Sábado, 30 de Julho de 2016
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº913

IMPRENSA EM QUESTãO > MUDANÇA DE TOM

Uma imprensa pequena para uma grande Copa

Por Luciano Martins Costa em 14/07/2014 na edição 806

Comentário para o programa radiofônico do Observatório, 14/7/2014

A imprensa brasileira reconhece, nesta segunda-feira (14/7), que o torneio encerrado no domingo com o triunfo da Alemanha sobre a Argentina foi a maior e melhor de todas as Copas do Mundo já realizadas. Os jornais fazem balanços e antecipam números que estarão no relatório do Grupo de Estudos Técnicos da Fifa. Segundo o Estado de S. Paulo, o chefe da comissão já adiantou que esta foi a melhor versão do torneio em todos os tempos, em termos de qualidade e entretenimento.

Não apenas pelos dados, apresentados em páginas duplas e infográficos pelos diários do Brasil e de outros países, mas também por critérios como inovação técnica, táticas dinâmicas e fatos surpreendentes, a qualidade do evento é destacada nas reportagens.

Até mesmo a vexaminosa participação da equipe brasileira nas semifinais é citada como parte do conjunto de fatos que encantam os observadores: a torcida absorveu imediatamente a derrota humilhante para os alemães no dia 8, terça-feira passada, 27º dia da Copa, e os alemães foram aplaudidos por brasileiros ao final do jogo e no trajeto do ônibus que os retirou do estádio em Belo Horizonte.

O outro grande vexame foi protagonizado pela própria Fifa, com a evidência de que alguns de seus dirigentes e colaboradores podem estar envolvidos com a quadrilha de cambistas desbaratada pela polícia do Rio. O grupo vinha atuando desde, pelo menos, 2002, quando foi detectada a venda irregular de ingressos no Japão e na Coréia, e passou incólume pelas autoridades nas copas da Alemanha, em 2006, e da África do Sul, em 2010. A investigação da polícia brasileira oferece aos dirigentes das federações nacionais um argumento de peso para pressionar a Fifa a combater a corrupção interna.

Quanto à seleção brasileira, humilhada diante da Alemanha com a goleada de 7 a 1 e reduzida à sua real dimensão pela derrota seguinte, contra a Holanda, por 3 a 0, resta uma chance de mostrar alguma dignidade: que os jogadores e a comissão técnica abram mão dos R$ 11 milhões que irão receber como prêmio pelo quarto lugar, e façam uma doação a entidades de ação social.

No banheiro do cachorro

O que dizer sobre a imprensa nacional?

Quem tem em casa um animal de estimação pode fazer uma pesquisa de campo nos jornais que recolhem os dejetos e reviver o trajeto dos principais veículos de informação do País: da mais impiedosa descrença sobre as chances de o Brasil apresentar ao mundo um mínimo de eficiência e organização na Copa, os textos saltaram para o triunfalismo basbaque diante dos primeiros resultados da seleção na fase classificatória, até a decepção com a derrota acachapante diante da Alemanha.

Nesta segunda-feira, de volta à realidade, os comentaristas que ontem faziam o coro da louvação ao técnico Luiz Felipe Scolari agora o crucificam.

Na leitura cotidiana, nem sempre é possível perceber as mudanças de opinião e de tom que atravessam as análises dos diários. Mas para se observar como a imprensa brasileira, de modo geral, parece uma nau sem rumo, basta pegar duas edições seguidas de uma revista semanal de informação.

Esse é o formato mais ingrato da imprensa de papel, porque não tem a mesma possibilidade dos jornais de desdizer no dia seguinte o que afirmou hoje, e suas edições costumam permanecer ao alcance da vista durante muito tempo, envelhecendo nas salas de espera de consultórios e salões de cabeleireiro.

Veja-se, por exemplo, a revista Época: na edição da semana passada, com data do dia 7/7, os editores haviam superado, finalmente, o mau humor com que haviam previsto uma Copa do caos e, contaminados pelo ufanismo dos jornais e das emissoras de televisão, cravaram na capa: “Eu acredito”.

Na reportagem principal, o leitor é apresentado a um cenário de campeões, depois da vitória sobre a Colômbia, quando o atacante Neymar sofreu uma contusão grave na coluna. Num perfil de quatro páginas, Scolari é tratado como um líder nato: “Felipão é, acima de tudo, um motivador. Sua especialidade é lidar com a emoção dos jogadores. Num momento de crise, ele demonstrou ter nervos de aço”, dizia o texto.

Agora, observe-se a edição seguinte, que está nas bancas. Na capa, a foto de uma torcedora brasileira, em lágrimas, e o registro da  derrota para a Alemanha: “Belo Horizonte, 8 de julho de 2014”. O texto principal tem um título que descreve outro Felipão: “Um técnico obsoleto e teimoso”.

Pode-se levar a sério uma imprensa assim?

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