Quarta-feira, 20 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

IMPRENSA EM QUESTãO > VIOLÊNCIA URBANA

Wesley temia os tiros; morreu com o lápis na mão

Por Alberto Dines em 20/07/2010 na edição 599





Clima de férias na imprensa neste fim de semana. Jornalões e
revistinhas circularam por obrigação, páginas e cadernos preenchidos
burocraticamente com material de gaveta. Até a disputa eleitoral ficou insossa e
o assassinato de Eliza Samúdio convertido em rotina.

Culpa do frio no
sudeste (onde são editados os três diários ditos nacionais), mas pode ser
ressaca de uma Copa estressante terminada na semana anterior. Única emoção
naquele monte de páginas, mas suficiente para enternecer corações e mentes
brutalizadas pelo noticiário de crimes hediondos e chacinas contínuas: a
primeira página do Globo no sábado (16/7) devolveu ao nosso jornalismo
impresso sua capacidade de emocionar.

Bicho-papão


Um dia antes, rádios, telejornais e portais noticiaram a morte na Zona Norte
do Rio de um menino de onze anos atingido no peito por uma bala perdida em plena
sala de aula. Não foi a primeira criança morta na Batalha do Rio, mas esta
jamais será esquecida porque o repórter Sérgio Ramalho não apenas deu-lhe um
nome (Wesley Gilbert Rodrigues de Andrade), mostrou sua foto com a camisa do São
Paulo (do qual era torcedor) e flagrou-o respondendo a uma recente enquete do
próprio jornal sobre o bicho-papão que mais temia na comunidade. Resposta
premonitória de Wesley: ‘os tiros’.


Título da primeira página: ‘Pesadelo virou realidade’; embaixo, com a tosca
caligrafia do menino, a pergunta e a comovente resposta. Enquanto o grosso da
imprensa contenta-se com frias e distantes estatísticas, o repórter de O
Globo
tirou a vítima do anonimato, deu-lhe vida apesar de morto e comoveu o
país. Wesley morreu com um lápis na mão na aula de matemática enquanto policiais
e traficantes enfrentavam-se numa batalha campal a poucos metros de distância.


A série de reportagens ‘O x da questão’ que foi à escola de Wesley já foi
citada neste Observatório porque os repórteres foram a outras escolas e
numa delas, onde estudou Fernando Beira-Mar, descobriram que apenas o
arqui-criminoso enveredou pela senda do crime; todos os seus ex-colegas são
honrados cidadãos. Com repórteres sensíveis, comprometidos com a tarefa de
contar histórias e editores capazes de se emocionar com o cotidiano, a imprensa
não precisa temer a internet.


 


***


Comentário de Alberto Dines no editorial do programa Observatório da
Imprensa
na TV nº 549, exibido em 8/6/2010:


Enquanto a mídia se resigna diante da hegemonia das maquinetas da internet,
os bons jornalistas mostram que a grande reportagem está viva e continua
imbatível. O Globo mostrou isso no domingo (6/6) ao final de uma série
denominada ‘O x da questão’, quando o repórter Antônio Werneck foi à escola
pública onde estudou o criminoso Fernandinho Beira-Mar e levantou a história de
22 ex-coleguinhas do traficante: nenhum virou bandido. Quando a internet
produzir este tipo de jornalismo então, sim, ela poderá ameaçar os
impressos.

Todos os comentários

  1. Comentou em 21/07/2010 Carlos N Mendes

    Na banalização do banalíssimo, a Batalha do Rio aparece como um dos nossos ícones máximos. Chegamos ao ponto que o Jornal Nacional dá os nomes dos envolvidos depois de cada massacre, seus chefes, a motivação e a contagem de mortos, tudo em 30 segundos. Parece que estamos falando daquelas guerras civis dos rincões africanos. Wesley morto do jeito que foi parece que trouxe algumas pessoas à realidade. Matamos a empatia – reagimos à emoção do jornal, não ao fato em si. Alguém lembra do massacre da Baixada Fluminense, onde 30 (trinta!) pessoas foram mortas EM UM ÚNICO DIA? Não, porque foi noticiada de forma tosca na época, como se aquelas pessoas merecessem morrer. Precisamos mudar nosso jeito de encarar a violência no Brasil – ou vamos ficar pulando de Wesley em Wesley.

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