Terça-feira, 15 de Outubro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1058
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INCLUSãO > Contra os preconceitos

Como a imprensa fala do autismo e dos autistas de maneira capacitista

Por Robson Fernando de Souza em 08/10/2019 na edição 1058

(Foto: Agência Brasil – Marcelo Camargo)

Aviso de conteúdo: este artigo menciona diversas formas de capacitismo, o que pode reativar traumas passados. Prossiga apenas se estiver seguro de que não sofrerá gatilhos psicológicos durante a leitura.

Infelizmente, é muito comum a mídia brasileira abordar o autismo, em suas diversas manifestações, assim como falar sobre nós, autistas, de maneira capacitista.

Quase todos os dias surgem notícias, reportagens ou artigos que insinuam ou falam explicitamente que nós, autistas, “sofremos” de uma “doença” ou “perturbação mental/neurológica”, que nos tratam como “coitados” ou “gênios sem maldade”, que divulgam casos de autistas vistos como “exemplos de superação” etc.

Convido você a saber, por meio deste artigo, de que formas esse capacitismo se manifesta nos portais de notícias, nas emissoras de rádio e TV e nas revistas e jornais. Compreenda também por que essa forma preconceituosa de a imprensa nos mencionar ou nos descrever reforça a discriminação e a exclusão contra autistas, naturaliza as barreiras sociais impostas a nós e legitima as tentativas de “consertar” nossos cérebros para forçar a adaptação à “normalidade” neurotípica.

Como o jornalismo brasileiro manifesta crenças capacitistas sobre o autismo e os potenciais e dificuldades dos autistas

Como relata a cartilha Falando em autismo: Como evitar o capacitismo e a psicofobia na mídia, escrita e publicada pela ONG Abraça, são bem diversas as maneiras pelas quais matérias jornalísticas e artigos de opinião promovem o capacitismo, juntamente com diversas crenças falsas contra nós e nossa diferença cerebral perante os neurotípicos, tais como:

– Chamar o autismo, incluindo tipos como a síndrome de Asperger, de “doença”, “patologia”, “mal”, “anormalidade” cerebral ou “perturbação” mental ou neurológica;

– Compará-lo a patologias verdadeiras e muito perigosas, como câncer, AIDS, diabetes e doenças neurodegenerativas;

– Dizer que ele seria causado por “defeito”, “erro” “problema” ou “anomalia” no DNA do autista;

– Dizer que as pessoas mencionadas no conteúdo “sofrem” de autismo ou, mais especificamente, da síndrome de Asperger, como se estivessem sendo afetadas por uma doença;

– Especular falsas causas ambientais, como desestruturação familiar, uso frequente de celulares e tablets por crianças pequenas e exposição de mães gestantes à poluição atmosférica;

– Focar exclusivamente, ou quase somente, nas características negativas de ser autista e omitir as positivas, o que dá à condição um aspecto de patologia que causaria sofrimento ao seu “portador” e deveria ser “curada”;

– Entrevistar apenas neurotípicos – geralmente mães e pais de autistas, professores que têm pelo menos um aluno neurodiverso e profissionais de saúde mental e neurológica que lidam com pacientes autistas -, ignorando a voz dos próprios “objetos” da matéria;

– Preferir a linguagem centrada na pessoa, que chama autistas de “pessoas com autismo”, “crianças portadoras de autismo”, “menino que sofre (sic) de autismo”, “moça com Asperger”, etc. Isso contribui para que a condição autista seja vista como algo “exterior” ao indivíduo, algo que ele “porta” e poderia “parar de portar” depois de ser “curado”, ao invés de um aspecto fundamental da sua identidade, personalidade e jeito de ser;

– Atribuir a atual estatística – há quatro vezes mais diagnósticos de autistas do gênero masculino que do gênero feminino – a uma suposta “natureza masculina” da condição, além de tratá-la como se fosse um dado relativo a toda população autista existente, incluindo pessoas sem diagnóstico;

– Estereotipar os autistas de maneiras negativas, como pessoas que “não têm empatia”, “não expressam suas emoções”, “têm surtos de ansiedade e raiva frequentes” e/ou “vivem no seu próprio mundo”; positivas, como “gênios”, “puros” e “sem maldade”; e/ou com descrições claramente excludentes, como “meninos brancos de classe média que adoram jogos de quebra-cabeças e ciências exatas”;

– Divulgar “casos de superação” em que o autista entrevistado teria “vencido” sua “doença” e alcançado um sucesso profissional comparável ao de neurotípicos competentes em suas vocações. Esse costume é conhecido como motivational porn (“pornô motivacional”) e dissemina a crença capacitista de que a pessoa precisaria “derrotar” seu corpo e/ou cérebro “deficientes”, e não ser libertada dos empecilhos impostos pela sociedade em que vive para ser feliz e realizada;

– Focar exclusivamente em crianças e, em alguns casos, adolescentes autistas, ignorando completamente a existência de neurodiversos adultos e sutilmente deixando a impressão de que, ao completar 18 anos, o autista desapareceria da existência ou se converteria automaticamente em neurotípico;

– Legitimar e apoiar símbolos atribuídos ao autismo que costumam desagradar os próprios autistas, como a cor azul, a peça de quebra-cabeça e o laço feito de pecinhas de quatro cores, ícones associados ao modelo médico do autismo, a discursos defensores da “cura autista” e a ONGs antiautismo, como a estadunidense Autism Speaks;

– Alegar que estaria havendo uma “grande alta” na incidência do autismo, como se algum fator externo estivesse fazendo crianças nascerem autistas ou “pegarem” a condição, quando, na verdade, a alta mesmo é do número de diagnósticos das condições do espectro;

– Dizer que o autismo “ainda/atualmente não tem cura” e, em casos de pesquisas científicas como a dos “minicérebros autistas”, falar de “esperança de cura”, como se a condição fosse uma patologia e devesse ser curada e extirpada da humanidade;

– Chamar características como stims e hiperfocos por substantivos pejorativos, como “estereotipias” e “obsessões”, e insinuar que elas, mesmo quando trazem muitos benefícios para o autista, deveriam ser “tratadas” para diminuir ou desaparecer, como se fossem
sintomas de uma doença. O mesmo acontece quando se referem aos meltdowns e shutdowns autísticos como “birras”;

– Insinuar ou explicitar a informação falsa de que os aspies levariam uma vida “normal”, similarmente aos neurotípicos, enquanto só os autistas clássicos (moderados ou severos) teriam deficiências consideráveis e lidariam com barreiras sociais;

– Dividir a população autista entre autistas de “alto funcionamento” e “baixo funcionamento”, uma tipificação que subestima os talentos e potenciais daquelas pessoas que precisam de maior suporte e as dificuldades e sofrimentos daquelas que necessitam de relativamente pouco apoio;

– Usar expressões como “autismo moral”, “autismo político” ou “atos autistas” para se referir a atitudes de intolerância, ignorância e fanatismo político-ideológico por parte de neurotípicos, assim como dizer que “o verdadeiro autista” não seria uma pessoa neurodiversa, mas sim um neurotípico adepto de muitos preconceitos e atitudes antiéticas.

Como o capacitismo jornalístico influencia a maioria da sociedade a manter seus preconceitos e olhares tortos contra os autistas

Todos esses deslizes de preconceito e desinformação, tão comuns desde os menores noticiários locais até os portais de grandes grupos empresariais de comunicação, são decisivos para fomentar, intencionalmente ou não, crenças capacitistas, rebaixantes e discriminatórias contra os autistas em na maioria da sociedade.

Afinal, matérias que trazem esse linguajar tão problemático e antiético influenciam os leitores neurotípicos, além daqueles que são autistas leves, mas ainda não sabem, a continuar acreditando, entre outros absurdos, que:

– Os autistas são pessoas “doentes” simplesmente por serem quem são – ou melhor, por “sofrerem de autismo” – e devem ser convertidas em neurotípicas por meio de uma futura “cura” ou “correção genética”;

– O problema real é ser autista e fugir dos padrões cerebrais e comportamentais neurotípicos, e não ser discriminado, maltratado e excluído parcial ou totalmente do convívio social em função de ser uma pessoa diferente;

– O que deve ser combatido e erradicado é o próprio autismo, e não a hostilidade intolerante com que a sociedade trata os autistas;

– Os autistas adultos não precisam ter suas necessidades específicas reconhecidas, respeitadas e atendidas. Ou, pior, a sociedade sequer precisa se lembrar de que nós existimos;

– O autismo é uma “doença” em epidemia e precisa ser “contido” e “derrotado” o quanto antes, de modo que “pare de atormentar” as famílias das crianças autistas e a sociedade como um todo;

– Quem deve ter sua voz ouvida e reconhecida são apenas os neurotípicos que convivem com os autistas, nunca os próprios, já que estes seriam incapazes de raciocinar, se expressar e abordar autonomamente suas demandas individuais, sociais e políticas;

– Os neurodiversos devem ser forçados a tratamentos de “correção” de suas características autísticas enquanto sua “cura definitiva” não for descoberta, anunciada e comercializada;

– Como o problema é a existência do autismo e ele precisa ser “resolvido” o mais depressa possível, tudo bem manter as cidades repletas de poluição sonora, visual, luminosa etc., desde que não incomode os neurotípicos; manter comportamentos discriminatórios e até violentos contra os colegas autistas da escola ou do trabalho; comparar o autismo com fanatismo político e falta de caráter; omitir-se perante as demandas sociais do movimento autista; menosprezar ou subestimar a nossa inteligência; empresas darem desculpas falsas para reprovar autistas em entrevistas de emprego etc.

Considerações finais

A maioria dos jornalistas que escrevem sobre autismo e autistas precisa urgentemente rever a forma como nos descrevem. Afinal, mesmo quando tenta conscientizar seus leitores neurotípicos, está nos fazendo muito mais mal do que bem.

Queremos, o quanto antes, que a imprensa brasileira entenda que seu serviço informativo não é positivo quando patologiza nossa estrutura cerebral, nossas peculiaridades, dificuldades e necessidades específicas.

Nem nos beneficia de verdade quando naturaliza ou, no máximo, questiona fracamente a forma pesadamente antiética como a maioria dos neurotípicos nos trata. Nem quando evita nos conceder o devido espaço para expormos nossos sonhos e demandas e mostrarmos ao mundo o que somos capazes de fazer graças ao espectro autista, não “apesar” dele.

Fica, então, a mensagem: o jornalismo tem a obrigação de combater preconceitos, não de reforçá-los. Com o capacitismo contra autistas, isso não deve ser diferente.

***

Robson Fernando de Souza é escritor e blogueiro, autista aspie defensor da neurodiversidade.

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