Sexta-feira, 24 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

IMPRENSA EM QUESTãO > PT E O OURO DE HAVANA

Veja decidiu apostar no desatino

Por Alberto Dines em 31/10/2005 na edição 273

Desta vez, atenderam às exigências formais e os cuidados mínimos da cartilha jornalística. A denúncia sobre o envio de 3 milhões de dólares de Cuba para a campanha presidencial do PT (Veja, nº 1929, de 2/11/500, págs. 46-53; na capa, ‘Os dólares de Cuba para a campanha de Lula’ e no título do texto principal, ‘Campanha de Lula recebeu dinheiro de Cuba’) procurou evitar os erros das ‘bombas’ anteriores: não opinou nem panfletou, não escondeu as fontes, gravou suas entrevistas abertamente, indicou onde e como se realizaram, completou-as com informações suplementares e ainda fez reparos às contradições embutidas na própria reportagem. Até aí tudo bem.


O que há de errado com a nova matéria arrasa-quarteirão de Veja?


O resto: a denúncia pressupõe um gigantesco, incomensurável, grau de estupidez nas duas pontas da operação: o governo cubano e a direção do PT. Difícil acreditar que políticos experientes aqui e no Caribe tenham embarcado numa aventura tão primária.


Nenhum político minimamente responsável arriscaria o futuro do seu partido com uma operação tão perigosa e insensata. Nem mesmo Roberto Jefferson ou Waldemar da Costa Neto.


Fidel Castro já cometeu erros crassos, a direção do PT já cometeu erros imperdoáveis, mas é impensável que juntos tenham planejado tamanho disparate e tão grande desatino. Há limites para a estultice. É isto que torna inacreditável a denúncia de Veja.


Tiro no escuro


Esta inverossimilhança nuclear estancou o curso da velha bola de neve. Houve um certo frisson na mídia eletrônica no sábado [29/10] à noite e no domingo. O Estado de S.Paulo foi o único a animar-se com a perspectiva de barulho e lascou uma manchete de primeira página no domingo com o material de Veja. O Globo estava entusiasmado com a façanha da polícia fluminense ao liquidar o facínora Bem-Te-Vi e a Folha, empolgada com os programas sociais do governo federal. Não deram muita bola.


Não houve munição para um berreiro petista contra a ‘conspiração da mídia’ nem para repetir os chavões de Hugo Chávez contra a ‘mídia reacionária’. Veja ficará na liça apanhando sozinha até o próximo sábado ou, na melhor das hipóteses, até sexta à tarde, quando as principais redações já conhecerão o conteúdo da próxima edição. Se no sábado não aparecer algo pelo menos consistente para oferecer como prova, a revista corre o risco de ficar pendurada na brocha.


Aqui reside a segunda falha deste tipo de ‘reportagem-suicida’ – quem detona o petardo muitas vezes vai para o ar sozinho. A matéria foi construída em torno de declarações de pessoas (Rogério Buratti e Vladimir Poleto) às voltas com a Justiça, ex-auxiliares do ex-prefeito de Ribeirão Preto Antonio Palocci, na ocasião o coordenador da campanha de Lula. A figura-chave de ambos os depoimentos é Ralf Barquete, já falecido.


Se Veja não produzir nenhum trunfo no próximo fim de semana, o prosseguimento da denúncia deverá dar-se no âmbito de uma das CPIs, provavelmente a dos Bingos. Significa que, apesar das cautelas, Veja deu um tiro no escuro. Confiou na temperatura política, certo de que ela seria capaz de comandar os desdobramentos. Entregou-se ao imponderável. Nesses casos, o jornalismo sai de cena e entra o esoterismo.


 


Recordar é viver


Pauteiros, estudantes de História e jornalistas curiosos podem encontrar no ‘Segundo Caderno’ do Globo, na seção ‘Há 50 anos’ (pág.7), uma excelente ferramenta para referências históricas.


No dia 12 de outubro de 1955, O Globo noticiava: ‘Jânio confirma que Juscelino pagou oito milhões pelo apoio comunista’.


Em 26/10/1955: ‘Exaltado pela imprensa russa o apoio dos comunistas a Juscelino e Jango!’.


Em 28/10/1955, título forte: ‘Transformado o Maranhão em paraíso da fraude eleitoral’.


E em 29/11/1955, a manchetinha fornecida por Octávio Mangabeira, expoente da UDN: ‘Não pode ser solucionada, a crise, dentro do curso normal das coisas’.


Naquele ano, agosto não foi o mês dos traumas. Foi novembro. (A.D.)

Todos os comentários

  1. Comentou em 07/11/2005 Eduardo Guimarães

    Sinceramente, lendo a manifestação do advogado Emil Reginaldo Geiss (‘Mundo de maluquices’) começo a pensar que talvez seja necessário desenhar uma explicação para essas pessoas que têm criticado o artigo de Alberto Dines porque crêem que ele está se opondo à Veja ter publicado a reportagem sobre as ‘acusações’ de Rogério Buratti e Wladimir Poleto de que o PT teria recebido 1,4 ou 3 milhões de dólares (os dois divergem quanto ao valor)de Cuba. Dines não critica a publicação da ‘denúncia’ e sim a Veja ter afirmado, no título da matéria, que o ilícito ocorreu em lugar de apresentar a denúncia sem provas exatamente como o que ela é, uma denúncia sem provas. Eta turma difícil de entender as coisas!

  2. Comentou em 06/11/2005 Fausto José de Macedo

    Francamente, antes de ler seu comentário estava pensando em rasgar minha carteirinha de jornalista, mudar de profissão, desistir, cometer o mesmo ato suicida da veja e da oposição. Obrigado senhor Dines por ter resgatado a auto-estima na minha profissão. Sim ela não é composta totalmente de idiotas e aderentes às modinhas que eles mesmos fazem. Minha filha é jornalista e muito melhor que eu e o Fausto Macedo Chagas que usa o nome do meu pai no Estadão dando de verdadeiro. É certo que meu pai foi um gênio de rádio e eu sou apenas um jornalista desempregado que anda de auto estima baixa por causa dos néscios que fazem da profissão um balcão. Viva você Dines e viva o lado mais vital e inteligente do judaismo: a religião mais laica e inteligente do mundo!Jave vive, Shalom!

  3. Comentou em 04/11/2005 Cristiano Angelis

    Penso que a atual situação política nacional deve-se ao fato de que a direita brasileira, hoje partidos de oposição, ainda não aceitaram a vitória da esquerda nas eleições de 02. Alie-se ao fato, a constatação de sucesso do atual governo frente aos 8 anos de fracasso do antecessor. Por isso, a qualquer custo tentam tomar de volta o poder. Mas a sociedade brasileira, graças a contribuição da imprensa, pelas barbaridades por eles produzidas, já está vacinada contra os desvarios apresentados. Cada vez mais me convenço que a direita brasileira está ultrapassada, suas idéias são retrógradas, conservadoras e objetivam a hegemonia de poucos. Aconselho que mudem o ponto de vista e participem em conjunto com o governo, em prol da sociedade, caso contrário, a derrota nas próximas eleições será ainda maior. Quanto a imprensa, apenas um comentário é suficiente. No Jornal Nacional, o quadro de maior sucesso são as charges, no Jornal da Globo, destaca-se um cineasta lunático adepto das porno-chanchadas. Os apresentadores sérios, como o deste programa, infelizmente não tem o espaço merecido. Se o objetivo é cômico, estão obtendo êxito, pois cada vez mais me divirto com o jornalismo atual.

  4. Comentou em 01/11/2005 Wagner Orti

    Finalmente algúem diz algo coerente. Já estou cansado de materias ‘bombasticas’ irreponsáveis. Não quero acreditar no ‘ataque imperalista contra o governo popular’ mas se não for isso é uma maneira suja de vender revistas.

  5. Comentou em 01/11/2005 Lucinei Lucena

    Admiro muito O trabalho Do Jornalista Alberto Dinnes e o Observatório da Imprensa. Contudo, julgo oportuno um único reparo em relação ao que foi dito acerca da reportagem da revista veja (independentemente de ser verdadeira – o que, até agora, não parece ser – ou não): não foi o esoterismo que substituiu o jornalismo, mas a política (ou politicagem eleitoreira), e há muito tempo.

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