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Sábado, 18 de Agosto de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1000
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IMPRENSA EM QUESTãO > ENTREVISTA / DANIEL ELLSBERG

Wikileaks aproximou guerras distantes

Por Cristina Fibe, de Nova York em 10/08/2010 na edição 602

Quarenta anos antes de mais de 90 mil documentos com segredos da Guerra do Afeganistão vazarem por meio do site WikiLeaks (no último dia 25), o ex-analista militar Daniel Ellsberg gastou horas em uma máquina de xerox para copiar 7.000 papéis que mudariam a visão dos americanos sobre a Guerra do Vietnã (1959-75).

Responsável pelos chamados Papéis do Pentágono, vazados em 1971 e causadores de crise no governo Richard Nixon, Ellsberg, aos 79 anos, diz que a comparação com o caso WikiLeaks é ‘inevitável’.

Em entrevista à Folha, ele pondera que os documentos por ele divulgados vinham do ‘alto escalão’ e traziam ‘mais surpresas’ sobre o papel dos EUA no Vietnã.

Mesmo assim, considera o militar Bradley Manning, principal suspeito de passar as informações ao WikiLeaks, um ‘herói’.

Leia abaixo os principais trechos da entrevista.

***

O que os Papéis do Pentágono têm em comum com os papéis obtidos pelo WikiLeaks?

Daniel Ellsberg – Essa é a primeira divulgação não autorizada em 40 anos que tem a escala dos Papéis do Pentágono. E é ainda maior. Graças às novas tecnologias, tem quase 100 mil páginas. Não houve nada assim entre os dois [vazamentos] -então a comparação é inevitável.

Ambos descrevem guerras muito parecidas, em que o aumento do número de soldados, como o que o presidente Obama ordenou em dezembro, é acompanhado pelo aumento da força da oposição. […] Quanto mais soldados mandarmos, mais forte o outro lado ficará.

Essa é uma semelhança forte com o Vietnã.

E o que difere os dois vazamentos?

D.E. – [O atual] é, em sua maior parte, relatório de campo classificado como secreto, e os Papéis do Pentágono eram estimativas e análises de alto escalão, ‘top secret’. E, provavelmente, traziam mais surpresas, em termos de manobras do governo para enganar a população.

Já esse está confirmando muitas das críticas que já haviam sido feitas.

Há algumas revelações, como a crença de que o Paquistão ajudou o Taleban -que não estava tanto na consciência popular-, a quantidade de mortes de civis e o papel dos esquadrões de morte americanos.

O sr. já disse que a mentalidade de quem vazou os documentos do Afeganistão era muito parecida com a sua, há 39 anos. Por quê?

D.E. – Achei que deveria arriscar a minha liberdade assim como havia arriscado o meu corpo nas estradas do Vietnã anos antes, para encerrar o nosso envolvimento e parar a matança.

Bradley Manning, aparentemente, sentia o mesmo. Esteve no Iraque e estava preparado para passar a vida na prisão ou até ser executado.

Não vejo isso como algo extraordinário; me parece natural que alguém esteja disposto a correr o risco pela paz, pelo fim da matança.

E como os norte-americanos veem Manning?

D.E. – Eles estão ouvindo da mídia, repetidamente, que não houve revelações significativas – o que é muito enganador – e que [o vazamento] coloca em risco até os soldados -não vejo base para essa afirmação.

Então, boa parte [da população] foi levada a crer que ele fez algo irresponsável. Não estão vendo isso no contexto da irresponsabilidade daqueles que colocaram esses soldados sob risco no Afeganistão.

[A guerra] não foi claramente errada no começo, mas isso foi há nove anos. Continuar com ela, com todas as evidências de que é a nossa presença lá que está fortalecendo o Taleban, é inconsequente e irresponsável.

Como o vazamento mudou a visão dos americanos sobre a guerra no Afeganistão?

D.E. – A maioria acha que não deveríamos estar lá, mas isso não significa que os nossos líderes trarão os soldados de volta para casa.

Todo presidente, democrata ou republicano, teme ser acusado de abandonar uma guerra vencível. Bem, como [essa guerra] não é vencível, essa é uma avaliação irresponsável e burra.

Mas as acusações serão feitas, e os presidentes não gostam de enfrentá-las em campanhas eleitorais. Eles preferem mandar as pessoas para lá para matar e morrer, indefinidamente. Essa declaração que faço é dura, mas é baseada na experiência.

O Pentágono pediu, na última quinta, que o WikiLeaks devolva todos os documentos…

D.E. – Foi o que o Nixon mandou o New York Times fazer há 40 anos [com os Papéis do Pentágono]. Eles [do WikiLeaks] podem entregar os documentos eletrônicos, desde que os mantenham no site. O Pentágono pode acessá-los, aliás, como qualquer um.

Como a internet muda esse tipo de vazamento?

D.E. – Não seria possível divulgar esse volume de documentos no meu tempo, com a máquina de xerox que usei, assim como teria sido impossível fazer o que fiz dez anos antes, sem o xerox.

Essas mudanças tecnológicas permitem que haja mais transparência, permitem dividir com o público informações que ele deveria ter de qualquer forma.

***

Documentos revelaram textos do Vietnã

Os Papéis do Pentágono foram os documentos do Departamento da Defesa dos EUA vazados à imprensa em 1971 que revelaram uma série de omissões do governo na Guerra do Vietnã.

Os textos mostraram, entre outras coisas, que o governo Lyndon Johnson (1963-69) havia mentido à opinião pública e ao Congresso e expandido o conflito no Sudeste Asiático.

Os Papéis do Pentágono foram compilados a pedido do governo no final da década de 60, mas vieram à tona já na Presidência de Richard Nixon (1969-74).

Cerca de 7.000 páginas de documentos foram reveladas, gerando um dos primeiros embates entre Washington e a imprensa.

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