Sábado, 16 de Fevereiro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1024
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Do nada ao lugar nenhum

Por Mécia Menescal em 28/05/2013 na edição 748

As novas diretrizes curriculares para o curso de Comunicação Social não levam a direção alguma. Elaboradas em 2009 por uma comissão de especialistas e com contribuições da sociedade civil organizada, as novas diretrizes, aprovadas em fevereiro deste ano pelo Conselho Nacional de Educação (MEC), são superficiais, mesmo que para um documento de natureza generalista.

Aguardada por todos os seguimentos que atuam com a área da comunicação, já que as últimas orientações para curso datavam de 2001, a grande polêmica da proposta apresentada foi sobre a independência do curso de Jornalismo da área maior, a Comunicação Social. Para os especialistas, a integração resultou em consequências prejudiciais para a formação universitária da profissão, já que as disciplinas teóricas do currículo mínimo de 2001 abandonaram as referências fundamentais para a prática do jornalismo. Já os contrários acreditam que esta perspectiva separatista impossibilita um comunicador polivalente e resume-se a uma visão singularizante sobre o todo.

Porém, esta discussão torna-se menor quando analisada a proposta para a formação do futuro jornalista, já que este, sim, é um tema de maior relevância para a sociedade, público primário do exercício da profissão. Apesar de demonstrar preocupação para que o formando apreenda conhecimentos específicos do jornalismo, e que estes sejam direcionados à sociedade, o documento do Ministério da Educação não traz em sua proposta as bases para que isto ocorra efetivamente, mesmo que considerando a autonomia curricular de cada universidade.

O modelo curricular da Unesco

O documento resume-se a indicar seis eixos de formação com fundamentação: humanística, específica e contextual; formação profissional; aplicação processual e prática laboratorial. E onde foi parar a orientação social?

Muito além de tecnicista em textos, o jornalista tem como linha ética-profissional fiscalizar o exercício dos poderes constituintes, relatar imparcialmente os fatos, estimular o debate e a manutenção democrática, denunciar transgressões aos direitos humanos, zelar pela liberdade de imprensa e expressão, contribuir com o desenvolvimento político, cultural e social etc. São tantas as funções sociais promovidas pela imprensa que esta foi denominada como o “quarto poder”, os olhos, ouvidos e voz da sociedade. Entretanto, a importância desta missão não consta nas diretrizes curriculares elaboradas.

A Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) teve a mesma iniciativa entre 2007 e 2009 e elaborou um modelo curricular para o ensino do jornalismo. Nele, estão as contribuições de especialistas e professores de países da África, Ásia, Europa, Oriente Médio e Américas do Norte e do Sul, com experiência de trabalho em países em desenvolvimento e/ou democracias emergentes. Finalizado em 2007 no 1º Congresso Mundial de Ensino de Jornalismo realizado em Cingapura, o trabalho resultou em eixos centrais, 17 disciplinas fundamentais, plano de aula para cada uma, referencias bibliográficas básicas e complementares tanto para o professor quanto para o aluno.

Faltouaprofundamento

Na proposta, há modelos de currículos para a graduação de Jornalismo semelhantes em sua estrutura, porém distintos no período de formação, que vai de dois a quatro anos. Apesar da quantidade de matérias, apenas três dão um breve direcionamento ao foco social: Mídia e Sociedade, Fundamentos do jornalismo e Ética. Não que o modelo da Unesco deva ser o utilizado pelo Brasil, até porque não se espera a incorporação de modelos prontos, como ressaltaram ainda na década de 1970, os pesquisadores Luiz Gonzaga Motta e Ubirajara da Silva:

“É, pois, a partir da cultura brasileira que se deve repensar a comunicação no Brasil. Não se trata apenas de uma substituição de conteúdos. É preciso impregnar a legislação, a organização do trabalho, a formação profissional, a crítica e até mesmo adequar a tecnologia profissional de comunicação às especificidades da cultura brasileira e às lições de resistência da cultura popular” (MOTTA e, Da Silva p.206).

Entretanto, careceu no documento elaborado em 2009 – depois de longos anos guiados por um currículo mínimo tecnicista e superficial, – um aprofundamento para que, pelo menos nas diretrizes, o currículo do curso de jornalismo tivesse a qualidade esperada e, quiçá, bons profissionais para servir à sociedade.

Referências bibliográficas

>> HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.

>> Luiz Gonzaga Motta e Ubirajara da Silva. “Crítica das políticas de comunicação: entre o Estado, a empresa e o povo”. In Comunicação de Massa: o impasse brasileiro. Por R.A. Amaral Vieira (org.). Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1978.In: RAMOS, Murilo César. As Políticas Nacionais de Comunicação e a Crise dos Paradigmas. In L'Amérique et les Amériques. Por Jacques Zylberberg e François Demérs (Orgs.), pp. 136-149. Saint-Foy (Québec): Les Presses de L'Université Laval, 1992. Disponível aqui.

>> A função pública do jornalista: da imparcialidade à coesão social – Mariano Ure

>> Associação Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo (SBPJor)

>> Associação Nacional dos Programas de Pós-Graduação em Comunicação (Compós)

>> Curso de Comunicação Social no Brasil: do Currículo Mínimo às novas Diretrizes Curriculares

>> Direito à Comunicação

>> Enecos

>> Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj)

>> Fórum Nacional de Professores de Jornalismo (FNPJ)

>> Observatório da ImprensaComissão propõe novas diretrizes

>> Observatório da ImprensaDiretrizes não alteram modo de fazer jornalismo

>> Observatório da ImprensaO que podemos esperar das novas diretrizes

>> Observatório da ImprensaA Renoi e as Diretrizes Curriculares

>> Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação (Intercom)

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Mécia Menescal é jornalista e especialista em Gestão da Comunicação

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