Quarta-feira, 22 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

ENTRE ASPAS > FIM DE SEMANA, 22 E 23/09

Veja

25/09/2007 na edição 452

MAINARDI vs. LULA
Diogo Mainardi

Diogo, o traíra

‘Dei uma sanfona a meu filho de 6 anos. Agora ele está determinado a tocá-la na rua, pedindo esmola aos passantes. Creio que seja efeito do lulismo. Até a classe média já pensa em mendigar.

A sanfona foi comprada no Rio Grande do Sul. Na última segunda-feira, participei de uma palestra sobre o papel da imprensa, na PUC de Porto Alegre. Fiz a pantomima de sempre: ofendi Lula e meia dúzia de jornalistas adesistas. A certa altura, uns manifestantes me interromperam com o brado:

– Diogo, traíra da América Latina!

A única coisa a fazer na América Latina é emigrar. Quem declarou isso foi Simon Bolívar, alguns dias antes de morrer de tuberculose. Claro que concordo. Já emigrei no passado. Emigrarei muitas outras vezes no futuro. Eu sou um legítimo bolivariano. Só tenho de dar um jeito de morrer de tuberculose. No mesmo documento, Simon Bolívar declarou também que os países do continente seriam dominados por tiranos rasteiros e por massas desenfreadas.

– Bolívar, traíra da América Latina!

A propósito de tiranos rasteiros, Hugo Chávez, que alega inspirar-se em Simon Bolívar, mandou refazer todos os livros de história de seu país, a fim de preparar os alunos venezuelanos para o socialismo moreno, ou seja lá como se chama o que ele propõe. Lula está bem mais adiantado do que Hugo Chávez. Como mostrou Ali Kamel, em O Globo, nossos estudantes aprendem desde cedo a glorificar Mao Tsé-tung, Fidel Castro, o MST, o comunismo soviético e Ziraldo.

Falsificar a história é uma prática corriqueira entre nós. Quando passei por Porto Alegre, um bando de gaúchos estava acampado à beira do Guaíba, bebendo mate e tocando sanfona, em homenagem ao aniversário da Guerra dos Farrapos. No Correio do Povo, Juremir Machado da Silva definiu a Farroupilha como sendo ‘a guerra civil que perdemos, assinamos um acordo de empate e comemoramos como se tivéssemos vencido’.

Uma das figuras mais características da Guerra dos Farrapos é o maestro Mendanha. Ele era o regente da fanfarra imperial. Depois de ser capturado pelas tropas farroupilhas, aceitou musicar o hino do inimigo. O maestro Mendanha é o paradigma do artista nacional: rendido, medroso e traidor. Para compor o hino rio-grandense, ele roubou a melodia de uma valsa de Strauss. Portanto: rendido, medroso, traidor e plagiário.

Gilberto Gil é o maestro Mendanha do lulismo. Assim como o maestro Mendanha pirateou a valsa de Strauss, Gilberto Gil defendeu normas mais elásticas para a pirataria na internet. Uma pesquisa recente do Instituto Ipsos indicou Gilberto Gil como o ministro mais popular de Lula. Isso aconteceu depois de o Ministério da Cultura ficar paralisado por mais de quatro meses, por causa da greve de seus funcionários. Museus, bibliotecas, teatros e cinematecas permaneceram fechados. Se é assim que funciona, é melhor fechá-los de vez. Economizaremos um baita dinheiro. E ninguém sentirá falta deles. Os lobistas da cultura sempre repetem que o estado precisa financiar arte, literatura, cinema. Precisa nada. Passamos perfeitamente bem sem isso tudo. Se os artistas quiserem, podem tocar sanfona na rua e arrecadar umas moedinhas.’

TELEVISÃO
Marcelo Marthe

O enigma do domingo

‘Com 34 anos recém-completados, o Fantástico vive um momento paradoxal. Nos últimos tempos, a atração das noites de domingo da Globo provou que é possível falar de assuntos complexos na TV de forma interessante e acessível ao grande público. Se um dia já foi o paraíso dos videoclipes, dos mágicos e da parapsicologia (para não falar em algo como o ‘menino da bolha’, nos anos 70), seu carro-chefe hoje é um quadro como O Valor do Amanhã, em que o economista e filósofo Eduardo Giannetti discorre sobre os juros. A atriz Regina Casé acaba de estrear uma série que enfoca a periferia de metrópoles estrangeiras. E também entrou no ar o quadro É Muita História, no qual o jornalista Eduardo Bueno desconstrói mitos históricos. Ao mesmo tempo em que foge ao óbvio, porém, o Fantástico enfrenta problemas no ibope. Desde abril, quando iniciou um processo de renovação do visual e do conteúdo, sua curva de audiência é descendente. No último domingo, obteve apenas 23 pontos de média na Grande São Paulo – uma das menores que já registrou. Por catorze minutos, foi superado pelo SBT, que exibia o Domingo Legal, de Gugu Liberato. A turma do Pânico, da RedeTV!, também lhe roubou pontos. Não é nada que se compare à crise de 2002, quando Silvio Santos infligiu derrotas sucessivas à Globo com seu Casa dos Artistas. Ainda assim, acendeu-se a luz vermelha. ‘Dizer que estamos tranqüilos seria inverdade. Mas o Fantástico permanece líder’, afirma Ali Kamel, diretor executivo do jornalismo da Globo.

A emissora acredita que a queda na audiência se deve em boa medida a fatores conjunturais. Leva algum tempo, raciocina-se, para os espectadores se habituarem às reciclagens sofridas pelo programa. E aí se abrem flancos para a concorrência. Na semana passada, o SBT se aproveitou da fragilidade para estender a duração do programa de Gugu, que exibiu um quadro assistencialista e outro em que se premia quem descobre uma nota de 2 reais perdida. Mas apenas isso não explica os números. Tanto que, em breve, a Globo deverá fazer uma pesquisa qualitativa para avaliar o programa. É fato que o Fantástico perdeu força junto aos jovens das classes A e B. Uma parcela deles está preferindo sintonizar o Pânico – que rouba pontos do programa com tiradas em cima das estrelas da Globo.

O Fantástico enfrenta ainda uma guerra em outro front. O Domingo Espetacular, da Record, é um clone que vai ao ar mais cedo e tem buscado minar as reportagens do concorrente. Na época do acidente da TAM, a Globo preparou uma matéria sobre um sobrevivente do impacto do avião no prédio da companhia. A Record se antecipou e também exibiu uma entrevista com o pai da vítima. A partir deste domingo, a Record espera fustigar o Fantástico com mais uma arma: a série americana Heroes, que irá ao ar em seu horário.

Para tentar reverter o momento ruim, o Fantástico tem testado uma ordem diferente para suas atrações a cada domingo. A boa notícia é que a aposta em temas mais elevados não está diretamente relacionada à queda no ibope. ‘O público vê nesses quadros uma forma divertida de ganhar cultura’, diz Ali Kamel. Mesmo discutindo conceitos abstratos, O Valor do Amanhã tem garantido os picos de audiência do Fantástico. A abordagem da história também não decepcionou. Investiu-se nas séries ‘cabeça’ depois do sucesso alcançado pelo quadro sobre filosofia apresentado por Viviane Mosé. Uma nova fornada dele deve chegar ao programa em breve. Assim como um quadro sobre mitologia.

O show em três tempos

A ERA DAS PÍLULAS CULTURAIS

Ao colocar em pauta a filosofia, em 2005, o programa inaugurou o filão dos quadros que abordam temas do conhecimento de maneira simples. Hoje, há uma série sobre juros e outra sobre a história do Brasil

A ERA DAS GRANDES REPORTAGENS

O jornalismo ganhou espaço com o crescimento das equipes da Globo no exterior, nos anos 80. Na década de 90 e na atual, relatos de viagens e matérias investigativas deram o tom

A ERA DOS CLIPES MUSICAIS

Nos anos 70 e em boa parte dos 80, esse tipo de entretenimento era o forte. Havia shows em estúdio e produções da pré-história do videoclipe’

***

Paraíso gestual

‘A uma semana do final da novela Paraíso Tropical, já se pode afirmar: no duelo entre mocinho e vilão, o deletério Olavo (Wagner Moura) foi quem roubou a cena. Mas Daniel, o executivo mauricinho vivido por Fábio Assunção, deixará sua marca: ele é um dos personagens mais cheios de tiques que já se viram nos folhetins da Globo. Daniel vive em alerta contra as armações do rival. Só não precisava exagerar. É o jeito destrambelhado como mexe os braços e os ombros quando desafia Olavo. Ou ainda as mãos agitadas que exibe nas discussões com o chefe, Antenor (Tony Ramos) – numa cena, ele chegou a dar pancadas numa mesa que ecoaram pelo estúdio. O rapaz não relaxa nem quando está no aconchego de casa, como demonstra o jeito tenso de enfiar as mãos no bolso. Isso para não falar naquele bico travado – fato que não escapou aos humoristas do Casseta & Planeta em sua versão satírica, o ‘Fábio Assungão’. Gestos expansivos são usados pelos atores para realçar a dramaticidade de uma cena. Na tela pequena da TV, contudo, as atuações em geral são mais contidas. Profissionais experientes dão conta do recado não raro apenas com os olhos ou a modulação da voz. Outros – como Assunção em Paraíso Tropical – baseiam suas interpretações num repertório de expressões condizentes com seus personagens. O ritmo industrial das gravações e a insegurança podem levar à exacerbação dessa fórmula. ‘Quando está sob pressão, a defesa do ator muitas vezes é se agarrar a maneirismos’, diz a preparadora de elenco Sonaira D’Ávila.

A psicologia também tem algo a dizer sobre o gestual de Daniel. Se fosse um executivo de verdade, seus piripaques pegariam mal. ‘Aqueles trejeitos passam uma impressão de descontrole emocional e despreparo. Seria difícil um sujeito assim conseguir emprego’, diz o especialista em retórica Reinaldo Polito. À luz da terapia reichiana, podem-se tirar conclusões ainda mais espantosas sobre Daniel. ‘É possível compreender certos traços da personalidade de uma pessoa por meio de seu gestual’, diz o psicoterapeuta Claudio Mello Wagner. Tome-se o bico de Daniel. Essa ‘expressão de mania’, como se diz no jargão da área, pode ser sinal de que na infância a pessoa sofreu um trauma por ter sua amamentação cortada bruscamente. O que costuma resultar em adultos eternamente insatisfeitos e ansiosos. Tecnicamente (com perdão do pedantismo), Daniel é o que se classifica como um sujeito fixado na fase oral. Coisa que se encontra nas melhores novelas.’

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Clique nos links abaixo para acessar os textos do final de semana selecionados para a seção Entre Aspas.

Folha de S. Paulo – 1

Folha de S. Paulo – 2

O Estado de S. Paulo – 1

O Estado de S. Paulo – 2

Terra Magazine

Veja

Agência Carta Maior

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