Quarta-feira, 19 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
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INTERESSE PúBLICO > ENTREVISTA / ALAN FISCHLER

“Qualidade é sinônimo de investimento”

Por Miriam Aquino em 28/02/2012 na edição 683
Reproduzido do Tele Síntese, 24/2/2012

O gerente de Tecnologia da Informação e Comunicação do BNDES, Alan Fischler, acredita que a nova política industrial implementada pelo governo, de atração de fábricas e desenvolvimento tecnológico para o Brasil, irá gerar aumento de financiamento do BNDES principalmente para as redes de celular, que hoje contam apenas com produtos importados, que não são financiados pelo banco. Ele constata, porém, que no Brasil há uma inversão de valores por parte das empresas, que primeiro atraem mais clientes antes de realizarem os investimentos, comprometendo a qualidade do serviço.

Qual a sua avaliação sobre o desempenho do setor de telecomunicações em 2011?

Alan Fischler– Melhorou bastante. Há dez anos, quando se fazia um business plan, imaginava-se penetração de 40%, o que já seria um absurdo. Hoje, ultrapassou a casa dos 100%. O problema é que este grande contingente cada vez usa menos o celular. As pessoas têm vários chips de diferentes operadoras, para aproveitar as promoções. Hoje, as pessoas perguntam o seu número e a operadora, já que não existe mais o número vinculado à empresa.

Mas você não acha que este comportamento foi provocado pela altíssima tarifa de rede (VU-M) das celulares?

A.F. – Sim, sem dúvida. As ligaçõesintraredes, muito mais baratas, fazem com que as pessoas potencializem isto. E o resultado é um Arpu (conta média) que tende a diminuir. O Arpu de voz tende a baixar e o de dados tende a subir. Mas dados canibalizam a receita da voz, porque as pessoas começam a usar tudo IP.

Ao estimularem a comunicação de dados as operadoras em todo o mundo não conseguem repetir as receitas de voz. E no Brasil, a comunicação de dados começou forte somente há dois anos.

A.F. – Aqui começamos mais atrasados. Mas é inexorável. No futuro (o difícil é dizer que futuro é este, se dois ou cinco anos), vai ser só dados. Dados em 5G. Na verdade, o LTE é um pouco isto, mas ele ainda usa a portadora de voz para a 3G e a 2G.

Você acha que as empresas terão fôlego para os investimentos que precisarão ser feitos?

A.F. – Esta é a questão. Agora, há um impulso grande na venda de dados, com preços bem menores. O ideal em telecomunicações é que se invista antes. Mas no Brasil, as operadoras colocam clientes antes e depois correm atrás. A qualidade de nossa rede está potencialmente comprometida. Quem usa 3G hoje sabe que está difícil. Está difícil porque colocou-se muita gente na rede em muito pouco tempo e os investimentos não foram proporcionais. Podemos ver estratégias diferentes entre as operadoras, mas todas estão atrás, com problemas. Mesmo na voz, que era para se ter um serviço com mais estabilidade, percebe-se as cidades cheias de sombras, cheias de descontinuidade.

Um dos argumentos que o Sinditelebrasil usa para defender as empresas é que está cada dia mais difícil instalar antenas e Erbs no Brasil, devido ao grande número de leis municipais, que tornam praticamente impossível instalar sites.

A.F. – E é verdade. E o pior é que sem poder aumentar o número de antenas, acaba-se tendo que aumentar a potência, o que teoricamente faz mais mal do que se colocar mais antenas, pois é a potência do telefone que está na orelha que tende a aumentar. Quem acredita que faz mal fica pior sem antena.

No ano passado, com o anúncio do empréstimo da GVT, o BNDES deve ter emprestado cerca de R$ 3 bilhões ao setor. E para a 4G, já começaram as conversas?

A.F. – Temos sempre a briga para trazer a fabricação para Brasil. É isso que nos importa. Nós só financiamos o nacional. Hoje em dia quem produz no Brasil é Ericsson. As outras fábricas sempre dizem que vão voltar, mas de fato não estão presentes.

Com a nova postura da Anatel, que está condicionando a venda de frequência (como a 2,5 GHz) à produção local. Você não acha que muda a realidade?

A.F. – Primeiro, é preciso que a Anatel conclua o processo, que ainda está em consulta pública. Mas acho que as empresas tendem a voltar sim, se bem que eles fazem as contas delas. Acho que voltam e o potencial de financiamento do banco é maior. Nas celulares, principalmente, nosso potencial de financiamento é relativamente pequeno, tendo em vista que quase tudo é importado.

Com a política industrial do governo, o BNDES está pensando em mudar alguma coisa em sua análise para a concessão dos empréstimos?

A.F. – Há toda uma discussão no governo em torno da Portaria 950 do Ministério da Ciência e Tecnologia e Inovação. Sobre o que é tecnologia nacional, o que é desenvolvido aqui e o que não é. Com a política de atração de vários centros de pesquisa e desenvolvimento dos grandes fabricantes no Brasil, existe ainda a dificuldade de ninguém desenvolver integralmente em um único lugar, e esta legislação vai evoluir. O problema é a calibragem. Como se considera o que foi desenvolvido no país tem adensamento suficiente para ser considerado nacional. Isto vai ter que evoluir. Não é um problema simples, pois se se errar na dose, é a diferença entre o remédio e o veneno. Não é simples saber o que é relevante e o que é maquiagem. Mas é um desafio importante.

Você acha que esta definição sai ainda este ano?

A.F. – Estamos no início do ano, acho que sim.

Em relação à TV digital, a iniciativa do BNDES de financiar a migração das emissoras não deu muito certo, não?

A.F. – Vamos tomar cuidado com esta afirmação. Nós já sabíamos que a demanda não ia ser tão grande, porque é um setor pouco acostumado com o formalismo que o BNDES e qualquer outro órgão deste tipo exigem.

Não houve qualquer projeto apresentado?

A.F. – Aprovamos pelo menos uns 10 projetos. Mas em termos de dinheiro não foi tão relevante porque, no início, o processo começou pelas grandes capitais, que só usam equipamentos importados por causa da potência. À medida que a digitalização vai chegando em cidades menores, já existe equipamento nacional, e então o BNDES pode financiar. O banco chegou a financiar equipamento de estúdio importado sem similar nacional, mas o de transmissão, não, só nacional. Sabíamos que a primeira leva nas capitais, só haveria equipamento importado. Algumas afiliadas da Globo e o SBT já financiaram. Outro problema é que também neste segmento os fabricantes nacionais sumiram e só restou um fabricante mais relevante. Os estrangeiros começam a vir para o Brasil, com o aumento em volume de unidades. Esse ambiente de mídia é complexo pois há a cabeça de rede, mas lá no município existe apenas um retransmissor, às vezes a prefeitura que cedeu o teto do prédio para botar uma antena e pronto, não há uma empresa por trás e é difícil financiar o que não é empresa.

E a ideia de acelerar o processo de digitalização, conforme pretende o ministro Paulo Bernardo? O BNDES vai se engajar de alguma forma?

A.F. – Sim, o banco continua com a linha de financiamento disponível e está conversando com outras instituições para facilitar este processo. Mas sabemos que se vai esbarrar no problema dos municípios pequenos, onde a informalidade é enorme.

E as TVs públicas?

A.F. – Bom, a EBC tinha o projeto de fazer uma rede única, depois ele foi mudado para a participação da Telebras. Mas acho que ainda não está definida a configuração desta rede.

Em relação ao leilão da 450/4G, o BNDES vai ter uma linha de financiamento específica, pelo menos para as cidades da Copa?

A.F. – Para as cidades da Copa, já temos uma linha própria. Para os estádios, hotéis e entorno.

Em relação a banda larga, como você está vendo o desenvolvimento da rede de fibra óptica no Brasil?

A.F. – O problema aqui é que são vários Brasis. E esse Brasil da demanda de 100 Mbps (da fibra óptica), tem que ser suficiente para sustentar o modelo de negócios. Enquanto ele não sustentar o investimento, ele não vai acontecer. Mais gente assina 100 Mbps na Suécia do que no Brasil inteiro.

Vamos dizer que nas 400 cidades onde há competição (e mercado), quando se terá 100 Mbps em casa? Em 10 anos?

A.F. – O problema é quanto as pessoas dessas 400 cidades estão dispostas a pagar por isto. Para se ter esta velocidade em dois anos, não há problema técnico, mas sim de investimento. Só que este investimento tem que dar retorno. Hoje, 10 mega me custa R$ 100, mas eu pagaria R$ 300 por 100 Mbps? Não sei. Acho que não gostaria de dobrar a minha conta, pois não vejo aplicação para tanto.

Mas porque no Brasil custa R$ 300, e na Suécia US$ 30?

A.F. – Primeiro porque o Brasil é geograficamente muito maior. O investimento em si, é mais caro porque há mais imposto. O serviço é mais caro porque tem mais impostos e mais custos. E o custo Brasil é maior. No mundo, telecomunicações viraram uma commoditie e afetam um percentual baixo da renda das pessoas. No Brasil, a renda é menor e o percentual é muito maior. O sueco também não compraria 100 Mbps se custasse 20% de sua renda.

Como sair desta encruzilhada?

A.F. – A solução é mais macro do que micro. O Brasil já caminhou muito e está caminhando. O fundamental é reduzir o custo Brasil. Há toda política atração investimentos, produção local, para que em 10 anos o nosso custo Brasil esteja menor. Estamos caminhando.

Você não acha que há um problema de gestão ou eficiência das empresas do setor?

A.F. – Acho que não. O país é complicado mesmo. A maioria as empresas que está aqui está também lá fora.

Mas o setor, enquanto não resolver o problema da qualidade, perde muito.

A.F. – Sim, mas qualidade é investimento. É o cachorro correndo atrás do rabo. Para oferecer a qualidade máxima é um custo altíssimo. Tecnicamente é fácil garantir a qualidade, a questão é investimento.

***

[Miriam Aquino, do portal Tele Síntese]

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