Segunda-feira, 19 de Novembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1013
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Virou rotina

Por Mauro Malin em 09/10/2013 na edição 767

Virou rotina a colaboração da mídia jornalística com as polícias militares (leia-se governos estaduais), black blocs e provocadores infiltrados pelas autoridades. Finalidade: esvaziar e/ou manipular passeatas no Rio e em São Paulo.

A demonstração está nas imagens abaixo. Os jornais valorizam a violência de centenas, não a manifestação pacífica de milhares. E, sobretudo, não perguntam por que as polícias militares ou agem violentamente contra manifestantes pacíficos, ou, alternativamente, observam passivamente os agentes da violência até que eles cheguem a extremos.

Começou em São Paulo

Esse padrão foi observado pela PM de São Paulo nas manifestações de junho. No dia 13 de junho houve uma tentativa de esvaziar mediante o uso de violência extrema todo o processo iniciado pelo Movimento Passe Livre. Foi o dia em que uma repórter da TV Folha e um fotógrafo autônomo foram atingidos nos olhos por balas de borracha. Como se disse aqui, tratou-se de ato destinado a sufocar os protestos (“Gás de provocação”).

Depois, as autoridades mudaram de tática. Aparentemente, os comandantes teriam ficado preocupados com a má repercussão da pancadaria e passado a determinar que os policiais assistissem passivamente até mesmo às ações de manifestantes que empregam a violência como arma. Na verdade, deixaram sistematicamente que a situação chegasse a um ponto em que se justificasse o emprego da força (não a ponto de deixar mortos e feridos graves, até aqui).

Contra os professores

Nas recentes manifestações de professores no Rio de Janeiro, a sequência foi idêntica. Na terça-feira (1/10), a PM fluminense partiu para a ignorância, como se dizia antigamente. A constatação é do secretário de Segurança do Rio, José Mariano Beltrame: “Houve, sim, preliminarmente, excesso dos policiais, mas esse excesso veio também, por vezes, dos dois lados” (noticiário da Agência Brasil, 5/10).

O presidente da Comissão de Direitos Humanos do Conselho Federal da OAB, Wadih Damous, declarou: “O que vemos no Rio é uma política de extermínio de manifestantes, pondo em risco a vida das pessoas com o uso indiscriminado de balas de borracha e sprays de pimenta” (Agência Estado, 7/10).  Essa retórica fora de propósito não ajuda a entender as coisas. Damous deve ter se expressado mal, ou não sabe o significado da palavra “extermínio”. Em todo caso, constata-se que a violência policial causou comoção.

Na segunda-feira seguinte (7/10), a PM-RJ passou à segunda modalidade. Deixar acontecer e depois dar combate. Nem o Globo, cujo noticiário segue um padrão de calhordice cada vez mais esmerado, deixou de notar que “a PM reduziu o número de policiais mandados ao local e, desta vez, demorou para reprimir a ação dos mascarados”.

A quem interessa?

Quem chegou mais perto de fazer a pergunta correta (mas não de tentar respondê-la) foi o Dia. Em box no alto da página 5 (“Sepe condena vandalismo no protesto”), reproduz declaração do Sindicato Estadual dos Profissionais da Educação do Rio de Janeiro segundo a qual “agentes infiltrados na manifestação iniciaram o vandalismo com a intenção de esvaziar as próximas passeatas”. Um diretor do Sepe, Jalmir Ribeiro, foi mais explícito. Segundo ele, pode ter havido “PMs infiltrados entre os professores e sindicalistas”.

Nenhum dos jornais faz a pergunta óbvia: por que a PM usa esse duplo padrão, do qual no final das contas resulta a mesma coisa, a pressão para esvaziar os protestos? A resposta, que acabará aparecendo em declaração de alguma personalidade política mais independente, é: a PM funciona a serviço da tentativa de evitar prejuízo político e tirar o maior proveito possível para o grupo do governador Sérgio Cabral Filho no xadrez eleitoral de 2014.

E por que a pergunta não é feita? Porque esses veículos são, em grau maior ou menor, aliados políticos de Cabral e do prefeito Eduardo Paes. Aventar as razões dessa aliança ultrapassa os limites deste tópico.

Show de pirotecnia

Eis as imagens das primeiras páginas de terça-feira (8/10). Da manchete do Extra foi copiado o título deste tópico. A imagem da esquerda é do jornal O Estado de S. Paulo. Só o título das fotos está acima da dobra. Foi o único jornal que deu a foto do mascarado em cima de um carro tombado da polícia.

A mídia Ninja também deu, comprazendo-se. Mas seus ativistas não pretendem ter compromisso com a defesa da democracia, tal como entendida pelos constituintes de 1988, que representavam os cidadãos votantes de 1986. Se o carro da democracia capotar, a tarefa do ninja de plantão será fotografar a derrocada. Antes de ser preso e…

O Dia destinou a capa inteira às fotos assustadoras.

É uma disputa de sensacionalismo, dentro de uma diretiva de solidariedade política aos governos. Essa mídia jornalística está brincando com fogo. A evolução possível deste cenário, com a imprensa curvada diante da estratégia das polícias militares (de seus chefes políticos), aponta na direção de potenciais prejuízos para as liberdades democráticas. Não falta quem esteja à espera de um momento propício à aceitação popular de restrições ao direito de manifestação. Para dizer o mínimo.

 

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