Segunda-feira, 20 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

IMPRENSA EM QUESTãO > ENTREVISTA / KEN DOCTOR

Vale o escrito

Por Lúcia Guimarães em 13/08/2013 na edição 759

Reproduzido do suplemento “Aliás” do O Estado de S. Paulo, 11/8/2013

Em 1998, o jornalista David Remnick descobriu, surpreso, que seria nomeado novo editor chefe da revista New Yorker, uma referência do jornalismo americano, fundada em 1925. Remnick ficou assustado com a responsabilidade e ligou para seu antigo chefe, na única outra redação onde havia se empregado. A resposta veio na trovejante voz familiar dos que trabalhavam para Ben Bradlee, no Washington Post: “Você só precisa de um grande proprietário”.

Remnick recordou a conversa quando telefonou para o proprietário do Washington Post, Donald Graham, na segunda-feira (5/8) assim que a capital americana tremeu com a notícia de que, depois de 80 anos, a família Graham ia vender o jornal a Jeff Bezos, o fundador da Amazon. “A voz de Graham ao telefone era a de um homem com o coração partido”, lembrou Remnick, num podcast na New Yorker.

O jornal que derrubou o presidente Nixon com a investigação, há 40 anos, do escândalo Watergate tinha na época, além do admirado Ben Bradlee na chefia da redação, uma grande proprietária, Katharine Graham, mãe de Donald, morta em 2001. Mas a dupla enfrentava adversários de carne e osso, no centro de poder do superpoder. Hoje, a neta de Katharine Graham, Katharine Weymouth, que vai continuar como publisher e parece ter em comum com a avó apenas o primeiro nome, enfrenta a revolução digital com sua fuga de anunciantes e a consequente redução da circulação.

Não há menos consumidores de notícias, diz ao “Aliás” Ken Doctor, analista de mídia e autor de Newsonomics: Twelve New Trends That Will Shape the News You Get, livro que faz previsões sobre a mudança na maneira como o jornalismo é produzido e consumido. “Estamos passando mais tempo lendo notícias”, diz Doctor, que escreve regularmente em seu blog do Nieman Journalism Lab. Ele admite que salvar o jornalismo não é o mesmo que salvar os jornais. “Precisamos manter o fluxo de noticiário amplo, a análise e a diversidade de opinião”, diz.

Doctor lamenta a atual perda de cobertura regional, mas está otimista com novos modelos de parceria entre diferentes empresas de mídia. Lembra que novas pesquisas sobre hábitos de leitores de jornais mostram que eles leem cada vez mais em tablets. Num futuro próximo, Doctor prevê que os tablets serão os grandes aliados do bom jornalismo. “Lá pelo iPad 14”, promete.

Em seu livro, publicado há três anos, o senhor afirmava que o papel da rede social como fonte de notícias ia aumentar.

Ken Doctor – Sim, e isso se consolidou. A rede social se tornou parte fundamental em nossa descoberta de histórias. As pessoas que têm nostalgia da primazia dos jornais tradicionais falam do prazer de encontrar histórias selecionadas por editores. No mundo digital, isso não acabou. O Facebook, o Twitter e o Linkedin são novas fontes de descoberta. Ali, nós fazemos a edição. No Facebook, ela é mais informal. No Linkedin, que está crescendo muito, é mais voltada a interesses profissionais. E o Twitter, especialmente durante o dia, é uma fonte de notícias usada tanto por leitores como por jornalistas. Então, as fontes são superpostas, mas chegaram para ficar.

Outra tendência que o senhor destacou foi a de parcerias em mídia. A rede americana NBC fechou parceria com o GlobalPost, uma jovem organização de notícias internacionais que já ganhou prêmios de reportagem.

K.D. – É um exemplo perfeito. Conversei com os envolvidos essa semana. O vice-presidente de jornalismo da NBC lembrou que, no pior momento da recessão que começou em 2007, ele tinha de cortar custos e aumentar a cobertura, com tudo que começava a acontecer. Primeiro se associou à ITN europeia. A maioria desses relacionamentos é de troca. Mas as companhias de mídia são selecionadas cuidadosamente, pelo critério de qualidade editorial. Vamos ver esse ecossistema aumentar. Não há menos apetite por notícias. Pelo contrário, ele é cada vez mais voraz em várias plataformas. O tempo médio gasto lendo notícias aumentou. E as parcerias não significam relaxar critérios, mas criar ecossistemas que permitam a produção de noticiário.

O senhor já tratou também do drama da adaptação de jornalistas a novas mídias. Vê uma certa incompreensão sobre o que significa se adaptar?

K.D. – Isso acontece em instituições que não usam com inteligência seus talentos. Não faz sentido esperar que jornalistas veteranos de repente adquiram capacidades tecnológicas que exigem alto grau de especialização. O fato de um jornal precisar produzir em multimídia não significa que o colunista com 40 anos de carreira deva se tornar um hábil cinegrafista. É uma reação errada. Uma empresa jornalística tem assinantes e anunciantes por causa da qualidade do conteúdo produzido por seus profissionais. Veja o que acontece no mundo apenas digital. O Yahoo, por exemplo, vai atrás de nomes de peso para adquirir prestígio. Veja o Thomas Friedman, do New York Times. Ele tem enorme valor no mundo digital, é uma marca global. Atrai público e anunciantes para seminários e outros eventos. O Chicago Tribune, por sua vez, está fazendo cem eventos por ano para promover os talentos de sua redação.

Como Jeff Bezos se distingue de outros bilionários que compraram jornais?

K.D. – Como empresário, ele se distinguiu por um padrão de serviço superior, tem o foco na experiência do consumidor. Tem também a habilidade de olhar para vários tipos de negócio de maneira original, como na compra por um click, na Amazon. Como possível obstáculo, temos um homem que nunca operou uma companhia de mídia. Sabemos que ele adora ler, mas não sabemos quanto tolera de críticas. Veja a reação na redação do Washington Post: primeiro veio o choque; depois a tristeza, “perdemos nossos protetores, a família Graham”; depois a expectativa de que um novo proprietário chegue para salvar a empresa. Jornalistas, de maneira geral, não entendem do negócio do jornalismo. Repare como receberam Sam Zell quando ele comprou as empresas que operavam o Los Angeles Times e o Chicago Tribune. Um ano depois, ele pediu falência. Não tenho dúvida de que, com o amor que tinha pela tradição do Post, Donald Graham ache que vendeu para alguém que vai respeitá-la. Mas, depois do contrato assinado, estamos num buraco negro. Quem sabe o que Bezos vai fazer?

O senhor destaca a competência de Bezos para atender o consumidor. Mas vender uma torradeira com desconto e mandar entregar no mesmo dia não é o mesmo que entregar a cobertura da guerra na Síria.

K.D. – Com certeza. Fazer jornalismo não é agradar às pessoas. Bezos compreende isso num nível intelectual. Mas será que compreende no operacional? Essa distinção é importante: como cobrir notícias relevantes num momento de grande mudança tecnológica e usar essa mudança para ter impacto positivo no conteúdo. Acho possível melhorar a experiência de acessar, arquivar e compartilhar notícias. Espero que ele não se meta em prioridades de cobertura. Se se concentrar na entrega do conteúdo para várias plataformas, e conseguir fazer dinheiro com isso, o Post tem futuro. O problema é que, hoje, a experiência para o consumidor de notícia ainda é pré-iTunes e pré-Netflix. A Netflix é uma delícia de usar. A Amazon também. Nenhum jornal ainda chegou perto.

Nem o New York Times?

K.D. – Não. O Times já fez algumas mudanças, tem o aplicativo Times Reader, que uso em plataformas diferentes, mas não vou dizer que seja uma delícia de usar.

Por falar no Times, ele é o último jornal com vasta audiência ainda nas mãos de uma família. O ‘Times’ conseguirá sobreviver com seu modelo de paywall sem ser vendido?

K.D. – Quando dependia de circulação, o jornal tinha boa receita, com cerca de 1 milhão de leitores. Agora tem 750 mil assinantes e esse número deve parar de crescer. Mas há outro número positivo: 70 mil estão no exterior. Eles não precisam mais de massa, e sim de um núcleo de gente disposta a pagar. No ano que vem, vão lançar vários produtos para públicos específicos e tentar cobrar mais por serviços premium, como notícias de educação que interessam a quem tem filho na escola. Quanto à tentação de vender, ela vai existir. O publisher Arthur Sulzberger tem conseguido manter suas dezenas de parentes acionistas na linha, mas sempre há dissidências familiares. Pode aparecer um grupo e dizer: “Se os Grahams venderam o Washington Post, que perdia dinheiro, por US$ 250 milhões, quanto valerá o Times, que tem audiência global e mais saúde financeira? US$ 1,5 bilhão? E por que não vender agora, antes que as condições se deteriorem?

A Amazon é uma corporação gigante, cujos tentáculos tocam em questões delicadas como monopólio, impostos, condições de trabalho e também privacidade. Ainda que Bezos tenha dito que o ‘Washington Post’ será administrado como empresa separada, ser dono do mais importante jornal da capital não é uma concentração de poder preocupante?

K.D. – Na história americana, os grandes donos de jornais, de maneira geral, evitavam esse choque de interesses, mesmo porque ser dono de jornal era um negócio muito lucrativo. Mas também havia um sentido de honra, de operar um negócio que é fundamental para a democracia. Esse tempo acabou. O pior exemplo que temos hoje é o do San Diego Union Tribune, comprado pelo especulador imobiliário Doug Manchester, que reduziu o jornal a porta-voz de seus interesses. Ok, isso aconteceu em San Diego num jornal regional, mas agora a preocupação aumenta muito com a venda do Washington Post. Bezos pode dizer o que quiser na página de opinião, talvez possa divulgar sua visão libertária, pouco afeita à interferência do governo em editoriais. Mas ele tem que deixar a redação intocada. Por isso insisto na diversidade. Nós últimos anos, cerca de 18 mil jornalistas americanos perderam o emprego principalmente em redações regionais. Mas contei um ganho recente de 8 mil empregos em mídias nacionais, como a Atlantic, que publica a revista do mesmo nome. Espero que os pontos de vista diferentes ganhem impulso nessas mídias digitais.

O fim da edição impressa do Post pode ser apressado com a chegada do Jeff Bezos?

K.D. – Ele não precisa apressar o processo mais do que já acontece naturalmente. Deve usar seu talento de empresário para acompanhar o ritmo dos leitores e dos anunciantes. Todos os jornais estão perdendo assinantes de sete dias por semana porque mesmo os fiéis consumidores de conteúdo dos jornais o estão acessando em plataformas eletrônicas. Temos jornais que oferecem assinaturas de fim de semana ou só de domingo, o melhor dia para a edição impressa. Por enquanto, a circulação impressa ainda é responsável por 40% a 45% da receita do Washington Post. E o paywall (acesso pago) que o jornal instalou recentemente é para segurar esses leitores. O que Bezos, que pensa a longo prazo, pode fazer é imaginar onde quer estar em 2020.

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Lúcia Guimarães é jornalista, em Nova York

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