Sábado, 18 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

ENTRE ASPAS > INTERNET & JORNALISMO

Vaughan Smith

11/10/2005 na edição 350

‘Faz 25 anos que Peter Jouvenal tomou um ônibus na Estação Victoria, no centro de Londres, para ir cobrir a guerra no Afeganistão. Ele não tinha dinheiro para a passagem de volta e precisava vender suas fotos para sobreviver. Naquela época, era possível ganhar a vida como cameraman free lance e Peter e eu fundamos a agência Frontline TV News, com Nicholas della Casa e Rory Peck, para comercializar o resultado de nosso trabalho.

Peter e Rory desapareceriam durante meses no Afeganistão, nas guerras dos mujahedin contra os russos, enviando as fitas pela cordilheira Hindu Kush em lombo de mula. Viajávamos com pouca bagagem e dormíamos precariamente.

Em seu novo livro sobre a agência, o correspondente da BBC David Loyn escreve evocativamente sobre o período em Peshawar, ‘a linha de frente da guerra fria, cheia de dinheiro e armas’. Não havia rede de segurança nem recompensa por fracassos, mas podíamos vender as filmagens por um bom preço a TVs do mundo inteiro.

As coisas mudaram muito desde então. A admissão de Helen Broaden no MediaGuardian (site do jornal The Guardian), semanas atrás, de que as redes de notícias 24 horas podem virar um ‘serviço contínuo de rumor e especulação’ foi uma rara autocrítica num setor que poucas vezes admite um erro.

É muito pior do que a diretora de notícias da BBC diz. À medida que proliferaram as redes de TV noticiosas nos últimos 10 anos, o espaço para diversidade de imagens ou visões ficou muito mais limitado, e um filtro elimina imagens consideradas inaceitáveis. O espectador recebe cada vez mais uma versão pasteurizada do mundo, que não informa tão bem como a mídia alega.

O preço pago por imagens jornalísticas independentes caiu para um quinto do que era no auge do mercado, em 1990, e tais imagens praticamente desapareceram. Enquanto o resto do setor de TV se abria para cineastas independentes, as redes noticiosas ficaram fechadas – exceto o fundo relativamente pequeno para independentes do britânico Channel 4 News. A BBC excluiu a notícia de seus requisitos institucionais para fazer mais programas terceirizados.

E os mercados externos para imagens free lance foram seriamente minados por material publicamente financiado da BBC, vendido muito barato. Quando nosso material aparecia, raramente era atribuído publicamente a nós. Privar o jornalista independente de reconhecimento dificultou que ele pedisse bom preço pelo material. Isso alimentou a ignorância sobre os independentes no mercado e muitas vezes nos viram como oportunistas não confiáveis tentando enriquecer logo, em vez de indivíduos comprometidos prontos a arriscar nossas vidas por nosso jornalismo. Apesar de nosso papel-chave na criação do primeiro curso de segurança para jornalistas, em 1994, éramos vistos como imprudentes por um setor que vinha perdendo o apetite pelo perigo.

Nossa idéia, de que vemos melhor as ameaças quanto mais perto chegamos das pessoas que retratamos, ia contra o viés cultural à medida que as emissoras se distanciavam cada vez mais, usando equipamentos de segurança e guardas.

Algo que nos marcou, particularmente na TV britânica, que com freqüência higieniza a guerra, foi nossa disposição de filmar o mundo como é. Não éramos ‘viciados em guerra’, mas acreditávamos que o único modo de acabar com a guerra para sempre era mostrar como ela realmente é. Loyn dizia que examinar nosso arquivo era como ‘passear pelo lado mais escuro da psique moderna’.

Meus colegas não ficavam indiferentes ao que viam. Numa entrevista em 1993, meses antes de ser morto num fogo cruzado perto da TV Ostankino, em Moscou, Peck disse: ‘O que você perde? Cada vez você perde um pedacinho do coração.

Você vê pessoas sofrendo da maneira mais pavorosa e, sempre que você vê, isso o afeta… Eu costumava atirar em pássaros, cervos e ursos. Já não consigo fazer isso. Não consigo matar animais. Sei que é por ter visto gente sendo morta.’ Usávamos muitos ardis para gravar imagens, como disfarces – por exemplo, de soldado britânico na primeira Guerra do Golfo, e depois usando burkas no Afeganistão. Tivemos nossa dose de exclusivas.

Peter filmou a primeira entrevista à TV de Osama bin Laden, a quem descreveu com ‘um gerente de banco’ por seu aperto de mão frio e úmido. Rory conseguiu o primeiro acesso a Lubianka (sede da KGB) após o colapso da URSS, pelo preço de uma garrafa de uísque. Nick della Casa foi um dos poucos jornalistas que ficou em Bagdá quando a maioria partiu antes dos bombardeios americanos na primeira Guerra do Golfo.

Como tantos atraídos para a bandeira da Frontline, ele era um aventureiro, mas foi assassinado em 1991 com sua mulher, Rosanne, por um guia, quando tentava cruzar as montanhas para entrar no Curdistão.

Sempre valorizamos a integridade: é muito fácil fraudar filmagens de batalhas, filmando pessoas disparando armas que poderiam estar a quilômetros da linha de frente, mas ninguém jamais questionou a veracidade de uma imagem da Frontline. Fomos pioneiros na tecnologia também. A Frontline foi a primeira agência a usar câmeras Hi8 de consumo e, 15 anos depois, no Afeganistão, a primeira a enviar imagens à BBC usando edição em laptop e telefones via satélite leves. A primeira matéria transmitida assim foi a queda de Bamiyan, quando o Taleban foi expulso tarde demais para salvar as estátuas gigantes de Buda.v

Agora, a disponibilidade de equipamentos de alta qualidade a preço baixo desafia de fora as redes noticiosas de TV. No Extremo Oriente, ‘jornalistas cidadãos’ distribuindo material pela internet estão ameaçando tirar as empresas de mídia tradicionais do ramo. Por enquanto, as pessoas que registram gente sendo retirada do metrô após um atentado ficam felizes em ceder as imagens às TVs.

Mas e se os canais tiverem de fazer fila para acessar essas imagens na internet? Tendo desenvolvido a Frontline TV News, agora temos chance de reconstruir a agência, desta vez na internet, como um baluarte da coleta independente de notícias.

Estamos nos esforçando para fornecer uma plataforma para free lancers em países em desenvolvimento que não têm saída para seu material nem chance de construir carreira como jornalistas. E não deixaremos de mostrar o sofrimento da guerra quando isso servir para informar.

Meus colegas pagaram caro pelo compromisso com esses princípios. Oito pessoas intimamente ligadas à Frontline morreram violentamente. Parte como um lugar para recordar os mortos, fornecer um abrigo fora do escritório e fazer festas de que Peck se orgulharia, comprei um edifício abandonado em Londres há três anos e o converti num clube para jornalistas e amigos, The Frontline Club.

Perto do fim de nosso período como agência, quando já era quase impossível vender matérias que tínhamos feito sozinhos, trabalhamos como equipes para emissoras estabelecidas. Trabalhei com Loyn nos Bálcãs, Iraque e Afeganistão, entre outros lugares, e Jouvenal foi sempre a primeira escolha do editor de assuntos mundiais da BBC, John Simpson, quando ele foi para o Afeganistão.

Quando Simpson entrou em Cabul após a queda do Taleban, Jouvenal fez as imagens, uma geração depois que pôs os pés pela primeira vez ali como free lancer, trabalhando com jovens guerreiros mujahedin com quem fizera amizade no início dos anos 80 e que agora comandavam batalhões. No livro de Loyn, Simpson é citado reconhecendo que ter chegado tão longe foi ‘uma conquista exclusiva de Peter’.

(Tradução de Celso M. Paciornik ´Frontline: The True Story of the British Mavericks who Changed the Face of War Reporting´, de David Loyn, foi publicado na Grã-Bretanha por Michael Joseph. O site da agência é www.frontlinetv.net)’



Mario Lima Cavalcanti

‘O shovelware reverso’, copyright Comunique-se (www.comuniquese.com.br), 4/10/05

‘Antes, cabe aqui dizer que por shovelware entende-se (em uma de suas definições) a transposição de notícias, com ou sem adaptação, do meio tradicional para a Web, ou para o meio online em geral. Um shovelware reverso seria, obviamente e, portanto, o oposto da situação: conteúdo online sendo transportado para um formato tradicional. E é nisso que o MyMissourian, site experimental de jornalismo participativo criado na cidade de Columbia, em Missouri, nos Estados Unidos, vem apostando ao decidir lançar uma edição semanal impressa de seu conteúdo.

Idealizado pelo jornalista Clyde Bentley, professor da Escola de Jornalismo de Missouri, o MyMissourian, como qualquer site de jornalismo participativo, permite a participação da população no processo de produção do conteúdo informativo. Nesse caso, editores estudantes da mesma escola ficam encarregados de auxiliar os colaboradores. Segundo informações do weblog E-Media Tidbits, o site completou seu primeiro ano de vida no último dia 01/10 e, para comemorar o aniversário, a equipe decidiu lançar uma edição semanal impressa com conteúdo produzido pelos jornalistas-cidadãos do site.

O shovelware reverso comentado acima se torna mais interessante na medida em que existe um corpo de profissionais de comunicação trabalhando em conjunto e, principalmente, cuidando do conteúdo. A edição impressa será enviada gratuitamente para os moradores de Columbia (de acordo com o MyMissourian, isto significa mais de 23 mil residências). Ainda segundo o site, apenas a capa do jornal vai carregar ‘conteúdo cidadão’ (pelo menos destaque é o que não vai faltar), porém a idéia é alimentar a edição impressa integralmente com conteúdo enviado. Além da própria proposta de shovelware reverso, Bentley ainda aproveita uma boa (e barata) forma de marketing pra divulgar o site e o conceito de jornalismo open source.

É sempre bom comentar apostas como essa, pois a idéia é também (ainda mais em tempos de consolidação do formato weblog, de facilidade de criação de publicações e de popularização do jornalismo de colaboração participativa) divulgar experimentos de cross media e/ou de escolas de jornalismo para que talvez algum profissional queira aprofundar-se no modelo ou tentar fazer algo semelhante por aqui.

Em tempo, nos links abaixo você pode ler alguns artigos da coluna sobre outros projetos cross media:

Recheando o conteúdo com o Google Maps – Agosto/2005

Futuros dispositivos de apresentação de notícia – Outubro/2004

Mobiliário urbano interativo – Julho/2004

CeBIT e o Lifeblog da Nokia – Março/2004

Do offline para o online (e vice-versa) – Outubro/2003

The Month: uma seção em CD-Rom – Setembro/2003′



The Guardian

‘Em seus blogs, jovens aproveitam o direito de selecionar e editar conteúdo’, copyright The Guardian / O Estado de S. Paulo, 9/10/05

‘Pesquisa realizada no Reino Unido, encomendada pelo jornal britânico The Guardian, mostrou que um terço dos jovens de 14 a 21 anos do país com acesso à internet já criaram seu próprio blog ou site, em mais uma extensão da revolução das publicações pessoais.

Para a geração que cresceu com a comunicação online e os telefones celulares, a internet tornou-se o modelo básico de comunicação e a imprensa tradicional, com sua informação de mão-única, não é mais suficiente. Nos blogs e sites pessoais, que podem ser criados sem ajuda de especialistas, eles têm a liberdade de selecionar e editar o conteúdo publicado.

Além disso, a pesquisa revelou que esses jovens passam cerca de oito horas semanais na internet, e que isso está longe de ser uma atividade solitária. Enquanto seus pais acessam sites para buscar informações, ler jornais ou fazer compras, a maioria dos jovens britânicos entra na internet para falar com seus amigos.

Cerca de metade desse tempo passam conversando por meio de comunicadores instantâneos, salas de bate-papo ou e-mails. Desse modo, a internet pode ser uma janela para o próprio mundo deles, mas não se constitui em uma porta para eles se informarem sobre o mundo: só um entre dez entrevistados responderam que acessam a rede em busca de notícias.

De acordo com a pesquisa, entre os 14 e 21 anos, os jovens que estão online baixam uma média de 34 músicas por mês e compram cerca de dois CDs – processo facilitado pela expansão do acesso por banda larga, que torna mais rápida a troca de arquivos.

Dados oficiais do país estimam que cerca de 8 milhões de adolescentes britânicos estão conectados à internet. Seis entre dez o fazem de casa – um quarto deles com computador dentro do quarto.

Uma realidade que está provocando modificações no mercado publicitário. Previsões da Jupiter Request para 2010 estimam que os anúncios na internet chegarão a US$ 18,9 bilhões. A pesquisa, no entanto, traz dados mais confortáveis para quem trabalha com notícias. Seis entre dez jovens entrevistados disseram ‘gostar de se manter atualizados’. Na faixa etária de 20 e 21 anos, a média sobe para sete em cada dez. Contrariando a idéia comum de que jovens usam a internet para buscar informação, a televisão e os jornais continuam sendo, de longe, o meio mais popular entre eles quando se trata de notícias.’



TELECOMUNICAÇÕES
Ethevaldo Siqueira

‘Américas Telecom, um vexame para o País’, copyright O Estado de S. Paulo, 9/10/05

‘O evento Américas Telecom 2005 foi decepcionante. Diferentemente de suas três versões anteriores no Brasil – em 1988, 1996 e 2000 – esta edição realizada na Bahia, na semana passada, mostrou o desprestígio e a pouca importância que o governo Lula confere às Comunicações. O Brasil não tinha sequer um estande na exposição. O ministro das Comunicações, Hélio Costa, só participou da solenidade de abertura na noite de segunda-feira e retornou às pressas a Brasília. O secretário-geral Yoshio Utsumi, da União Internacional das Telecomunicações (UIT), entidade promotora do evento, não compareceu. Os organizadores previam no mínimo 12 mil visitantes. Só vieram 2.100 – aí incluídos 26 ministros, 85 palestrantes, 67 jornalistas, organizadores, expositores e visitantes de 34 países, segundo dados oficiais.

É claro que o Américas Telecom 2005 foi mal planejado, a começar da escolha de sua data, a menos de três semanas do Futurecom, o mais prestigioso evento setorial do País. Nessas condições, mesmo numa cidade com inegáveis encantos turísticos e culturais como Salvador, a reunião internacional não poderia ter sucesso.

Quem fez todo esforço para reduzir os efeitos negativos da omissão oficial brasileira foi o vice-secretário da UIT, Roberto Blois, candidato brasileiro ao cargo de secretário-geral nas próximas eleições da entidade, em 2006. Embora sem apoio do governo brasileiro, Blois tem boas chances de ser eleito. O Itamaraty talvez ainda acorde em tempo e venha a apoiá-lo, acreditando nas possibilidades do trabalho desse especialista para as telecomunicações do Brasil e dos países emergentes.

O EVENTO

Confesso que poucas vezes assisti a um evento internacional tão chato quanto este Américas Telecom 2005. A pouca criatividade de seus organizadores começou na escolha do subtítulo geral do evento – moving to a latin beat -, que alguns, bem-humorados, traduziam, por ‘gingando na batida do samba’. Para marcar ainda mais o estilo folclórico e sociológico, toda a cerimônia de abertura, na noite de segunda-feira, foi acompanhada, em fundo musical, por sambas populares nas vozes de cantores e compositores baianos – como Gal Costa, João Gilberto e Caetano Veloso – condimentados por requebros e piadinhas da apresentadora.

Para finalizar a cerimônia, o ministro das Comunicações, Hélio Costa, quis arrancar aplausos do auditório com três projetos de pouco interesse para um evento internacional. O primeiro: sua guerra contra a assinatura básica, agora sob o codinome de ‘telefone social’. O segundo foi proclamar que ‘o Brasil já vive a realidade do rádio digital’ – a partir da experiência iniciada há duas semanas, mesmo sem receptores no mercado e sem definição de padrão tecnológico. Por último, retomou a promessa de seu antecessor, Miro Teixeira, de que ‘iremos assistir à Copa do Mundo de 2006 pela TV digital’.

O ponto mais preocupante da fala de Hélio Costa foi, para alguns delegados estrangeiros, a ênfase dada à redução das receitas contratuais das operadoras, propondo a eliminação da assinatura básica ou o eufemismo do telefone social. Para um dos especialistas da UIT, ‘se continuar nessa linha, o Brasil vai acabar assustando investidores e passando a impressão de que não respeita as regras dos contratos’.

Na abertura do fórum, na terça-feira, uma dupla decepção. O programa oficial previa uma apresentação do ministro Hélio Costa, como keynote speaker, e outra do secretário-geral da UIT, Yoshio Utsumi. Ambos ausentes. Mais uma vez, o brasileiro Roberto Blois, subsecretário da UIT, tentou salvar a imagem do país-anfitrião e da entidade internacional.

Quanto ao conteúdo, o fórum não foi mau, mas ficou muito aquém da expectativa geral, principalmente dos participantes que esperavam apresentações de alto nível, estudos sérios e profundos sobre os grandes temas previstos no programa do fórum – como mobilidade, voz sobre IP, banda larga para todos, governança mundial da internet ou o desafio regulatório das novas tecnologias.

Os problemas do Américas Telecom 2005 não terminaram no fórum. Ainda houve mais desapontamento em sua exposição. Embora contando com a adesão de mais de 50 empresas, a exposição ficou às moscas. Na maioria do tempo, havia mais recepcionistas que visitantes.

A ENTIDADE

Fundada por representantes de 20 países, em Paris, no dia 17 de maio de 1865, antes da invenção do telefone, com o nome de União Telegráfica Internacional, a UIT é hoje a agência das Nações Unidas para esse setor. Ao longo de 140 anos, a entidade tem tido papel relevante na condução de acordos internacionais para a fixação de padrões técnicos, planejamento e administração das freqüências do espectro radioelétrico.

No passado, quando a maioria dos países-membros adotava o modelo dos monopólios estatais, a entidade tinha maior prestígio internacional e apoio dos governos. Seus eventos mundiais atingiram o auge do sucesso na Telecom World 1999, realizada em Genebra. Com o fim da bolha digital, o evento mundial seguinte, a Telecom World 2003, encolheu e reduziu suas dimensões à metade.

O próximo Telecom World será em Hong Kong, na China, de 4 a 8 de dezembro de 2006. O Américas Telecom talvez nunca mais.’

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