Sexta-feira, 17 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

IMPRENSA EM QUESTãO > OPERAÇÃO GUTENBERG

Uma guerra no escuro

Por Luiz Antonio Magalhães em 16/11/2004 na edição 303

No começo da semana passada, duas colunas de gossips políticos na internet relacionavam a saída do jornalista Ricardo Kotscho do governo com a iminência da deflagração pela Polícia Federal da "Operação Gutenberg", que, também segundo tais colunas, prenderia três jornalistas da revista IstoÉ e um colunista político de Brasília. Um dia depois da publicação das notas, na quarta-feira (10/11), o jornalista Sebastião Nery publicou a mesma notícia em sua coluna – reproduzida em diversos jornais brasileiros, entre eles a Tribuna da Imprensa e o DCI. Nery afirmava ainda que Kotscho não gostaria de passar pelo constrangimento de estar no governo quando a operação tivesse início.


Depois da publicação do texto de Sebastião Nery, uma nova nota foi publicada na web informando que a revista Veja, da Editora Abril, anteciparia a sua edição para dar, na capa, os primeiros resultados da "Operação Gutenberg".


Veja de fato antecipou a edição, como às vezes faz vésperas de feriados, e chegou às bancas na sexta-feira com a capa dedicada ao câncer de mama. Mas não deixou de tocar na misteriosa ação da Polícia Federal. Sob o título "Murchou", o semanário da Abril publicou a seguinte nota na coluna Radar, editada por Lauro Jardim:


"A Gutenberg, a operação da Polícia Federal destinada a pegar profissionais de imprensa envolvidos em venda ou engavetamento de reportagens, subiu no telhado."


Procurado pelo Observatório na terça-feira (9/11), o secretário de Imprensa da Presidência da República, Ricardo Kotscho, negou enfaticamente que a sua saída do governo tivesse qualquer relação com a tal "Operação Gutenberg", cuja existência ele também afirmou desconhecer. Segundo o assessor do presidente Lula, as notícias sobre a suposta ação da PF são fruto de "plantações" de alguém com interesse em tumultuar o ambiente político e alimentar o Congresso Nacional de boatos. "Fiquei sabendo ontem (segunda, 8/11) e liguei para o ministro da Justiça, que me garantiu não haver nenhuma operação", relatou Kotscho. "Isto é coisa de doido. Eu já tive até de responder se a minha saída se devia ao fato de não ter sido consultado sobre a mudança no Ministério da Defesa. Não há nada disso", completou.


Entre jornalistas de Brasília ouvidos pelo OI, a "Operação Gutenberg" é assunto recorrente há pelo menos dois meses. Um experiente colunista do Congresso, porém, diz que não deu muita atenção aos rumores sobre a operação porque eles vinham sendo sucessivamente desmentidos, mas confirmou que o assunto voltou a ser comentado nos últimos dias, com o aparecimentos das notas na internet.


Outro jornalista brasiliense tem uma teoria sobre a motivação da suposta operação, que na verdade seria uma vingança da Abril contra a rival Editora Três, que publica a IstoÉ. Segundo a fonte, o episódio teria relação direta com o relato, dado na IstoÉ, do jornalista Luis Costa Pinto sobre o episódio que culminou na cassação do ex-deputado federal Ibsen Pinheiro (PMDB-RS). Costa Pinto confessou que a sua principal matéria sobre o caso, publicada à época pela Veja, continha graves incorreções que ajudaram na cassação de Pinheiro. Além de tudo isto, lembra a fonte, Veja já há algum tempo tem saído com notas cifradas sobre a "Operação Gutenberg" e publicado diversas reportagens, a maioria delas positivas (uma foi matéria de capa), sobre a Polícia Federal.


Um velho ditado diz que onde há fumaça, há fogo. Difícil, neste caso, é saber se o fogo é real ou se há alguém interessado em incendiar a lavoura alheia, como desconfia o escaldado jornalista Ricardo Kotscho. A resposta está, com sempre, nos fatos: se a operação acontecer, vai balançar o coreto da guerra editorial entre a Abril e a Três, com conseqüências também para o tal colunista político não-identificado nas notas. Caso contrário, no entanto, terá sido mais um episódio nebuloso envolvendo colunas, inocentes ou não, a serviço de interesses ocultos. Na seara das plantações, porém, difícil é crer em inocência.

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