Sábado, 20 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1009
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Imprensa cercada

Por Sylvia Colombo em 18/02/2014 na edição 786

Apesar da estabilidade democrática, atingida pela maioria dos países (exceto Cuba) há ao menos 20 anos, a imprensa latino-americana segue ameaçada na região. Seus principais algozes são, por vezes, os próprios governos nacionais; por outros, a violência ligada ao crime organizado.

Relatório divulgado na semana passada pela organização Repórteres sem Fronteiras ressaltou os cinco jornalistas mortos em 2013 no Brasil, fazendo com que o país se transformasse no “mais mortal do hemisfério ocidental” para a atuação da imprensa.

A morte do cinegrafista Santiago Andrade, da TV Bandeirantes, soma-se a essa trágica estatística.

A violência é o principal problema no México, onde 45 jornalistas foram assassinados desde 2006, quando o governo iniciou uma ofensiva contra o narcotráfico. Sequestros e bombas em jornais, principalmente no norte do país, são comuns. A ONG Artículo 19, que compila esses dados e presta apoio a vítimas, recebe constantemente ameaças de ataques.

Apesar de ter melhorado seus índices desde o início do desmantelamento dos cartéis da droga, nos anos 1990, a Colômbia ainda é um país violento para o jornalismo, contabilizando quatro mortos desde 2010.

A ofensiva por meio de leis restritivas de controle à mídia e de estratégias de sufocamento econômico tem sido comum em alguns governos latino-americanos.

No Equador, o chargista Bonil é a mais nova vítima do assédio iniciado por Rafael Correa desde o princípio de sua gestão.

Bonil teve de retificar uma charge em que descrevia a busca realizada pela polícia na casa do jornalista Fernando Villavicencio, hoje autoexilado nos EUA. “O governo transformou a comunicação em bem público, e com isso se vê com liberdade para controlar tudo”, disse Bonil à Folha.

Correa, que já havia expropriado TVs e rádios, multado veículos e obrigado profissionais a buscar asilo político no exterior, logrou aprovar uma Lei de Comunicação (em vigor desde janeiro) que controla e regula a imprensa.

Na Venezuela, 11 jornais diários deixaram de circular e 21 ameaçam fazer o mesmo devido à falta de dólares para comprar insumos (papel e tinta). “Só temos papel até abril”, diz Miguel Otero, diretor do “El Nacional”, um dos principais do país.

A obtenção de dólares é regulada pelo governo, e os jornais acusam Nicolás Maduro de deliberadamente não liberar o recurso, dando continuidade à política de perseguição à imprensa iniciada por Hugo Chávez (1954-2013).

“Os jornais venezuelanos estão todos sob risco de desaparição”, diz à Folha o diretor da SIP (Sociedade Interamericana de Imprensa), Cláudio Paolillo.

Na Argentina, a gestão Cristina Kirchner leva às últimas consequências a aplicação da Lei de Mídia (aprovada pelo Congresso em 2009) e obriga o conglomerado “Clarín” a abrir mão de veículos. Além disso, promove um acordo verbal entre empresários para que não anunciem nos jornais opositores e faz uso discriminado da verba de propaganda oficial.

“O sufocamento econômico é a arma dos governos venezuelano, equatoriano e argentino, e é muito eficiente. É uma última ofensiva. Depois disso, esses governos partirão para cima da internet”, diz Paolillo.

Os governos dos três países argumentam que as leis regulatórias beneficiam a democratização dos meios de comunicação.

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Site é alternativa a jornais em El Salvador

A três semanas do segundo turno das eleições presidenciais, enquanto os jornais tradicionais salvadorenhos veiculam matérias amorfas sobre as campanhas dos candidatos ou exploram a história fantástica do náufrago José Salvador, o site “El Faro” (www.elfaro.net) traz entrevistas com líderes das gangues que ameaçam o fim da trégua que pacificou o país há dois anos.

Trata também de corrupção e questiona o governo e o Exército pela falta de transparência em atos recentes.

Há 15 anos no ar, o site, lido hoje por 300 mil pessoas ao mês e sem planos de partir para o papel impresso, coleciona também alguns êxitos editoriais.

O principal responsável por eles é o jornalista Óscar Martínez, 31, autor de “Los Migrantes que no Importan”, que narra o drama dos centro-americanos ilegais que rumam para os EUA.

Martínez é também o coordenador do projeto Sala Negra, seção do “El Faro” dedicada a projetos especiais sobre violência e temas centro-americanos, que traz ao mercado agora a coletânea “Crónicas Negras ““ Desde una Region que no Cuenta” (Aguilar).

O livro reúne longas reportagens produzidas pela equipe de cinco jornalistas e um fotógrafo comandados por Martínez.

“É um privilégio termos formado uma equipe especializada, que pode se dedicar apenas à investigação. Ganhamos isso com o tempo”, diz Martínez, em entrevista à Folha, por telefone.

O jornalista considera que a internet é fundamental em seu país para difundir um jornalismo de qualidade e que trate de temas que a imprensa tradicional não cobre. “Somos ainda um país que vive as consequências da guerra civil [1980-1992], nossa imprensa ainda é muito convencional, medrosa e reconhecidamente corrupta”, diz.

“Crónicas Negras” é parte de um projeto multimídia, que se desdobra no site e em documentários.

“Para mim é importante transformar o conteúdo em várias plataformas, pois muitos personagens de nossas crônicas são parte da sociedade que não tem acesso à internet”, diz.

Dos 7 milhões de habitantes de El Salvador, apenas 16% têm acesso à rede.

O índice, porém, é bem maior hoje do que quando o site começou, quando estava ao redor de 2%.

O “El Faro” surgiu em 1998, fundado por Jorge Simán, salvadorenho de origem palestina, e Carlos Dada, de origem grega. De início voltado para intelectuais e empresários progressistas que começavam a retornar ao país depois do período de violência, o site logo atingiu a crescente classe média de El Salvador.

Furos

Entre os principais furos do “El Faro” está a entrevista com o capitão Álvaro Saravia, um dos assassinos do monsenhor Óscar Romero, em 1980. Romero, que era muito querido pelos fiéis, foi morto enquanto celebrava uma missa em 24 de março de 1980. A revelação foi publicada em 2010, 30 anos depois do crime.

Mais recentemente, o site acompanhou os bastidores da trégua estabelecida entre as gangues urbanas e a participação do governo do presidente Maurício Funes (FMLN).

Em recente viagem pelos EUA para promover seu livro, Martínez disse que há muita dificuldade, ainda, de fazer com que os problemas da América Central toquem os norte-americanos. “As gangues que atuam aqui hoje nasceram lá, entre imigrantes que depois foram deportados. A ligação entre os dois países é profunda. Quando estou lá e digo isso, os editores não entendem, fazem que não é com eles”, diz Martínez.

Apesar do êxito editorial e da projeção internacional, “El Faro” não sobrevive apenas de publicidade. Depende também de doações de fundações, como a Open Society Foundations, de George Soros.

“Estamos buscando alternativas. Por ora, é o modo que encontramos para financiar nosso trabalho, mas o mercado está mudando e novas opções surgirão”, diz. (Sylvia Colombo)

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Imprensa da Venezuela corre risco, diz ANJ

A Associação Nacional de Jornalistas (ANJ) do Brasil e outras entidades sul-americanas publicaram uma nota conjunta em que criticam a situação da imprensa na Venezuela.

Para as associações, “a imprensa livre corre sério risco de desaparecer” no país, como mostra o fechamento de jornais por falta de papel e a “censura sofrida pelo canal internacional NTN 24” na cobertura de manifestações em Caracas.

Segundo a nota, o governo do presidente Nicolás Maduro hoje promove uma “cultura do segredo em prejuízo do povo”.

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Sylvia Colombo, da Folha de S.Paulo

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