Sábado, 16 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

IMPRENSA EM QUESTãO > FÓRUM SOCIAL MUNDIAL

Uma outra mídia seria possível?

Por Paulo Roberto de Almeida em 20/01/2009 na edição 521

Aproximando-se mais um piquenique anual dos antiglobalizadores, desta vez com sabores amazônicos – em Belém do Pará, de 27 de janeiro a 1º de fevereiro de 2009 – e alguns toques indigenistas, pode-se perguntar se, adotando o slogan preferido desse heteróclito e surrealista movimento, não estaríamos também precisando de uma outra mídia, ou pelo menos de uma imprensa capaz de tratar da substância, não da superfície, desses animados encontros anuais.

Desde os anos 1990, quando começaram as ruidosas manifestações dos antiglobalizadores, a imprensa acompanha zelosamente esses caóticos encontros, como é obviamente seu dever. São, assim, reportados o número de participantes, as marchas que eles empreendem, a presença de algumas vedetes da antiglobalização internacional e, eventualmente, até um pouco do que se discutiu nesses encontros.

O que se registra menos, contudo, é o que esses alternativos da globalização têm a dizer de concreto sobre os problemas do mundo ao qual se referem. A impressão que se tem, da leitura dessas matérias, é a de que a imprensa não alimenta o mesmo cuidado que tem com o aspecto externo desses encontros quando se trata de comentar as propostas ou a plataforma de seus organizadores, indagando, por exemplo, se elas guardam alguma coerência com suas motivações.

Muita transpiração, pouca inspiração

De fato, existe até a preocupação da mídia em registrar o que dizem os antiglobalizadores, mas pouco em comentar se o que eles dizem guarda relação com a realidade do mundo concreto. De minha experiência com a cobertura atenta desses eventos, ao longo dos últimos dez anos, observei que o que os antiglobalizadores mais produzem, na verdade, é o próprio movimento, e não exatamente propostas concretas: eles certamente quebram muitas vitrines, queimam alguns carros, mas jamais conseguem dizer em que, exatamente, consistiria o ‘outro mundo possível’, sempre prometido, mas nunca explicitado. Será que a imprensa não tem a obrigação de cobrar-lhes essa falta de coerência?

A julgar pela intensa agitação e reduzida capacidade de proposta dos últimos dez anos, não se deveria esperar grandes novidades neste novo jamboree de Belém. De fato, o que eles mais produzem, efetivamente, é muita transpiração e pouca inspiração. Não cabe, talvez, sequer cobrar novas idéias, pois isto poderia deixá-los embaraçados.

Qual a viabilidade das utopias?

Mas, considerando-se que o papel dos grandes veículos de imprensa é o de não apenas reportar, mas também o de oferecer um ‘espaço de reflexão’ – como sugerem os próprios antiglobalizadores –, não seria de se esperar um pouco mais de profundidade no tratamento do conteúdo que está sendo supostamente discutido? Afinal de contas, a concentração da atenção da mídia na cobertura do evento em si, em lugar de sua substância, representa uma perda de oportunidade de falar de coisas mais interessantes do que simplesmente reportar slogans simplistas. De fato, a agitação de alguns milhares de jovens pode não ser mais excitante, no plano das idéias, do que um congresso de dentistas ou de corretores de imóveis.

A pergunta que se deve fazer seria esta: o que, de fato, os antiglobalizadores têm a dizer de inteligente sobre o mundo atual e seus problemas? Onde está e como seria construído esse ‘outro mundo possível’? De que seria feita sua arquitetura? Ela seria capaz de se sustentar, no plano das relações econômicas concretas? Qual a viabilidade, finalmente, de suas utopias? Com a palavra, a imprensa de reflexão…

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Sociólogo e diplomata, Brasília, DF

Todos os comentários

  1. Comentou em 22/01/2009 Ibsen Marques

    Filipe, sugiro estudar melhor o republicanismo, seus conceitos e a proposta de uma liberdade positiva e que nada tem de esquerdismos, socialismos, comunismos etc.

  2. Comentou em 21/01/2009 Filipe Fonseca

    Um dos principais problemas do esquerdismo atual é o repúdio à liberdade. O capitalismo é o sistema econômico que resultou do regime político de liberdades. Ser ‘contra’ o capitalismo é ser intolerante com o que os outros fazem com sua própria liberdade. O anti-capitalista pode até defender a liberdade nominalmente, mas, em geral, é contra a liberdade que ele se insurge. Sempre que o assunto vem à tona, o esquerdista médio procura relativizar o valor da liberdade. ‘Liberdade para quê?’, ele pergunta. ‘Liberdade para acumular?’ A resposta, que muito lhes desagrada, é que a liberdade é um valor negativo. Objetivamente, dela não se deve esperar nada de positivo, nenhum resultado estatisticamente verificável. A utilidade social da liberdade está em si mesma, porque nós, homens, desfrutamos de liberdade em nossos pensamentos, e nossos atos serão tão mais moralmente perfeitos quanto formos livres para fazer nossas escolhas. Para haver liberdade, é necessário que respeitemos as escolhas de outros quando estas nos desagradarem ou quando forem superiores às nossas próprias escolhas. Isto é, para que haja liberdade, é necessário que haja tolerância entre os homens. Todas as manifestações esquerdistas atuais, do tipo ‘um outro mundo é possível’, incorrem, assim, num pecado original: pretendem mudar o mundo dos outros porque estão insatisfeitos que o que os outros fazem com suas vidas.

  3. Comentou em 21/01/2009 Carolyne Reis Barros

    Caro Paulo Roberto, seus comentários sobre o Fórum Social Mundial mais parecem terem saído da Rede Globo. Existem propostas sim para um outro mundo possível, alguns vão para lá porque querem um mundo possível em que haja habitação, saúde, educação, trabalho…. e reinvindicam por isso… e isso inclui pensar num sistema antiprisional talvez, na luta antimanicomial, na reforma agrária, nas questões referentes à gênero e raça, que são tão importantes quanto a luta de classe. Como muito bem citado pela colega, Milton Santos além de cantar a bola sobre mídia e sistema ‘capetalista’ atentava para fatos mais concretos da economia. O lucro está acima do bem comum mesmo??? Vou para o Fórum não para quebrar vidros, mas por acreditar que um outro mundo é possível….. e que pode ser diferente!!!!

  4. Comentou em 20/01/2009 Davis Gordon Dun

    Faço das palavras do Rogério as minhas.
    A pergunta que realmente deveria ser feita é: Que realidade de fato as pessoas acreditam estar vivendo nesse mundo? Será que seria a mesma que o Paulo Roberto acredita estar vivendo! Baseado na fé no sistema financeiro que já começou a ruir! Um sistema onde o dinheiro não possue lastro, onde o lucro é o principal objetivo das instituições bancarias, fazendo que o restante (governos, empresas e etc) sigam suas regras, deixando de lado o bem estar coletivo. “LUCRO” essa é a sua realidade Paulo? Para você escrever o que escreveu sobre o Fórum, so pode ser (com todo respeito) mais um cordeirinho da realidade escravista do sistema capitalista. A crise financeira veio demonstrar ao mundo que a verdadeira crise não é financeira e sim de consciencia, um sistema baseado em lucro, onde sempre haverá poucos com muito e muitos com pouco. Destes, muitos estão na linha da morte pela fome ou pela guerra com intereces finaceiros. O pior é que todas as demais instituições (governamentais, comunicação, belicas, farmaceuticas e etc) apoiam e fortalecem essa minoria. Algo deve ser feito! E é necessario que haja interação de todos, é necessario que haja foruns sociais sim! E não Cupula do G8! Se a midia atual capitalista não cobre o forum com mais credito se deve pelo fato dessa se sentir ameaçada, obvio ela acredita no sistema do lucro, o mesmo do Paulo.

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