Segunda-feira, 20 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

INTERESSE PúBLICO > INCLUSÃO DIGITAL

O início, o fim e o meio digital

Por Marcelo Côrtes Neri em 31/07/2012 na edição 705
Reproduzido do Valor Econômico, 24/7/2012; intertítulos do OI

Tal como a célebre música de Raul Seixas que virou título de filme biográfico, a ênfase da inclusão digital não está no início, ou mesmo no fim, mas está no meio. O início é o conteúdo a ser acessado nas tecnologias de informação e comunicação (TICs). O fim se refere a objetivos diversos associados ao uso das TICs, como educação, trabalho e lazer entre outros. Se conteúdo está associado ao “o que?” e o objetivo está associado ao “para que?”, o meio se refere ao “como?”

O “como” envolve várias questões, começando pelo tipo de dispositivo utilizado, por exemplo computador ou telefone. Ou ainda telefonia fixa ou móvel e assim por diante. Os conceitos de conectividade e convergência estão associados ao “como”. Conectividade significa acessar as TICs a partir de diferentes lugares. A mobilidade espacial proporcionada por acessos remotos sem fio (celular, 3G, 4G e Wi Fi) está na base da revolução recente nesta área. Convergência permite o acesso a diferentes serviços no limite de um mesmo dispositivo (device) tais como computador, celular, palm tops, console de videogame etc. Se convergência significa unificar dispositivos de acesso, conectividade significa multiplicar lugares de acesso. A união harmoniosa dos vetores conectividade e convergência guarda a promessa de reduzir custos e ampliar possibilidades espaciais de realização de nossas atividades cotidianas.

Tratamos aqui menos da discussão de como prover o acesso digital e mais da questão mais terrena de como desenhar indicadores para medição do seu progresso e percalços. O último dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODMs) da ONU incorpora indicadores de conectividade. Entretanto, temos dado pouca importância aos mesmos. À medida que se aproxima 2015, data final do compromisso do milênio fixado pela ONU, voltamos à discussão das metas a serem perseguidas.

Cobertura chega a 85,7%

Participo de comissão internacional e de seminários em Paris, Seul, Pequim, Pretória, Mumbai, finalizando com um organizado e sediado por nós no Rio de Janeiro em torno da fixação de novos objetivos do milênio (Post-2015 Targets). A proposta hoje em discussão prevê a ampliação desses objetivos de oito para 12. A incorporação efetiva de indicadores no âmbito dos compromissos do milênio talvez seja a maneira mais efetiva de transformá-lo numa meta de governos, não só nacionais como locais, setor privado e sociedade. Buscando subsidiar esse debate, lançamos uma série de estudos sobre conectividade numa parceria entre o Centro de Políticas Sociais da Fundação Getulio Vargas e a Fundação Telefonica/Vivo e alguns novos pontos estão aqui sintetizados. Vide o estudo anterior em www.fgv.br/cps/telefonica

No âmbito da inclusão digital, nas medições e nas discussões de política de acesso à internet temos conferido ênfase exagerada ao computador e pouca aos celulares, que é uma tecnologia mais intuitiva e difundida no Brasil e no mundo. Aqui a taxa de cobertura de domicílios com celular é 87% contra 43,34% da telefonia fixa e 40% de computador com internet. Na média mundial esses respectivos números são 79,96% contra 43,34% e 36,29%, respectivamente. Estudos têm captado efeito positivo da telefonia e serviços associados em forte difusão por meio do celular sobre o crescimento econômico.

Na hora de se traçar metas de telefonia, a forma fixa ou móvel não deveria importar. O acesso à telefonia fixa caiu em oito anos 14,2% enquanto a móvel aumentou 165%. O uso domiciliar dos dois tipos de telefonia subiu 66,9%. Agora o uso de uma das duas tecnologias sobe 48,8%. Em números absolutos, a telefonia fixa e móvel atinge a cobertura de 38,7% enquanto a cobertura de tecnologia fixa ou móvel chega a 85,7%.

Uso individual de internet tem crescido

Uma outra questão relevante se refere à unidade de medição: domicílios ou indivíduos. Apesar de usarmos o termo computador pessoal (PC de personal computer), o que é realmente pessoal é o uso do celular. O telefone fixo e o computador, em particular os desktops, estão mais associados a ativos familiares. Outra clivagem relevante é aquela existente entre cobertura e uso efetivo das tecnologias. Nas estatísticas domiciliares se socializa um suposto uso pleno do ativo entre os vários membros de cada domicílio.

De maneira geral as bases de dados internacionais e domésticas têm enfatizado o acesso domiciliar e não o uso individual efetivo, que seria mais relevante. Esse ponto importa para questões ligadas à desigualdade digital como gênero e idade, por exemplo. No gênero o acesso domiciliar é 2,9% favorável a elas, mas no conceito de uso individual efetivo é 4,1% favorável a eles.

O uso individual de internet tem crescido à taxa de 8,8% ao ano. O objetivo da conexão à internet, independente do dispositivo de acesso, são diversos indo desde atividades mais frequentes associadas à comunicação (37,3%), lazer (29,6%), leitura de jornais e revistas e busca de informações (28,7%), educação e aprendizado (28,1%). Além disso, há alguns usos mais específicos como comércio eletrônico (8,1%), governo eletrônico (8%) e transações financeiras (7%).

***

[Marcelo Côrtes Neri, economista-chefe do Centro de Políticas Sociais da Fundação Getulio Vargas e professor da EPGE/FGV. Autor de A Nova Classe Média (Editora Saraiva), Microcrédito: o Mistério Nordestino e o Grameen Brasileiro (FGV) e Cobertura Previdenciária: Diagnósticos e Propostas (MPS)]

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