Quarta-feira, 12 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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Vogue cria polêmica ao unir pobreza e luxo

02/09/2008 na edição 501

A versão indiana da Vogue resolveu inovar – leia-se: polemizar. Em um editorial de moda publicado na edição de agosto, produtos de alto luxo são apresentados não por modelos famosas ou pela abastada classe alta do país, mas por indianos pobres. Em uma das fotografias, uma família de três se espreme em uma motocicleta; a mãe, sem capacete, aparece segurando uma bolsa Birkin, da grife Hermès. Preço: mais de 10 mil dólares nas melhores casas do ramo. Em outra imagem, um homem sem dentes e descalço tem nas mãos um guarda-chuva da marca Burberry, que custa cerca de 200 dólares.

As imagens causam, no mínimo, estranheza. Metade da população da Índia, cerca de 456 milhões de pessoas, vive com menos de 2 reais por dia, de acordo com dados do Banco Mundial divulgados na semana passada. Ao mesmo tempo, a classe alta do país cresce aceleradamente, o que o torna especialmente atrativo para a venda de bens de luxo. A contradição entre riqueza e pobreza gera um dilema para os fabricantes destes produtos. Qual o melhor jeito de se anunciar uma roupa ou um acessório de 1.000 dólares em um país onde tantas pessoas passam fome?

Com fome, mas ‘na moda’

A resposta de Vogue, com o editorial, corre o risco de parecer frívola. A explicação da editora Priya Tanna, em entrevista ao New York Times, pode aumentar esta impressão. Segundo ela, a Vogue quer mostrar ‘o poder da moda’, e a sessão de fotos que junta pessoas pobres a acessórios de luxo é um jeito de dizer que ‘a moda não é mais um privilégio do homem rico. Qualquer um pode usá-la e ficar bonito’. Será? Priya continua. ‘Você tem que lembrar que, com moda, não se pode levar tão a sério. Não estamos tentando fazer uma declaração política ou salvar o mundo’.

Para Kanika Gahlaut, colunista do jornal Mail Today em Nova Délhi, o editorial da Vogue não é apenas cafona, mas ‘um exemplo de vulgaridade’. Não há nada de ‘divertido ou engraçado’, diz ela, em colocar uma pessoa pobre, em um chão de lama, usando uma roupa de grife. ‘Pelo amor de Deus, há fazendeiros suicidas aqui’, afirma, lembrando milhares de fazendeiros indianos que se mataram na última década por conta das dívidas. A revista também recebeu críticas por não dar atenção suficiente às pessoas nas fotos. ‘Eles não se preocuparam nem ao menos em identificar os modelos’, diz Kanika. Nas legendas, a Vogue coloca os nomes das marcas dos acessórios, e diz que são usados por ‘um homem’ ou ‘uma mulher’. Informações de Heather Timmons [The New York Times, 1/9/08].

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