sr. Relator, não estaria faltando a cópia da fita que gerou toda essa matéria, que, evidentemente, foi publicada?


O SR. DEMÓSTENES TORRES (PFL – GO) – Foi relacionada.


O SR. HERÁCLITO FORTES (PFL – PI) – Qual é?


O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB – PR) – Está aí. É a da revista Veja.


O SR. HERÁCLITO FORTES (PFL – PI) – Não, não, esperem aí. A cópia da fita da Rede Globo não está na íntegra. Refiro-me à fita do Sr. Maurício Marinho, que, segundo declarações do próprio Deputado Roberto Jefferson, é uma fita bem mais longa. Seria o caso de requisitar também essa fita.


O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB – PR) – Um esclarecimento, eminente Senador: na verdade, nós estamos aqui ratificando uma conduta que já realizamos na convicção de que seria necessária para hoje. A Polícia Federal já disponibilizou, já está à disposição da Comissão.


O SR. HERÁCLITO FORTES (PFL – PI) – Muito obrigado, Sr. Presidente.


(…)


O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT – MS) – Perfeitamente. Obrigado, Deputado Onyx Lorenzoni.


Fica, portanto, retirado o Requerimento nº 172, com esse compromisso, Deputado Onyx Lorenzoni, aqui assumido com V. Exª e com todos os Parlamentares.


Aprovados os requerimentos, solicito a presença do Sr. Maurício Marinho para a oitiva, conforme programado.


Concedo a palavra ao Deputado Maurício Rands.


O SR. MAURÍCIO RANDS (PT – PE) – Sr. Presidente, todo o procedimento desta CPMI iniciou-se com a fita citada na reportagem da revista Veja. Nesse sentido, para que possamos seguir a seqüência dos acontecimentos, queríamos sugerir que, já em presença do Sr. Maurício Marinho, que está se dirigindo a esta sala, seja apresentada a toda a Comissão a fita ou, pelo menos, as partes mais importantes da fita, para que possamos inquiri-lo a partir da primeira fita que suscitou a matéria da Veja e todo o procedimento da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito.


O relato de Marinho


O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT – MS) – Perfeitamente, Deputado Onyx Lorenzoni. Com a palavra o Sr. Maurício Marinho.


O SR. MAURÍCIO MARINHO – Sr. Presidente, Sr. Relator, não sou advogado, não sou Parlamentar, sou um técnico dos Correios. Fiz o roteiro para falar. Pontuei. Achei melhor anotar todos esses pontos, uma vez que me disseram que eu teria vinte minutos no máximo. Em cima desse tempo, procurei descrever os pontos. Independente do roteiro ou do que está escrito como introdução, o que chamei de ‘Introdução CPMI – Maurício Marinho’, Sr. Presidente, Srªs e Srs. Parlamentares, não vim aqui para falar mentira; vim aqui para falar a verdade. E trouxe todo o dossiê do meu trabalho. Sou um técnico. Sei onde errei e assumi os compromissos dos meus erros. Está por escrito. Sei que falei demais; sei que envolvi pessoas; sei que trabalhei dentro dos Correios mesmo fora do horário, envolvendo assuntos que não eram da empresa. Recebi um dinheiro que não pedi. Está aí registrado em uma hora e cinqüenta quatros minutos de fita gravada. Não estou me eximindo das minhas responsabilidades. Eu quis trazer aqui documentos que comprovem; tirei cópias para todos os senhores dessa introdução, num total de quarenta, cinqüenta peças. Do dossiê não foi possível, porque não ganho o suficiente para tirar 40 cópias desse montante, mas trouxe quatro cópias. Elas estão aqui à disposição dos senhores. E essa fita de 1h54min está dentro do dossiê, toda ela degravada, com a justificativa por minuto e segundo. Aquilo que não atender, eu estou à disposição para explicar. Está aqui dentro toda a fita degravada. É lógico que não fui eu quem fez. Foi a própria revista que passou aos Correios. Eu recebi a fita – 1h54min -, e nós, para cada minuto e segundo, apresentamos uma justificativa.


Agora, eu vim aqui para trabalhar e para me colocar à disposição dos senhores, para mostrar que eu não sou esse homem-chave, como saiu. Ontem, até foi dito que era de quinto escalão, correto? Boquirroto, não é? Peixe pequeno, bagrinho, correto? Cola-selo, boi-de-piranha, entendeu? Eu estou aqui para me defender como técnico, porque até agora não tive a oportunidade, em lugar algum, de me defender. O primeiro local em que eu estou tendo oportunidade de falar alguma coisa é aqui na CPMI. Nem dentro da minha empresa eu tive essa oportunidade. Eu fui chamado com script pronto, da mesma forma como eu fui, quarenta e cinco dias – se é da ABIN, se não é; se é coronel, se é almirante, eu não sei -, mas quarenta e cinco dias de lavagem e de trabalho para chegar nesse material. Quarenta e cinco dias! Em nenhum momento, eu trabalhei nem falei com nenhum empresário. Eu não falei, meus senhores, com nenhuma empresa que tenha CNPJ, que tenha um vínculo comercial com a ECT. Podem verificar na fita. Façam as investigações. A Polícia Federal está fazendo; o Ministério Público levantou a minha vida, desde 1975, e de toda a minha família. Está aqui o meu patrimônio. Não meu, da minha família. Está aqui dentro. Toda a fita decupada, todo o meu problema de saúde está aqui dentro. Correto? Eu estou colocando à disposição dos senhores.


Eu preciso falar a verdade. Sou um pai de família. Eu tenho parentes, eu tenho filhos, eu tenho netos. Eu nunca tive a oportunidade de falar em lugar nenhum. Esta CPMI é o único lugar em que estou tendo oportunidade de falar. A coisa que eu mais queria era chegar aqui, falar, discutir. Onde os senhores acharem que eu estou errado… Eu estou aqui; eu não vou fugir. Eu tenho endereço; sou funcionário público; não tenho mansão, como falaram; não tenho fazenda. Eu tenho um patrimônio de R$200 mil, adquirido em 32 anos de trabalho. A minha vida está sendo achacada desde o momento da divulgação dessa fita, gravada de forma criminosa, cujo motivo eu não sei até hoje. Se fosse a minha saída, eu já tinha pedido a minha saída desde o mês de março por problema de doença. Se fosse problema comercial, problema empresarial, aqui dentro, Sr. Presidente, Srs. Senadores, estão todas as providências que nós tomamos, desde setembro de 2004 até agora, para corrigir problemas no processo licitatório. Eu não preciso disso para falar.


E eu quero dizer para os senhores: eu tenho quase 30 anos de Correios e conheço o processo. Eu não sou do Departamento de Contratação, como estão falando e imputando-me responsabilidades sobre as compras dos cofres, dizendo que o Sr. Arthur Wascheck, o mandante da gravação, foi que ganhou a licitação em 2002. Eu não estava lá. Falaram de tênis – nem licitação foi feita. Falaram de um senhor de São Paulo com que eu mandei buscar dinheiro para PTB, que eu não sei nem quem é. Mandem buscar o processo da ECT! Vamos analisar! Vamos ver de quem é a responsabilidade dentro dessa organização, dentro de cada departamento. Cada Diretoria lá tem a sua responsabilidade e os seus objetos. Em nenhum momento eu estou correndo ou fugindo. Eu jamais fui chamado, até mesmo para identificar o segundo araponga que foi lá me gravar. Até hoje não fui chamado, não sei se aquele careca é o mesmo que foi lá me gravar. Uma hora não sei se é Molina, uma hora… Não sei nem quem é.


Então, a gente vive com medo de sair, porque nem funcionário da empresa olha para a sua cara, quando vê aquele problema e aquela divulgação.


Então, gostaria que os senhores entendessem que, na Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos, se tem esse antro de corrupção, tem que ser apurado. Agora, o que quero dizer aos senhores, dentro da empresa existem limites de competência, estão todas aqui dentro: quem assina, quem é responsável por cada objeto.


Eu estava na sala de fora, quando queriam que chamassem, não sei qual dos senhores, antes do Deputado ou depois o Marcos Valério. Eu soube, pela imprensa, que ele tem negócio com o Correio, que ele faz parte da parte de publicidade. Eu não sabia disso.


Na parte de publicidade, propaganda, patrocínio, participação de eventos, a fita é verdadeira. Vamos chegar nela. Só que essa fita, nobre Senador, foi trabalhada 45 dias. Isso aí não tem pergunta e resposta; isso tem uma lavagem cerebral pontual. Isso está explicado aqui dentro.


Agora quero dizer que os objetos da ECT são de responsabilidade de cada diretoria de área, que são sete. À Presidência compete a área de comunicação com o Governo Federal; não passa pela área administrativa. A área de tecnologia é específica e não é só hardware e software. É hardware, software, manutenção, engenharia, tudo é lá. Entendeu? É isso que tem que ser dito.


Na área de operações, nunca chegou para nós um contrato para contratar um carrinho de mão, que dirá uma aeronave. São específicas da Diretoria de Operações da Empresa as contratações de todas as linhas de transporte.


Compete à área de administração, onde eu estava no departamento, material de consumo. Levantem o orçamento dessas áreas, verifiquem quem tem o poder de assinar dentro da organização, quem está por trás de cada diretoria. Na minha diretoria, estava o Diretor Antônio Osório, do PTB, indicado por Roberto Jefferson. Não é novidade para ninguém.


Não sou filiado a Partido nenhum, mas ele e o assessor executivo são. O Presidente é vinculado ao PMDB. O Diretor Comercial é vinculado ao PMDB. O Diretor de Operações e Tecnologia, que são os únicos dois diretores de carreira da casa. Todos os outros são políticos. Os dois da casa estão na cota do PT, correto? Que é Tecnologia e Operações. Isso os senhores sabem. Está aí, todos os dias, sendo divulgado.


Agora, há uma semana, começaram a afunilar. Roberto Jefferson bateu de lá para cá, afunilaram no meu nome. Afunilaram de forma tal, que só hoje saíram seis matérias – seis matérias! – em jornais. Estou aqui com todas as respostas delas e à disposição dos senhores. Convoquem, seja quem for da empresa. Vamos verificar o processo. De quem é a responsabilidade de cada um, entendeu? Quem especifica, quem autoriza um processo licitatório nessa empresa, correto? Quem é o Cace, que os senhores comentaram antes, que é o Comitê de Análises de Comissões Estratégicas. Quem autoriza o processo de abertura licitatório, não é ninguém de terceiro, quarto, quinto escalão. Correto?


Os senhores têm que ter conhecimento do processo da organização. Vim aqui para falar a verdade e estou à disposição. Agora, sei que falei demais naquela fita. Falei, envolvi nomes, entendeu? Assumi o compromisso. Assinei embaixo. Registrei em cartório. Sei que falei, estava na situação totalmente difícil de saúde, correto? Foi na mesma semana em que fui hospitalizado.


Sabe como eu soube da fita, Srs. Deputados? Foi através do Sr. Policarpo, no dia 12 de maio, às 17 horas e 45 minutos, saindo do hospital, doente, esse senhor, esse jornalista me ligou e tinha 15 minutos para fechar a matéria. Ele não quer saber quem está do outro lado da linha, se é uma pessoa de bem ou de mal. Ninguém me perguntou se aquilo era verdadeiro. A única coisa que ele queria saber era de responsabilizar o Roberto Jefferson.


Não tenho ligação. Aqui disseram alguns que tenho ligação. Rastreiem as ligações; verifiquem quantas vezes em um ano estou lá desde o dia 04 de junho de 2004. Pedi para sair em março. Pedi para sair para tratar de saúde, mas fui liberado pelo Diretor Antônio Osório formalmente – está o documento – no dia 03 de maio. Se eu tivesse saído em março talvez aqui estaria sentado outro funcionário, porque o interesse é incriminar alguém, se é político eu não sei, se é só comercial, pelas mudanças que estávamos processando, eu também não sei. Agora, que as mudanças que estávamos processando dentro da organização não são de interesse de muitos empresários… Muitos empresários, inclusive, vão lá encaminhados por políticos, e não olho quem é o político que mandou. Eu não conheço os senhores! Chega lá o empresário e diz: ‘vim aqui, sou muito amigo do Senador Ney Suassuna’, atendo; ‘sou amigo do Lula’, atendo; ‘sou amigo do Aníbal’… Está lá na minha agenda. A minha agenda está aberta no Ministério Público. Ela não sumiu.


O SR. (Orador não identificado) – (Intervenção fora do microfone.)


O SR. MAURÍCIO MARINHO – Estou dizendo um exemplo. Naquele dia falei tanto na minha situação que disseram que, se eu demorasse mais 15 minutos, o Bento XVI entraria na minha sala. Entendeu? Foi um jornalista.


Senhores, aqui na decupação da fita, num dos termos, falo num trecho seis assuntos diferentes sem concluir nenhum. Está escrito aqui dentro. O que estou querendo colocar aos senhores… Estou à disposição, podem perguntar, estou à disposição. Jurando, não jurando, como investigador, vim aqui para falar a verdade, e estou deixando todos os meus documentos aqui à disposição dos senhores. O que quero dizer é que não sou político; não tenho vinculação política a partido nenhum. Aquilo que falei que ligava para Roberto Jefferson e ele dizia, eu nunca liguei para ele e nem ele me ligou. Aquilo que disse na fita, que o meu presidente, que é o Sr. João Henrique, a toda semana descia na minha sala, verifiquem os senhores, nesses 11 meses de trabalho, ele nunca entrou no meu gabinete. O que estava havendo? Eu estava negociando com uma empresa que conhecia mais de correio do que nós que éramos dos Correios. Ela tinha informações dos Correios que nós não detínhamos, e estavam representando uma multinacional que entraria no Brasil, seria internalizada para produzir equipamentos que o Governo Federal estaria liberando. Foi esse o início da conversa. Somos maiores do que todos.


Quando falo em Novadata, que está escrito aí dentro, a Novadata ganhou algumas licitações. Ganhou, mas porque apresentou o menor preço. Não sou eu que faço licitação. Quem faz licitação na ECT é a pregoeiro e a CPL. O que compete a nós do Decam é uma única coisa: emitir um termo de referência e, depois de homologado o contrato pelas autoridades superiores… E quando eu fazia assim, a turma falou: ‘É acerto; é dinheiro que ele está recebendo. Vejam as contas bancárias e o patrimônio. Onde está esse dinheiro?’


Então, fico pensando: será que estamos no caminho certo? Se existe erro lá dentro, que seja apurado. Se de lá sai dinheiro para ‘mensalão’, como estão dizendo, que seja apurado. Agora, não dentro do Departamento de Contratação. Não temos poder sequer para autorizar o processo! Não homologamos o processo. Ele só cai na nossa mão depois de assinado pelo presidente e pelo diretor de área. E os senhores têm conhecimento de que a diretoria dos Correios, a diretoria colegiada, as sete pessoas são solidárias. Se um diretor fizer alguma coisa errada e todos concordarem, os sete são responsáveis? A diretoria do Correio é uma diretoria colegiada, ela é solidária. Correto? Então isso a gente precisa saber para discutir esse assunto. Há interesses comerciais, evidente. Qual a empresa que não tem? Qual empresa que não tem interesse comercial, que não quer vender o seu produto? Eu estou a dois anos da minha aposentadoria. Eu tenho interesse nesse negócio. Desde a primeira página que o Sr. Victor Dalcon fala, aos sete minutos e quarenta e quatro segundos, ele já começa a tratar do assunto. Só que aparece a quarta reunião. A primeira, a segunda, a terceira, segundo informações que eu tenho e que a Polícia Federal me passou, as três foram gravadas. E a segunda, a Folha de S.Paulo conseguiu reproduzir. Na segunda eu apareço. São dezoito minutos. É quando eu desconfio pela primeira vez do interlocutor. Aí eu queria saber: mas qual é a sua empresa? Qual é o seu produto? E aí ele desvia a conversa, porque eu sou muito parecido com um parente dele e tal. Aí eu ia sair de férias. Tá escrito. Tá na fita gravada. Na segunda. Eu falei: eu não entendo de tecnologia. Eu entendo do processo da ECT. E eu estou aqui pra atender a todo e qualquer fornecedor, seja ele indicado por parlamentar ou não, eu atendo a todos da mesma forma. Isso é processo. Manlic – Manual de Licitação, isso tá escrito. Correto? E isso acontece na nossa organização.


A empresa é uma empresa muito séria. Pode estar havendo alguma coisa? Talvez. Tem que ser investigado. Têm que ser comprovados os fatos. Eu não estou tirando a responsabilidade de ninguém, porque eu não conheço. Porque se eu soubesse, eu colocaria aqui dentro, correto? Agora eu assumo o compromisso dos meus onze meses.


Sr. Presidente, os doze meses de contrato, os doze meses – olha bem o que eu estou dizendo agora (tá na página 390 aqui desse tijolo). Aqui está a página dos Correios na Internet. Poucas empresas têm isso aqui. Poucas. Poucas empresas públicas fazem como nós fazemos. Todo o processo licitatório está na página dos Correios da Intranet, os doze meses de contrato, compras e licitação, processos em andamento e homologados – não é da minha responsabilidade, mas é da responsabilidade da CPL da pregoeira. A Controladoria-Geral da União… estão lá há quase trinta dias. Já passou, já repassou, vai repassar mais quantas vezes quiser e vai voltar no tempo. Vão descobrir coisas? Lógico que vão descobrir! Deve ter alguma coisa; agora eu não sei se tem no nível que a imprensa tem falado, tem divulgado.


Agora que o Decan eu vendi, eu me autovalorizei, eu fiz uma autopromoção do meu conhecimento porque eu tinha interesse, assim como eu ainda tenho interesse no futuro em ter a minha empresa de consultoria. O meu currículo está aqui. Eu trabalho com consultoria dentro e fora do Correio. Eu fiquei fora oito anos, mas depois que eu voltei para os Correios eu parei. Correto? Mas está tudo aqui escrito e foi tudo apurado pelo Ministério Público. A minha agenda está cem por cento à disposição dos senhores.


Falaram do – desculpem se eu estou falando demais… não sei – Roberto Jefferson. Já disse: não tenho ligação nenhuma com ele.


O SR. (Orador não identificado) – Pode falar à vontade porque está tudo sendo gravado, viu?


O SR. MAURÍCIO MARINHO – Não tem problema. Excelente!


Outra coisa: falaram do Marcos Vinícius, que é o genro dele. E eu digo na fita. Atendi. Atendi e está na agenda. Quem ele mandou, pediu que eu atendesse. Ligava: ‘Marinho, pode atender fulano de tal?’ Quem é? ‘É da empresa X’. Tá lá escrito. Eu não omiti nenhuma palavra. Agora, eu respondi ao que me perguntaram. Hoje aqui, nesses vinte, trinta minutos, eu falei para os senhores muito mais do que eles perguntaram. Correto? Por isso eu resolvi fazer o dossiê e disponibilizar a quem quer que seja porque a gente precisa deixar claro. A ECT é uma empresa séria. Tem problemas? Tem, como toda empresa tem, mas, onde tiver, tem que ser apurado. Agora, cada diretoria tem a sua responsabilidade, tem os seus objetos, e elas têm que assumir os seus compromissos. Cada diretoria… Os objetos são claros. O Departamento de Contratação da área de administração, que é do PTB, cuida de material de consumo. A área de operações, transporte aéreo, fluvial, terrestre, compra de viatura é da área de operações, está aqui dentro. Publicidade, propaganda, patrocínio, outros custeios, eventos é da Presidência, que é vinculada aqui, ao Planalto, está certo? Área de recursos humanos cuida mais: pagamento de pessoal, encargos sociais, saúde.


Falaram do medicamento, que Sr. Policarpo queria que eu afirmasse, em quinze minutos, para ele fechar a matéria, sem eu conhecer a fita. Eu nem sabia que existia a fita. Ele falou: ‘Olha, eu tenho aqui uma bomba, que vai te arrasar.’ Está gravada. É só fazer… Quebra o sigilo telefônico. Vamos verificar o que é que ele perguntou? Quatro perguntas. Foco: Roberto Jefferson, fraude e licitação e aquisição de medicamentos, correto?


Todas as explicações estão aqui dentro, correto? Não tem nada que está aqui fora. Se faltar algum documento, nós vamos requisitar, junto à Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos e vamos chamar fornecedor, se for necessário. Nós estamos aqui para esclarecer, certo?


Se eu errei, como já assumi, falei demais, envolvi nome de pessoas que não deveria ter envolvido, eu me autovalorizei, tinha meus interesses, peguei os R$3 mil. Peguei. Eu não pedi dinheiro nenhum. Na fita lá, quando vocês olharem, escutarem bem a fita, ela está aqui decupada, segundo a segundo, com a justificativa do lado.


Quando ele diz: ‘Eu vou levar-lhe um negócio’, em nenhum momento se pediu um centavo, mas, na hora da gravação, ele precisava gravar. Ele já tinha feito três gravações, mas, em nenhum momento, ninguém pediu dinheiro. Em nenhum momento, tinha envolvido o nome de outras pessoas. Eles queriam incriminar a empresa, incriminar algum Partido político ou incriminar a mim pelas mudanças que estavam sendo feitas. Foi até entregue… Eu peguei o dinheiro, guardei. Sei que errei, tá? Mas eu tenho certeza que aquilo ali eu não pedi a ele. Está escrito, está gravado na fita, correto? Foi uma falha. Foi um ato impensado. Vocês precisam ver, depois de vocês verem um caso daquele na revista e no Jornal Nacional, na Globo, que explorou isso vastamente, correto? O próprio Partido do PL, aproveitando-se daquela imagem, o que foi feito, correto? E outras empresas, outras mídias, que fizeram o que fizeram, correto? Imagina a esposa, os filhos, o sogro, a sogra, o seu neto vendo aquilo, entendeu? Aquilo não resolve nada a ninguém.


Eles ofereceram R$15 mil de consultoria quando a empresa multinacional estivesse dentro do País. Eu pensei, inclusive, em tirar a minha aposentadoria proporcional, porque era um grande negócio. A única coisa que a gente aprendeu a fazer dentro do Correio é fazer planejamento, é trabalhar com organização, é trabalhar com projeto base.


Eles insistiram tanto em dar participação a Partido político, e eu disse a ele: ‘Eu tô dentro de uma diretoria, cujo capitão, cujo chefe é o Antônio Osório; Antônio Osório indicado pelo Roberto Jefferson’.


O SR. (Orador não identificado) – (Intervenção fora do microfone. Inaudível.)


O SR. MAURÍCIO MARINHO – Não, senhor. Aquilo eu falei na fita, sim. Eu não estou dizendo que não falei. Verifique quantas reuniões foram feitas. Todos os senhores têm condição de ver isso, de apurar. Vejam quantas vezes eu liguei para ele. Vejam quantas vezes ele ligou para mim. Verifique quantas vezes o Presidente foi lá. Eu vendi uma imagem de competência, que eu queria passar, de oportunidade de negócio, correto? Eu assumi o compromisso com ele de levantar técnicos da própria empresa que estão aposentados ou em fase de aposentadoria, para desenvolvermos projetos para outras organizações. Falamos da parceria público-privada.


Hoje vi, no jornal de hoje ou de ontem, o Serpro, que, se não me falha a memória, está aqui – é um dos casos de que falo na fita – licitando aquisição de computadores com 48 meses. Quem entende da Lei nº 8.666 sabe muito bem que a aquisição é de doze meses. Correto? Mas por que ele chegou aos 48 meses? Este era o meu interesse nos Correios na melhoria do processo: incluir na aquisição a prestação do serviço, o fornecimento do material de consumo. Aqui dentro, há sugestões para a melhoria da Lei nº 8.666.


Eu não chamei o Sr. Wascheck nem outras empresas de ‘firminha’, como ele falou no jornal. O que eu disse na reunião é que Brasília era um ilha cercada de picaretas, não era de fornecedores. Olhe o que estou dizendo e assumindo aqui: ‘picaretas’, que não produzem nada e que atravessam todos os órgãos públicos.


Quando a gente exige que uma empresa venha trabalhar conosco, quando eu tenho que cadastrar o fornecedor, quero falar com quem fornece, com quem produz, mas não posso exigir que seja fabricante. Se eu pedir que seja fabricante, a CPL não aceita, nem o departamento jurídico: ‘Você está diminuindo o espaço de competitividade’.


Parti para um outro processo: criamos a Divisão de Gestão de Fornecedores. Quantos órgãos públicos têm um órgão como esse? Foi implantado em maio agora, aprovado pela diretoria da empresa. Para que uma divisão dessas? Quem é do Espírito Santo deve saber de um órgão lá chamado Prodefor, Programa de Desenvolvimento de Fornecedores, que trabalha com a Vale do Rio Doce, com o Banco do Brasil e com outros órgãos grandes. Por que não tem um Prodefor nacional, com empresas sérias cadastradas?


Não sou contra o representante. Eu gostaria que o representante, meus senhores, trouxesse os documentos da sua empresa. O que há hoje de representantes esquentando empresas que não pagam impostos! E vêm com documento no processo licitatório, dizendo ‘eu não uso mão-de-obra infantil’, ‘eu não uso mão-de-obra escrava’, ‘eu respeito o Código do Meio Ambiente, a ISO 14.000’. É verdade? Aí, você vai verificar a empresa, ela está em Ceilândia, em Samambaia, numa sala de vinte metros quadrados. É essa empresa que quer ganhar dois, três milhões de contrato nos Correios? E se ela não entregar? Quem está por trás dela paga os impostos? Então, temos muitos problemas para trabalhar e para resolver.


Quando se criou a Divisão de Gestão de Fornecedores, o objetivo claro – olhem bem, meus senhores – era pré-qualificar os fornecedores, era desenvolver fornecedores não para os Correios, para os órgãos públicos de Brasília. Era a identificação de desempenho de fornecedores, a avaliação de fornecedores. Correto?


O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT – MS) – Sr. Maurício Marinho, por favor, V. Sª podia completar o seu depoimento.


O SR. (Orador não identificado) – Deveríamos deixá-lo livre para falar, Sr. Presidente. Vamos dar tempo a ele.


O SR. NEY SUASSUNA (PMDB – PB) – Sr. Presidente, o Sr. Marinho, numa citação de um exemplo, eu sei, citou o meu nome.


A SRª HELOÍSA HELENA (P-SOL – AL) – Há inscrição, Sr. Presidente.


O SR. NEY SUASSUNA (PMDB – PB) – Mas fui citado e estou querendo saber: Sr. Marinho, o senhor já me conhecia antes? Alguma vez já tive algum relacionamento com o senhor? Alguém pediu ao senhor em meu nome alguma coisa, um dia?


O SR. MAURÍCIO MARINHO – Não.


O SR. NEY SUASSUNA (PMDB – PB) – Obrigado.


O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT – MS) – Só de fotografia, Senador Ney Suassuna.


O SR. NEY SUASSUNA (PMDB – PB) – Senão, amanhã, a Oposição no meu Estado estará dizendo que fui citado.


O SR. MAURÍCIO MARINHO – Não, não. Estou aqui para dizer a verdade.


O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT – MS) – Sr. Maurício Marinho, por favor, o senhor pode falar, porque todos os Parlamentares estão ansiosos pelas revelações.


O SR. (Orador não identificado) – Agora é hora do inquirimento.


O SR. MAURÍCIO MARINHO – Quanto às revelações de que eu disse até agora, a responsabilidade é de cada diretoria de área. Onde é que há problema? Saiu, no jornal, o cofre. Quando foi comprado? Quem é o responsável? Saiu, no jornal, a Skymaster. Quem licita transporte? Quem está por trás da Skymaster? Correto? Existem problemas? Quem está por trás das empresas de tecnologia? Quem é todo mundo sabe.


O repórter Policarpo


O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB – PR) – Há uma informação de que – não lembro bem quem afirmou – a fita foi inicialmente entregue a Antônio Osório.


O SR. MAURÍCIO MARINHO – Antônio Osório?


O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB – PR) – Acho que é esse o nome, Diretor…


O SR. MAURÍCIO MARINHO – Não. Diretor meu é Antônio Osório.


O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB – PR) – Antônio Osório. E isso se deu lá pelo dia 2 ou 3, muito antes da divulgação pela Veja.


O SR. MAURÍCIO MARINHO – Eu não sei.


O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB – PR) – V. Sª, através do Antônio Osório, não teve acesso a essa fita naquela oportunidade?


O SR. MAURÍCIO MARINHO – Não. Eu… A informação…


O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB – PR) – Ninguém o abordou pelo menos sobre essa existência?


O SR. MAURÍCIO MARINHO – Não. A informação que eu tenho, eu não sei da data se foi… eu creio que foi no final da semana do dia três, na quinta-feira, se não me falha a memória, um boy chegou ao décimo sétimo andar com envelope e entregou. Esse envelope foi para a mesa dele. Nesse envelope, estavam as fitas. Ele viajou a São Paulo, porque ele tinha um trabalho na sexta-feira – a informação que eu tenho. Ele retornou no domingo. E a informação que eu tenho é de que ele assistiu à fita na casa do Dr. Salmerón em conjunto com o Deputado Roberto Jefferson. Eu fui saber da fita no dia 12 de maio, pelo Sr. Policarpo, quando ele me ligou quando eu estava saindo do hospital.


Eu não creio – posso quase lhe afirmar com cem por cento de certeza – que essa fita não foi entregue ao Antônio Osório nessa data. Entendeu? Porque no dia 12 de maio eu fiquei sabendo, e no dia 12 de maio também, o Sr. Policarpo ligou para o Diretor Antônio Osório, e ele estava em São Paulo. A fita foi entregue na semana seguinte, eu acho. Não na semana anterior.


O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB – PR) – Quando houve a descoberta desse fato, por acaso V. Sª deletou a memória do seu computador? Pediu que alguém o fizesse?


O SR. MAURÍCIO MARINHO – Não. O computador de casa, que aparece também no jornal, nós fizemos uma mudança. É o computador da minha esposa. A própria Polícia Federal que lá esteve, inclusive o delegado, se não me falha a memória, Rodrigo, o nome dele, eu nem estava em casa… Fiquei desesperado quando eu soube que a Polícia Federal chegou lá em casa 9 ou 10 horas, porque a idéia é que sairiam quebrando, batendo, prendendo. Era essa a idéia que passava. Graças a Deus, a equipe lá chegou, atendeu muito bem, só estava minha esposa, depois chegou um filho, que é advogado, tá? Eles foram usar o nosso computador em casa. Nem a impressora estava funcionando. Ele estava quebrado. É um computador da minha esposa, de casa. Correto? E desse computador, houve a troca do winchester, sim, mas ele estava sem funcionar. Eu não tinha nada lá dentro. Os meus compromissos estão todos dentro dos Correios. E dentro dos Correios, tanto a agenda quanto os contatos estão lá. Agora, eu usava pouco o computador. O que eu tinha, e eu não tenho medo de dizer aqui… Eu tinha algumas coisas gravadas no pindrive, PenDrive. E, no dia em que eu cheguei em casa, o próprio menino pegou e me quebrou PenDrive. E avisamos inclusive a polícia. Mas não tinha nada que comprometesse porque tudo que está nos Correios está gravado lá dentro. Inclusive, o computador que eu havia usado dois, três meses antes foi para outro funcionário, e a memória não tinha sido limpa. Está no jornal de hoje, sendo explicado esse fato. Eu nem sabia com quem estava o meu computador. Eu recebi um computador novo – novo – e o meu foi destinado a um outro funcionário. A minha pasta, meus documentos foram para lá. Não me preocupei em limpar o equipamento.


O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB – PR) – V. Sª conhece o Sr. Cristiano Brandão?


O SR. MAURÍCIO MARINHO – Cristiano Brandão?


O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB – PR) – Ouviu falar em Assurê Seguradora?


O SR. MAURÍCIO MARINHO – Não. Cristiano Brandão, se não me falha a memória, esteve no ano passado – outubro ou novembro – com o Sr. Marcus Vinícius, lá nos Correios. Isso está na minha agenda no Ministério Público.


O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB – PR) – Marcus Vinícius é o genro….


O SR. MAURÍCIO MARINHO – É o genro de Roberto Jefferson.


O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB – PR) – V. Sª manteve um contato com eles fora dos Correios? Houve um encontro em um bar na Asa Norte?


O SR. MAURÍCIO MARINHO – Bar, não. Fizemos um almoço aqui no…


O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB – PR) – No Bar do Ferreira?


O SR. MAURÍCIO MARINHO – Não, não. No Bar do Ferreira, eu estive uma vez com o Fortuna.


O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB – PR) – Com o Fortuna?


O SR. MAURÍCIO MARINHO – É. Estive uma vez lá com o Fortuna. Com Marcos Vinícius foi no Don Durica. No restaurante Don Durica, almoçamos os três no ano passado.


O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB – PR) – O senhor não tem nada que passou por sua mão da Assurê?


O SR. MAURÍCIO MARINHO – A Assurê não sei nem o que é.


O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB – PR) – É uma seguradora.


O SR. MAURÍCIO MARINHO – Não, não. Foi feito um contrato recente. Isso é coordenado pela Presidência da empresa. Tem a comissão especial de licitação que trata de seguros lá.


O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB – PR) – E da Atrium?


O SR. MAURÍCIO MARINHO – Como?


O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB – PR) – Atrium.


O SR. MAURÍCIO MARINHO – A Atrium é uma empresa do Fortuna, do filho dele. Não tem nenhum contrato conosco.


O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB – PR) – O senhor conhece Marcelo Campos Neves?


O SR. MAURÍCIO MARINHO – Marcelo?


O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB – PR) – Marcelo Campos Neves. Filho do Fortuna.


O SR. MAURÍCIO MARINHO – Olha, assim não me lembro. De nome não.


O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB – PR) – Lembra-se de algum filho do Fortuna que o tenha, alguma vez, procurado nos Correios?


O SR. MAURÍCIO MARINHO – Já. Ele participava de vários processos licitatórios.


O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB – PR) – O Marcelo?


O SR. MAURÍCIO MARINHO – Não sei o nome dele. Se tiver, estará na agenda.


O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB – PR) – Alguma vez o Coronel Fortuna o ameaçou de – não diria de demiti-lo – influenciar para que o senhor perdesse o cargo?


O SR. MAURÍCIO MARINHO – O próprio diretor Antônio Osório me procurou. Alguém havia falado sobre isso com ele. Com as mudanças que estávamos fazendo, eu estava recebendo algumas pressões. Isso é verdade. Mas seria leviandade da minha parte dizer que – vou chamá-lo até de coronel – o coronel Fortuna tenha me ameaçado.


2. Depoimentos de JOEL SANTOS FILHO E ARLINDO GERARDO MOLINA GONÇALVES (28/06/2005)


A inquirição de Murad a Joel


O SR. JAMIL MURAD (PCdoB – SP) – Sr. Presidente, queria passar imediatamente a fazer as perguntas ao interrogado, Joel Santos Filho.


Joel Santos Filho disse, no depoimento à Polícia Federal, que conhecia o Sr. Arthur Wascheck desde 1992, quando ele, Joel, que está aqui como interrogado, como investigado, era coordenador do MEC. E, nessa época, o Sr. Arthur Wascheck, que se apresentou aqui como empresário, já estava preocupado com propina, e V. Sª, Joel, se associou ao Wascheck em investigações de propina. Quer dizer, em outras palavras, é um grupo que pelo menos há treze anos está associado ao submundo das licitações. Treze anos. E o Joel diz que recebeu carta branca de Arthur Wascheck mostrando a intimidade entre eles, o jogo de interesses entre eles para investigar licitações de compras de uniformes em São Paulo. E contratou o vereador de oposição, apresentado por alguém da USP.


Segundo seu depoimento na Polícia Federal, você contratou alguém da USP porque você achava que deveria contatar um vereador de oposição para detonar a licitação de uniforme. E quem ele procurou? O Sr. Marcos Zerbini, do PSDB de São Paulo, vereador de São Paulo, do PSDB. E falou que esteve em contato com outros políticos em São Paulo. A minha pergunta, está no seu depoimento na Polícia Federal, não adianta fazer sinalização que não, porque está aqui registrado, quero saber quem são esses outros políticos de São Paulo. Sou Deputado Federal de São Paulo, moro na Cidade de São Paulo e um já identificamos é o vereador Marcos Zerbini, do PSDB de São Paulo. Você falou que contatou outros políticos de São Paulo.


Bom, depois, no seu depoimento à Polícia Federal, sobre esse episódio atual, dos Correios, ele disse que o Arthur Wascheck deu carta branca para ele comprovar, registrar as irregularidades de Maurício Marinho. Muito bem, posteriormente, vocês estiveram reunidos, você esteve trabalhando nessa questão dos Correios com um agente chamado Jairo Martins, que foi cabo da Polícia Militar do Distrito Federal, foi soldado da PM do Distrito Federal, desde 89, em 93 foi da ABIN e trabalhou na ABIN até 2001. Depois teria vindo à Câmara de Deputados e saído e voltado à Polícia Militar em 2003, ou seja, o Sr. Jairo Martins que trabalhou com você nessa gravação em relação ao Sr. Maurício Marinho. Só que esse Jairo Martins é o mesmo contratado pelo Carlinhos Cachoeira para gravar aquelas irregularidades do Deputado recentemente cassado, chamado André Luiz.


Queria, inclusive, nesse caso, o Sr. Jairo Martins fala que ele já contatou logo o Sr. Policarpo; o Sr. Wascheck falou: será que tem algum jornal, isso daria imprensa. O Sr. Jairo Martins falou: dá imprensa e aí o próprio Jairo Martins que é o seu comparsa nesse jogo falou: dá imprensa e aí contatou o jornalista Policarpo da revista Veja e mostrou o DVD logo no dia seguinte, mostrando que o interesse, no meu entendimento, não era apenas comercial ou da bandidagem, mas tinha o interesse político nesse processo. E essa organização – que eu não ainda não descobri o nome, mas que é o Arthur Wascheck, o Joel, o Molina, o Jairo Martins – é contratada em determinados momentos para fazer um determinado jogo sujo. Então, eles têm algum proveito comercial nisso, mas o principal é que eles são especializados em gravação secreta etc. e que serve para uma determinada finalidade política.


Depois ele entregou a última fita de DVD também para o Sr. Policarpo, que era jornalista da revista Veja.


Eu queria saber esclarecimento seu – e esta é a oportunidade. Se você não ajudar a esclarecer, para o bem público, você vai ser condenado e vai sofrer as penas de membro de um grupo de criminosos contra o patrimônio público, criminosos contra as instituições. E você daria seqüência ao acobertamento disso.


Então, era isso. Desde 92, com Arthur Wascheck, foi investigar licitação de compra de uniforme em São Paulo e contatou um político do PSDB chamado Marcos Zerbini, que é vereador na cidade. Quero saber quais foram os outros políticos contatados e o que você sabe dessa investigação que o Carlinhos Cachoeira contratou junto ao Jairo Martins para investigar e que acabou resultando na cassação do André Luís. Se você participou também desse processo, já que não aparece o seu nome ali.


O SR. JOEL SANTOS FILHO – Deputado, objetivamente, quanto a Cepesp, eu já retifiquei de início. Na realidade, não foi o Arthur que delatou o esquema de corrupção na Cepesp, como eu pensava a princípio e declarei na Polícia Federal, até sob alguma pressão, porque foi para mim uma surpresa a prisão.


O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB – PR) – Você elogiou a Polícia Federal e disse que não foi pressionado. Está escrito, você assinou e, inclusive, você declarou hoje aqui.


O SR. JOEL SANTOS FILHO – Elogiei e ratifico o elogio quanto à Polícia Federal. Eles me trataram bem. Agora, eu fiquei assustado, realmente. Eu nunca fui preso, Deputado. Nunca fui preso. Só pensava na minha família naquele momento, por favor.


Agora, respondendo a sua pergunta do Arthur. Então, eu tomei o cuidado, quando vi o depoimento do Arthur, de perguntar para o meu chefe, na época, que era o Professor Abdala se, realmente, tinha sido o Arthur que disparou o esquema. Ele disse: não, Joel, não foi o Arthur. Foi o Razeira, que ele me falou, que entregou a fita aqui. O Arthur veio várias vezes comentar sobre isso, como todos os fornecedores.


Os pagamentos que eu indiquei para fazer para a empresa do Arthur, na realidade, foi um procedimento da própria secretaria, Deputado. Eles apresentaram os processos de que eles haviam fornecido. Nós examinamos a documentação. Não fui só eu; foi o pessoal todo de um departamento que analisa, isso é passado para o diretor, que manda para o financeiro, que paga, que é o ordenador de despesas.


Eu não vejo atitude ilícita nenhuma aí nem de quem é ré que entregou essa fita, porque estava delatando o esquema de corrupção na Cepesp.


Quanto a São Paulo, a mesma coisa. O que fiz em São Paulo? Eu não conheço outros políticos em São Paulo. Nem o Sr. Marcos Zerbini eu conhecia. Eu falei com um amigo meu da…


O SR. RELATOR (Osmar Serraglio. PMDB – PR) – Qual o nome da pessoa da USP que te apresentou?


O SR. JOEL SANTOS FILHO – Eu declarei, Paulo Hernandes. O Paulo disse: olha, Joel, tem um vereador, que é o Marcos Zerbini, mas ele também não o conhecia. E disse: eu vou ver um amigo meu que conhece e vou dar o telefone dele. Você entra em contato com ele.


E foi assim que aconteceu. Peguei, entrei em contato com ele, ele marcou comigo um local para almoçar. Eu mostrei e disse: olha, vereador, eu tenho essa documentação aqui, que um amigo meu mandou de Brasília, dizendo que houve superfaturamento lá em Brasília e tal. O modus operandi desse pessoal é o mesmo. Qual que era o interesse do Arthur em São Paulo? Ele queria participar da licitação de uniformes em São Paulo, com algumas empresas dele, sei lá, com alguns representados dele. Então, ele queria, efetivamente, travar essa licitação, para que pudesse entrar nessa licitação.


Bom, como minha atividade parava aí, o que eu podia fazer diante disso? Que poder eu tinha para parar uma licitação que estava em andamento, para parar uma licitação em que tinham declarado antes que os ganhadores seriam Rhodia, Du Pont e não sei o quê e mais uma empresa, a Alpargatas? Eu achei que o Vereador teria poder para isso. Entreguei para ele e fui embora. Na realidade, o que eu fiz foi isso.


Quem delatou o esquema da Prefeitura de São Paulo, dos uniformes, não fui eu não, foi o Vereador, com a documentação que eu forneci para ele. Foi somente, tão-somente isso. Tem um inquérito em São Paulo, os senhores podem requisitar, está tudo lá. Foi tão-somente isso. Existe toda uma documentação farta em São Paulo.


E a notícia que eu tive depois, através do próprio Arthur, foi que não adiantou nada, porque, na verdade, a Prefeitura de São Paulo continuou a comprar, etc e tal. Eu não sei. O que eu posso lhe falar é isso.


Quanto ao Jairo, eu não conheço o Jairo. Conheci o Jairo… Agora eu conheço, é lógico.


O SR. JAMIL MURAD (PCdoB – SP) – Quais outros políticos de São Paulo?


O SR. JOEL SANTOS FILHO – Nenhum.


O SR. JAMIL MURAD (PCdoB – SP) – Porque você declara aqui na Polícia Federal, está aqui…


O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Deputado Jamil, eu só pediria para V. Exª acelerar no tempo, para concluir, em função de que há outros oradores, outros parlamentares inscritos.


O SR. JAMIL MURAD (PCdoB – SP) – Mas é importante isso, Sr. Presidente.


O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Ok. Mas conclua, Deputado.


O SR. JOEL SANTOS FILHO – Eu não declaro aqui, Deputado. Se V. Exª puder me mostrar, se V. Exª puder me indicar… Eu não declaro que conheço outros políticos em São Paulo. Declaro que entreguei para o Vereador Marcos Zerbini, cujo Partido eu não me recordava até o senhor esclarecer que é o PSDB.


Quanto ao Jairo, concluindo, lembrei-me: conheci o Jairo pela apresentação que o Arthur me fez no escritório dele. A primeira vez, ainda pedi ao Jairo que não houvesse divulgação. Depois, novamente, encontramo-nos num restaurante aqui de Brasília que se chama Intervalo. Mesma coisa: no restaurante Intervalo, o Arthur pediu encarecidamente para esse Sr. Jairo, para esse rapaz, o Jairo, que não houvesse divulgação. E ele disse: não, Sr. Arthur, eu sou profissional nisso, estou acostumado a fazer isso, ninguém vai divulgar nada. Pronto. Esse é o meu conhecimento do Jairo.


O Molina eu conheço do churrasco na casa do Arthur, e depois vim tomar pé com ele no Rio de Janeiro e, conseqüentemente, depois, na Polícia Federal, lamentavelmente.


O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Muito obrigado, Deputado Jamil Murad.


O depoimento de Arlindo Molina


O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Reabrindo os trabalhos da CPMI, gostaria de convidar o Sr. Arlindo Gerardo Molina Gonçalves para que reiniciemos os trabalhos da Comissão Parlamentar de Inquérito.


Justifico que tivemos que interromper os nossos trabalhos porque o Senado e a Câmara estavam votando e porque houve solicitação, do plenário do Senado, para a suspensão dos trabalhos da CPMI, como determina o Regimento.


Pediria só um pouquinho de paciência a todos os Senadores, aos Deputados e à imprensa, pois estamos também votando. O nosso querido Relator, Osmar Serraglio, não chegou ainda, dado que estava votando na Câmara, mas já está retornando. Pediria só um pouco de paciência.


Com a palavra, o Sr. Arlindo Gerardo Molina Gonçalves.


O SR. ARLINDO GERARDO MOLINA GONÇALVES – Boa noite, Srs e Srªs Parlamentares, boa noite, Sr. Presidente, boa noite, Sr. Relator. Em função de um trabalho que eu vinha desenvolvendo na Prefeitura de Belém – praticamente por isso que acabou tendo toda uma seqüência, que culminou em eu estar aqui sentado na frente de vocês -, eu vinha fazendo um plano de viabilização de metas para a Prefeitura pela Fundação Getúlio Vargas. Eu soube que…


O SR. PRESIDENTE (Delcídio Amaral. PT-MS) – Sr. Molina, eu só pediria a V. Sª que se qualificasse: nome, endereço, um relato rápido da formação de V. Sª, profissão, por favor.


O SR. ARLINDO GERARDO MOLINA GONÇALVES – Meu nome é Arlindo Gerardo Molina Gonçalves, moro na rua Prof. Pantoja Leite, nº 304, no Rio de Janeiro, e, como profissão, sou consultor ad hoc da Fundação Getúlio Vargas. Desenvolvo, paralelo a isso, a função de… Sou arrendatário de uma fazenda e presto consultoria para mais uma outra, duas outras empresas. Em função disso e em função da Fundação Getúlio Vargas, eu estava fazendo um trabalho em Belém. Esse trabalho em Belém, eu soube que o prefeito de Belém tinha ido conversar com o Senador Ney Suassuna. Fui ao Senador Ney Suassuna para saber o que eu poderia acrescentar no meu projeto de Belém, o que é um processo normal. A partir do momento em que você termina um plano de viabilização do plano de metas, você vai para um plano de censo econômico. Iso tudo acaba desaguando numa reforma administrativa. E em cima disso você tenta captar outros serviços para uma mesma prefeitura, o que é um processo normal de um consultor, você vai agregando valor.


Imaginando o que eu poderia agregar de valor a partir do Senado Federal, a partir da ajuda que pudesse vir do Senado, pedida pelo Prefeito Duciomar Costa, fui conversar com o Senador Ney Suassuna. Pedi ao Senador Ney Suassuna que me recebesse e ele me recebeu. Eu não o conhecia com intimidade, eu tinha dado aula num colégio do Senador Ney Suassuna há muito tempo atrás. Moro no mesmo bairro que o Senador Ney Suassuna, moro no Rio de Janeiro, freqüento a associação que o Senador Ney Suassuna já freqüentou, mas sem nenhuma intimidade maior. Como consultor da Fundação Getúlio Vargas, pedi uma audiência e o Senador Ney Suassuna me recebeu.


Comentando com o Senador Ney Suassuna, ao final da conversa, falando com ele se, por exemplo, na reforma administrativa, que eu poderia fazer uma reforma administrativa pequena e uma reforma administrativa maior, que essa reforma administrativa poderia, por exemplo, ser financiada pelo PNUD e que eu poderia precisar, por exemplo, da aprovação do Senado para determinados financiamentos externos para a Prefeitura de Belém. Ele se colocou à disposição, até por que disse que era um grande amigo do ex-Senador Duciomar Costa. Ao final da conversa, comentei com o Senador Ney Suassuna: Senador, é verdade que está havendo uma conversa entre o PT e o PMDB, numa aliança para o Governo do Estado do Pará no ano que vem?’ O Senador me confirmou, até porque estava na imprensa.


Eu cheguei ao Senador Ney Suassuna e falei: ‘O senhor não acha que o Prefeito da capital é um grande eleitor e que não pode se fazer um acordo desses sem passar por ele?’. O Senador concordou, disse que era muito amigo do Prefeito Duciomar e eu lembrei a ele que o Prefeito Duciomar é um homem de partido. Falei com ele que eu teria um encontro com o Deputado Roberto Jefferson e que, se ele quisesse, eu poderia falar com o Deputado. Ele falou: ‘Bem lembrado, fala com ele que a gente pode tomar um café-da-manhã, porque eu gostaria de conversar isso com ele’. Eu falei: ‘Senador, quem sou eu para marcar um encontro entre um Senador da República e o Presidente de um Partido? O senhor pelo menos ligue a ele dizendo que, quando eu for a ele, estou autorizado a marcar esse encontro, ao senhor falar, e se ele quiser eu adianto o assunto’. Por aí morreu.


Na sexta-feira daquela semana, depois, marquei com o Deputado Roberto Jefferson, pelo telefone, quem marcou foi eu, fiquei sabendo depois que o Senador Ney Suassuna também falou com ele, mas a marcação do encontro quem fez foi eu. Fiz um link com o Deputado, vim ao gabinete dele. Ele me disse que estava de carro no interior de São Paulo, não iria ao Rio de Janeiro naquele final de semana, iria a Belo Horizonte e de Belo Horizonte iria direto a Brasília, chegando a Brasília na terça-feira, dia 3, depois do meio-dia, e que a gente poderia se encontrar a partir das 17 horas, que eu confirmasse com o gabinete. Dessa forma que foi marcado o encontro.


No dia 3 de maio, fiquei sabendo dessa fita pelo Arthur, que me chamou, perguntando se eu teria condições de avisar ao Deputado Roberto Jefferson. Eu falei a ele: ‘Olha, eu hoje vou estar com o Deputado’. Não fui ao Deputado para falar sobre fita, eu fui ao Deputado para tratar de vários assuntos.


Quando eu ia para Belém, até porque o filho do Deputado está trabalhando em Belém como coordenador-adjunto da Belemtur, eu tentava entrar em contato com o Deputado. Já tinha havido outro encontro com o Deputado no gabinete dele, que, inclusive, foi tratado desse outro encontro no dia 3. Tratamos de um assunto referente a outro encontro no dia 3, com testemunha.


Passei no gabinete, entrei pelo Prodasen, por aquela entrada do Prodasen, fui, tentei achar o Vice-Presidente do Sindilegis, porque eu encaminhei uma proposta ao Sindilegis também de reforma administrativa. Não o encontrei, subi a escada que tem acima da biblioteca, ouvi duas pessoas comentando sobre uma bomba no Correio, um deles estava com um tripé na mão, deveria ser um jornalista. Nesse momento, vi a maior gravidade do assunto que já tinha tratado com o Arthur, porque ele tinha me mostrado uma parte da fita. Me dirigi ao gabinete do Senador Ney Suassuna, encontrei com um assessor do Senador, Sr. Henry, que se propôs, até para conhecer o Deputado, a me acompanhar. Fui ao gabinete do Deputado Roberto Jefferson acompanhado, com testemunha.


Ficamos esperando o Deputado por uns quinze minutos, entramos juntos, o Deputado falou que não poderia ter esse encontro matutino com o Senador, porque ele pratica canto lírico de manhã. O assessor do Senador, então, falou que ele receberia um telefonema do gabinete marcando outro dia, outra hora. Nesse momento, o Deputado Roberto Jefferson transcorreu sobre canto lírico, sobre que tinha parado de fumar, sobre as vantagens, exercícios de diafragmas, uma série de coisas, uma conversa normal, uma conversa tranqüila. Quando ele falou que parou de fumar, inclusive, eu perguntei, eu tinha dado uns charutos a ele e perguntei o que ele tinha feito com os charutos. Ele apontou a porta, eu quero até falar sobre esse assunto dos charutos, porque a porta estava aberta, um assessor dele estava na porta, ele apontou ao rapaz e falou: ‘Olha, quem vai se dar bem é ele’. Imagino que tenha sido ele que ficou com os charutos. Depois disso, falamos sobre o filho dele em Belém, da vontade dele de nomeá-lo Presidente da Belemtur, que seria o patrão do filho dele. Comentamos um assunto sobre Câmara e Senado, sobre as dificuldades do Governo na Câmara e as dificuldades no Senado. Essa conversa toda levou mais ou menos uns 15 minutos.


Nos despedimos, o Deputado deu a volta na mesa, me pegou por debaixo do braço, e, entre a porta do gabinete do Deputado e a porta que dá – não a porta de entrada do gabinete do Deputado, no anexo IV -, entre aquela primeira da saída do gabinete particular dele até a porta que dá para a salinha de espera, nesse pedaço, de pé, andando, em menos de dois minutos, eu participei ao Deputado sobre um boato. Falei com o Deputado o seguinte, um boato: ‘uma bomba atômica vai explodir nos Correios, acabei de escutar. Eu escutei que um tal de Marinho’ – não escutei isso, eu sabia da fita, falei que tinha escutado -, ‘que um tal de Marinho, diretor de contratação’…


Ele me cortou e falou: ‘diretor de contratação é o Osório’.


Eu falei: ‘um tal de Marinho, diretor de contratação, foi flagrado e gravado recebendo dinheiro dentro do gabinete dele nos Correios’.


Ele me falou: ‘não conheço nenhum Marinho’.


Eu falei: ‘Ótimo! Isso é bom sinal. Já estou mais tranqüilo.


‘Se isso aconteceu, é caso de demissão, não posso fazer nada’.


Mas eu falei: ‘mas ele disse que está pegando dinheiro para você, com teu genro, envolveu o nome do teu genro, do Partido.


E ele falou: ‘não posso fazer nada, Molina. Pode ter muita gente por aí que pega dinheiro e diz que é para mim. Não conheço nenhum Marinho.


Eu falei: ‘bom, se você não conhece nenhum Marinho., ótimo!


E assim nos despedimos.


Não houve expulsão de gabinete. Eu estava… O único momento que não tive a testemunha do seu Henry foi exatamente nesse pedaço, em pé, entre a porta do gabinete particular dele e a entrada da salinha de espera. Isso foi muito pouco tempo, porque, quando saí, ainda alcancei o Henry antes do elevador. Então, isso deve ter levado no máximo um minuto.


Então, vejam bem: ele alega que eu fiz uma extorsão, uma chantagem para obter benefícios para um tal de Sr. Fortuna. Eu fui preso, o Sr. Fortuna foi preso, a Polícia Federal fez todos os levantamentos do mundo, e se chegou à conclusão: eu não conheço nenhum Fortuna.


Então, eu pratiquei uma extorsão, uma pseudo-extorsão em menos de um minuto, de pé, num ambiente com mais três pessoas – que são as duas secretários mais um assessor -, andando, com uma notícia velha, porque a notícia que já estava divulgada para a revista desde abril. Isso foi no dia 3 de maio. Foi uma notícia velha, que depois pelo noticiário fiquei sabendo que além da revista Veja, a própria revista Veja fez checagem nos Correios ainda no mês de abril. Então, setores dos Correios também sabiam dessa fita, porque é normal que a revista faça essa checagem. Que a Abin, pelos noticiários, estou sabendo que também tinha notícia dessa fita desde abril; e também pela própria imprensa e jornalistas que me telefonaram. E a própria Polícia Federal poderia ter essa fita, já que a Veja, normalmente, numa situação dessa gravidade, não deixaria de avisar a Polícia Federal.


Então, eu pratiquei uma extorsão de pé, andando, em menos de um minuto, com uma notícia velha, para obter benefícios para uma pessoa que eu não conhecia, que nunca vi, que nunca me viu. Tudo isso foi levantado e investigado à exaustão pela Polícia Federal.


Então, esse é o assunto em pauta que me levou a ser preso e que me trouxe aqui. Os envolvimentos que tive nesse assunto foram muito maiores depois da gravação sair na revista do que antes. Até aquele momento, eu sabia da fita. No dia 3 de maio, eu soube do fita. No dia 3 de maio, eu escutei esse comentário no Senado. No dia 3 de maio, fiz o aviso ao Deputado Roberto Jefferson. Isso é uma cronologia que, nos outros depoimentos, eu vi que ficou muito perdida, porque, do dia 3 de maio, houve um final de semana inteiro pela frente, e só no dia 15 de maio é que houve a publicação na revista Veja. Então, entre o dia 3 de maio e o dia 15 de maio… E no dia 3 de maio, à noite, cheguei para o Arthur e falei: ‘Olha, o Deputado não conhece nenhum Marinho. Ele disse que isso é caso de demissão. Leve essas fitas para os Correios’. E ponto final. O dia que ele levou eu não sei. Como ele entregou eu não sei. Até aquele momento, eu não sabia quem tinha feito, eu não sabia o mecanismo que ele tinha usado. Eu não conversei com ele sobre esse assunto depois, até porque ele viajou.


Quando houve a publicação da fita, no dia 15, já no dia 14 se sabia, ainda tentei entrar em contato com o Deputado. Não consegui. No dia 16, de manhã, acordo e meu nome está no jornal. O Deputado Roberto Jefferson estava me acusando de tentar uma chantagem com ele. Se não me engano, o Jornal do Brasil dizia até que eu tinha pedido dinheiro. Tentei falar com o filho dele, não consegui. Tentei falar com ele, não consegui. Tentei falar com o Prefeito de Belém, não consegui. Nesse momento, a partir daquela notícia, eu já era um pária social, ou seja, já senti que foi feita toda uma barreira, e não conseguia chegar em ninguém. Vim para Brasília. Ainda tentei entrar em contato com ele. Ele não estava no gabinete. Não foi ao gabinete, ou pelo menos me disseram que foi direto para o plenário e deu o discurso, onde citou meu nome. E meu mundo, que tinha começado a ruir na segunda-feira, desabou na terça-feira com o discurso dele em plenário.


A partir daquele momento, a natural curiosidade do ser humano é, primeiro: quem é o tal do Fortuna, que não conheço e que me envolveram junto com ele. Tenho que perguntar para alguém, tenho que procurar saber. Fiquei em Brasília do dia 17 até o dia 20, fazendo um trabalho de gestão para mim mesmo, ou seja, comecei a focar, pedi um computador emprestado, inclusive para o próprio Arthur, peguei Internet, jornal, revista, tudo que podia, para me inteirar do que estava acontecendo, para me inteirar exatamente sobre os envolvimentos em que eu estava ‘involucrado’, ou seja, da forma como eu estava ‘involucrado’ nesse assunto.


Peguei um advogado amigo meu, que infelizmente não posso pagar porque é um excelente advogado, e fiz minhas indagações jurídicas sobre as implicações que aquilo poderia ter para mim. Perguntei se valia a pena eu ir ou não à Polícia Federal. Ele me respondeu: ‘Molina, volta para o Rio, volta para sua casa, atende todo mundo, seja jornalista, seja polícia, seja quem for, mostre que você não está fugindo, que você está num endereço fixo e que pode ser localizado por qualquer autoridade ou qualquer pessoa, na hora que quiserem’.


Voltei para casa no sábado. A situação em minha casa logicamente foi um burburinho total. Minha filha, minha mulher, todo mundo super nervoso, super constrangido. Amigos, vizinhos, todo mundo perguntando o que estava acontecendo, porque um Deputado falou meu nome no plenário, e numa situação bastante desagradável. Ou seja, é um desagravo muito grande à minha pessoa.


Um dos jornalistas que me ligou me fez a pergunta: ‘O senhor foi chamado na Polícia Federal?’ Minha resposta está no jornal, se não me engano, O Estado de S.Paulo. Eu falei: ‘Ainda não, estou esperando. Estou em minha casa. Da mesma maneira que você me localizou, a Polícia me localiza. Vou falar com ela à hora que ela quiser’.


Muito bem. A partir desse momento, quando digo que meu envolvimento com esse assunto foi posterior ao dia 3 de maio, até o dia 16, ou dia 17, porque foi a partir desse momento que pedi ao Arthur que me explicasse tudo. Ele voltou de uma viagem, ele estava, se não me engano, em Manaus, ele falou comigo, no dia em que a revista saiu, que estava em Manaus. Eu pedi para ele: ‘Nós precisamos nos encontrar, porque eu quero saber dessa história toda. Tudo direitinho, como é que foi, porque naquele dia você não me explicou a história toda’.


Ele marcou para terça-feira daquela semana, se não me engano, que ele viria ao Rio. Marcou no Hotel Glória. Eu pedi que ele levasse o Joel, porque ele tinha feito uma… Tinha conversado com o Joel, tinha dito que Joel tinha falado com ele e tinham falado em duas gravações. Eu falei: ‘Opa! Então o assunto, ou seja, existe o comprometimento maior do que você me contou até agora. Vamos fazer o seguinte? Vamos nos encontrar no Rio de Janeiro. Eu quero saber de tudo, como é que aconteceu, quem fez, quem não fez, como é que foi, como é que deixou de ser’.


Daquele dia, do dia 15 até… No dia 15 não, desculpe. Foi no dia em que eu voltei para o Rio, foi no dia 20, 21, 22… No dia 22. Do dia 22 em diante, o Arthur me disse que estava muito preocupado com o Joel, que esse assunto tinha fugido das mãos dele, que ele gostaria que eu realmente conversasse com o Joel, porque o Joel estava apavorado, que ele também estava apavorado. Eu falei: ‘Então, nada melhor que a gente se encontrar. Já que você vem para o Rio, então que venha o Joel, a gente se encontra no Rio de Janeiro. Toma todos os cuidados necessários, porque até agora a única pessoa envolvida neste assunto sou eu. Então vamos estudar, vamos ver como é que está essa situação. Está certo? Porque o meu mundo já caiu, vamos ver o que a gente pode preservar disso tudo’. E dessa forma foi que nós marcamos um encontro no Hotel Glória. A partir daí os fatos tomaram conta. Ou seja, a partir daí já houve, logo depois, a Polícia Federal entrando no assunto, a partir daí as pessoas que fizeram a gravação já foram descobertas, a partir daí veio busca e apreensão e o meu mandado de prisão e a partir daí os fatos tomaram conta da… Ou seja, já não houve mais controle de ação nenhuma. Ou seja, os fatos tomaram controle da ação e, em função disso, a seqüência foi o que é… Aí já é história, já foi manchete, já foi notícia.

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  1. Comentou em 14/07/2005 Luiz Carlos Silva

    O que se pode ver dos depoimentos nas CPIs é que a mídia terceirizou ‘seu jornalismo investigativo’ á arapongagem da ABIN, através de seus quadros da ativa, inativos e desgarrados.

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