Domingo, 19 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

IMPRENSA EM QUESTãO > JORNALISMO ECONÔMICO

Um relatório, duas leituras

Por Luciano Martins Costa em 26/06/2012 na edição 700

Comentário para o programa radiofônico do OI, 26/6/2012

 

O jornal o Estado de S. Paulo fez uma aposta baseada no relatório anual do Banco de Compensações Internacionais (BIS) no qual enxergou grandes riscos para o Brasil num futuro próximo por conta do endividamento das famílias.

O primeiro lance veio na segunda-feira (25/6), um dia após a publicação do relatório, que faz algumas advertências sobre possíveis consequências da opção brasileira de aquecimento da economia por meio do consumo movido a crédito. O segundo movimento surge em editorial publicado na terça-feira (26), com o mesmo sentido.

O que chama atenção na interpretação feita pelo Estadão é que ela não foi compartilhada pelos outros jornais de circulação nacional. O Globo fez uma leitura equilibrada, tratando o documento como aquilo que ele é: uma entre muitas análises de economistas que procuram desenhar cenários futuros em meio a um contexto de crise. A Folha de S. Paulo, ao contrário, aposta na terça-feira (26), num artigo que apresenta um teor exatamente oposto ao do Estadão, no qual o autor afirma que a situação do crédito no Brasil não é motivo para preocupação.

Questão antiga

O documento de 214 páginas em inglês, que contém o 82º relatório anual do BIS, faz algumas referências ao Brasil que, tomadas isoladamente, podem produzir alguns cuidados (veja aqui). Mas não há um destaque especial que fundamente a análise alarmista publicada pelo Estadão em reportagem na segunda-feira e reforçada em editorial na terça, segundo o artigo da Folha.

Pelo contrário: no plano geral, o relatório coloca o Brasil, junto com Japão e Estados Unidos, como países relativamente imunes à esperada queda de exportações por causa do baixo crescimento da economia mundial como um todo. Primeiro, porque são economias maiores nas quais as exportações representam apenas um fração do PIB. Segundo, porque o crescimento de suas demandas externas deve ser apenas ligeiramente menor em função da crise internacional.

Mesmo no trecho em que comenta o grande crescimento do crédito em alguns países, entre os quais o Brasil é citado, o documento pondera que “crescimento rápido do crédito não é necessariamente ruim”, observando que em muitos países em desenvolvimento o crédito esteve restrito e o sistema de financiamento ainda está relativamente subdesenvolvido.

No caso do Brasil, a solidez do sistema bancário, conforme lembra o artigo da Folha, reduz os motivos para preocupação.

Se há duas maneiras de ler o documento do BIS, qual seria a motivação maior para o Estadão escolher a visão mais pessimista, quase beirando o catastrofismo? A resposta talvez esteja na página 26 do relatório, onde os analistas dizem que uma das forças da economia brasileira está na relativamente pouca dependência do mercado externo.

Trata-se de uma velha questão que opõe o jornalão paulista ao modelo econômico adotado pelo Brasil nos últimos dez anos, que consiste em estimular o aumento da renda interna e a facilitação do crédito para manter a economia em crescimento.

Demanda e especulação 

Há, de fato, uma advertência no relatório do BIS sobre o risco de uma bolha nos países emergentes, e o Brasil é citado entre as economias onde o crédito vem assumindo proporções maiores do Produto Interno Bruto; mas o sistema financeiro nacional, reforçado em 1995 pelo Proer e recolocado no eixo da concorrência por medidas mais recentes, tem mecanismos suficientes para monitorar os perigos da inadimplência.

Por outro lado, há questões que exigem uma abordagem mais do que econômica, como a da distância entre a necessidade de superar o déficit habitacional, compromisso social que todo governo deveria ter, e o descontrole provocado pela explosão dos preços causada pela especulação diante do aumento da demanda.

No caso da questão habitacional, como lembram alguns analistas, a demanda no Brasil não tem caráter especulativo, mas se trata de justiça social. Ações governamentais nos três níveis administrativos, com mais oferta de imóveis de caráter social, podem amenizar esse efeito – mas resta, como alerta o documento do BIS, uma preocupação com o difícil equilíbrio da política de crescimento muito dependente do crédito.

A situação brasileira, muito mais confortável do que a da maioria dos países desenvolvidos e mesmo entre os emergentes, recomenda a adoção de cuidados especiais quanto ao endividamento. Mas, como aconteceu há poucos anos, com o fantasma da “inflação de alimentos”, que nunca se consolidou, o cenário não autoriza acessos de histeria.

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