Segunda-feira, 20 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

IMPRENSA EM QUESTãO > COBERTURA DO CASO RENAN

Uma sombra sobre o espírito republicano

Por Márcio Sampaio de Castro em 18/09/2007 na edição 451

Leio e releio os jornais. Agora, foi Salvatore Cacciola que voltou para trás das grades. Na distante Mônaco, ressalte-se. Jornais impressos e televisivos lembram: o ex-banqueiro beneficiou-se da flexibilização da banda cambial em 1995. Contou com ajuda de funcionários do Banco Central, recordam de passagem. Os jornais O Globo e Folha de S.Paulo vão um pouco mais longe na análise e informam que um desses funcionários foi o ex-presidente da instituição, Francisco Lopes. Ponto. Nada de detalhes.

Leio e releio os jornais. ‘O Senado brasileiro foi para a lata do lixo’, dizem uns. ‘O governo e seu partido conseguiram salvar o senador Renan Calheiros’, dizem outros, ao final do julgamento do presidente do Senado por quebra de decoro. ‘Vamos derrubá-lo’, afirma um senador para lentes e gravadores, um dia após a votação. ‘Lula foge da imprensa’, alardeia uma publicação, aludindo ao pretenso medo que o mandatário teria de se pronunciar sobre o caso. Curiosamente, em outra página do mesmo jornal pode-se ler: ‘`Se o Renan quiser é só ligar que eu o recebo´, afirma Lula’. Retratos de uma comoção que clama pela punição ‘desta execrável exceção à regra’ que seria o senador alagoano.

Mas o que Renan e Cacciola têm em comum? Muita coisa.

‘Isto não tem importância’

Considero o termo ‘mídia golpista’ um exagero de retórica, mas sem dúvida, ao ler e reler os jornais nos últimos dias, tenho visto coisas espantosas. Comecemos pela prisão do ex-banqueiro, meio italiano, meio brasileiro.

Para efeito de comparação, imaginemos que Henrique Meirelles, atual presidente do Banco Central, fosse envolvido em uma suspeita – destaque-se aqui a palavra suspeita – de favorecimento e fornecimento de informações privilegiadas aos integrantes da banca nacional. Imaginemos ainda que o atual governo montasse junto com os diretores do BC um programa de auxílio a esta mesma banca na ordem de, digamos, 27 bilhões de dólares. O tal programa poderia ser batizado de Proer.

Para terminar, imaginemos que, às vésperas da implantação de um novo regime cambial, a maioria esmagadora dos bancos entrasse no mercado comprando dólares, cabendo às instituições sob intervenção deste mesmo Banco Central, como o antigo Banco do Estado de São Paulo, por exemplo, o papel de felizes vendedores da moeda americana. O que leríamos nos jornais?

Pois bem, Salvatore Cacciola é um símbolo vivo de toda essa bandalheira convenientemente esquecida e que jamais resvalou a rampa ou os corredores do Planalto, sob a ótica de boa parte da imprensa, há pouco mais de dez anos. Ao retornar o ex-banqueiro para os holofotes da mídia, apenas a recordação técnica no off do Jornal Nacional: ‘Cacciola recebeu ajuda de funcionários do Banco Central’. Seja lá o que isto quer dizer.

Voltemos ao senador Renan. Um dia antes da votação, o senador Álvaro Dias aparece para o Brasil dizendo: ‘Se Calheiros não for cassado, a culpa será do PT’. Na noite da votação, ao acompanhar um debate entre os principais analistas políticos do jornal O Globo, no canal jornalístico para assinantes do grupo, ouço uma pergunta. ‘Mas pelas contas, senadores do DEM e/ou do PSDB votaram pela absolvição do presidente do Senado, não?’. Resposta: ‘Isto não tem importância, o importante é que realmente o PT foi o fiel da balança, mesmo com as abstenções'(!).

Recurso ao tapetão

Todos os analistas políticos, coincidentemente, esqueceram-se de analisar que o julgamento de Calheiros seria e foi, antes de mais nada, um julgamento político e não ético. Afinal, quando o senador lembrou aos seus pares que todos tinham telhado de vidro, os indecisos se resolveram e os amigos partiram para o deixa-disso. É interessante observar que esta ética, tão avidamente defendida pelos jornalões, não os obriga a investigar acusados e acusadores. Repercutem as denúncias produzidas sabe-se lá em quais circunstâncias, e só.

Esta mesma ética não faz com que muitos profissionais de mídia deixem de lado um papel de porta-vozes de interesses políticos e passem a atuar de maneira mais enriquecedora e independente para o debate. É bastante provável que essa virtude contribuísse de maneira eficaz para asfixiar os Renans e suas práticas, e também as dos oportunistas de plantão, que sentam sobre o próprio passado para, ao lado de jornalistas ‘indignados’, clamarem por justiça.

Ao ler e reler os jornais, vejo que Cacciola e Renan são dois lados de uma mesma moeda. Quando convém calar e tratar as questões de maneira superficial, assim se procede. Quando convém fazer bastante barulho, esta é a tônica. Refletiriam essas práticas a intransigente defesa do interesse público ou a defesa de interesses inconfessáveis à luz do juízo e da pluralidade democrática?

Ao ler e reler os jornais, vejo-me obrigado a dar razão àqueles que, por vezes de maneira tão deselegante, afirmam que, batidos nas votações, alguns setores da sociedade consideram cada vez mais válida a idéia de recorrer ao tapetão, jogar areia nos olhos e empregar todo tipo de expediente que só contribui para enfraquecer ainda mais o espírito republicano e a verdadeira democracia.

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Jornalista

Todos os comentários

  1. Comentou em 21/09/2007 Marcelo Cardoso

    Excelente o conteúdo do texto aqui apresentado. Concordo quando Márcio Sampaio diz ser um exagero denominar a mídia de ‘golpista’, no entanto, não posso deixar de destacar recentes fatos, como as duas eleições do presidente Lula que mostraram aos brasileiros a existência de certos posicionamentos quase explícitos por parte da tal mídia, tanto para um lado como para outro.
    Não sou contra um veículo de imprensa marcar posição, mas deveria se agir como alguns grandes da mídia dos Estados Unidos: declarar abertamente quem apóia. É mais justo com o seu público-alvo.

  2. Comentou em 18/09/2007 Antonio Carlos Silva

    É por causa disso e de outros golpes contra a vontade da maioria da populacão, que, eu confeccionei 10 camisetas com os dizeres A MIDIA BREASILEIRA É UMA M…, distribuí a amigos conscientes e participaremos de qualquer ato contra esta podre mídia.

  3. Comentou em 11/09/2007 Helio Rubens de Arruda e Miranda

    No próximo sábado, no auditório das Faculdades Integradas de Itapetininga, com apoio desta, o POLO SOROCABA da Aliança Internacional de Jornalistas estará realizando um evento dirigido a jornalistas com o tema A Responsabilidade Social do Jornalista , que envolve a questão que está sendo pauta hoje. Discute-se se tal ou qual ação é correta ou não, mas ninguem ainda falou sobre a responsabilidade pessoal do jornalista. Não vale considerar não só a a ética da profissão, ms também a ética do profissional? A reuniao trará jornalistas da PUC São Paulo, de Sorocaba e de toda a Região Sudoeste do Estado de São Paulo. Será no sábado,a partir das 14 horas. Entrada grauita.

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