Segunda-feira, 10 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1016
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IMPRENSA EM QUESTãO >

Unha e carne do atraso

Por Gilson Caroni Filho em 06/04/2004 na edição 271

Dificilmente as relações entre mídia e poder na ditadura militar encontrarão referência mais emblemática. Ao publicar um caderno especial sobre o golpe de 64, O Globo (28/3/04) apostou todas as fichas na produção do esquecimento. Nunca foi tão pedagógico o exercício de reescrever a história, primando menos pela riqueza de detalhes que pela plenitude de ausências.

Não se conta um período omitindo seus principais atores, não se desvela um processo ignorando suas principais motivações e beneficiários. O que o jornal da rua Irineu Marinho, 35 conseguiu foi montar uma colagem. Um mosaico quase anedótico ao qual pretendeu chamar de resgate de uma época.

Onde estão, ao longo de 16 páginas, a CGT, as Ligas Camponesas, a estrutura partidária e suas principais lideranças? Em que momento se toca na importância da atuação do complexo IPES/IBAD junto aos setores militares na urdidura do golpe? Em que consistiam as tão propaladas (e necessárias ainda hoje) ‘reformas de base’ e que segmentos a elas se opunham?

Essas lacunas não evidenciam nenhuma deficiência intelectual dos editores do caderno. O fato explicativo é conhecido por todos: a mídia em geral, e a Rede Globo de forma particularíssima, está impedida de tratar com abrangência de um episódio em que, mais que cúmplice, ela foi protagonista. Num primeiro momento como articuladora junto à opinião pública do arrazoado golpista. Posteriormente, como legitimadora de um regime que matou e torturou para zelar pelos interesses do grande capital. Por isso, como destacou Alberto Dines, neste Observatório, ‘a grande ausente nesta revisão de 1964 feita pela imprensa é a própria imprensa’. Talvez esse seja o preço a ser pago pelos próceres dos grandes complexos midiáticos brasileiros: purgar, tal como como os Buendia, na Macondo de García Márquez, ‘cem anos de revisão’.

Terror de Estado

Não há um só artigo, no suplemento, publicado por exilados ou oponentes do regime. Um caderno que abre com o atentado ao Riocentro (e continua escondendo a segunda bomba), tenta explicar, na linha iniciada por Elio Gaspari, a ditadura como uma imensa briga de patotas e concede ao ex-presidente José Sarney um generoso espaço negado a outros atores da época –, um caderno assim não produz apenas uma visão falseada. É, no sentido psicanalítico, um sintoma. Revela, pelo que maldiz, o que ainda habita a alma das elites brasileiras: o descaso com a inteligibilidade histórica, o velho patrimonialismo e a inequívoca vocação adesista.

Entre os clãs Marinho e Sarney há mais que afinidade eletiva. O que os une, embora tenha havido estremecimento recente, são o DNA do atraso e o cálculo frio da oportunidade histórica. As trajetórias de José Sarney e TV Globo se confundem no tempo dos generais.

A emissora de Roberto Marinho começa a operar em 1965, sustentada por um acordo técnico e financeiro com o grupo Time-Life, cujo escopo foi motivo de uma CPI no Congresso Nacional, no ano seguinte. Sarney, no mesmo ano, apoiado por Castelo Branco e tecendo loas aos ditadores de plantão, torna-se governador maranhense. Cinco anos depois, a Globo, esteio simbólico do regime, completava em seu noticiário a ação propagandística do regime. Em 1970, o oligarca assume uma cadeira no Senado. Juntos no mesmo projeto. Perfeitos na simetria.

Nos anos 1980, Sarney se dedicaria, nos bastidores, a abortar a campanha das Diretas-Já. O mesmo faria a família Marinho em seu monopólio televisivo. Quando, enfim, assume a presidência, após a morte de Tancredo Neves, a ‘afinidade eletiva’ se transforma em promiscuidade político-empresarial. A NEC do Brasil, um dos principais fornecedores de equipamentos de telecomunicação para o governo, termina nas mãos das Organizações Globo por 1 milhão de dólares, graças à ação do então ministro das Comunicações, Antonio Carlos Magalhães. Logo em seguida, como nos revela o documentário Muito Além do Cidadão Kane (de Simon Sartog, realização do canal 4 da BBC), o valor de mercado seria de 350 milhões de dólares!

Antes que a nova Constituição brasileira tirasse do presidente a prerrogativa de distribuir concessões, Sarney deu mais 90 e ficou com duas, que se tornariam afiliadas da Globo. Nunca cinco anos de mandato valeram tanto. Ou tão pouco, dependendo do ângulo. O certo é que ambos, Organizações Globo e Sarney, foram, cada um no seu campo, militantes ativos de um regime que se valeu do terror de Estado para aniquilar adversários.

Braço operacional

Esgotado o ciclo militar, a estrutura monopolística foi fiadora de mais uma transição por alto, que levaria o maranhense à presidência da República. A sociedade, embora estremecida, não foi de todo desfeita. Nada que impeça um reencontro em suplemento especial ou ação articulada, se o momento histórico for desfavorável ao interesses de um deles. O perigo não mora tão longe. E sua simples existência clama por reforma política imediata e legislação que democratize o conteúdo dos meios de comunicação.

No mesmo dia em que veio com o caderno especial, O Globo publicou um editorial alusivo ao golpe intitulado ‘Nunca Mais’. No último parágrafo, afirma que a democracia ‘é um patrimônio a ser zelado por todos, para que 31 de março não se repita’. Resta saber se foi um alerta à nação ou um comunicado interno.

Revelar, como faz o suplemento, que membros do braço operacional do SNI buscaram abrigo na Irmandade de Santa Cruz dos Militares, não basta. É preciso dizer por onde transitam os que deram apoio ideológico a um regime marcado pela brutalidade. Será que ainda há vestígios na rua Von Martius, 22?

Em tempo

Este artigo já havia sido enviado ao Observatório quando o Globo, em sua edição dominical (4/4/04), resolve revelar parcialmente o que a opinião pública esclarecida já sabia há muito: o apoio entusiasmado da mídia ao golpe militar.

Com chamada na primeira página, o jornal da Rua Irineu Marinho conta, em matéria intitulada ‘Militares assumiram com apoio da imprensa’, como o baronato dos grandes jornais apoiou o regime militar desde o início. Mas o faz de forma matreira, transmutando articulação em adesão. Continua ocultando o caráter central da TV Globo de maior instância legitimadora do terror de Estado. Tergiversa quando finge ignorar a hierarquia do campo jornalístico que a tornou, pelo suporte logístico que só ela detinha, o braço simbólico de um regime sangrento.

Será que o reconhecimento tardio atenua a gravidade do crime? Será o tribunal da história, presidido pela coruja hegeliana em seu vôo tardio, complacente com as conveniências de um grupo empresarial que precisa reescrever a própria trajetória? E que, ao tentar fazê-lo, continua a falsear a realidade? E o papel das Organizações Globo na sabotagem da campanha das Diretas? Quando virá à tona?

Quem sabe daqui a 20 anos leiamos, num suplemento dominical dedicado ao fato, o seguinte título: ‘Eleições diretas foram abortadas com nosso apoio’. Autocrítica não é algo que se faça parcialmente, de forma fragmentada. Ou contamos a história ou aumentamos a farsa.

O oficialismo, cedo ou tarde, sabe que a história costuma marcar encontros em becos sem saída.

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Professor-titular da Facha, Rio de Janeiro

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