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Terça-feira, 14 de Agosto de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº999
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INTERESSE PúBLICO > GOVERNANÇA DIGITAL

Um debate sobre quem controla a web

Por Sam Schechner e Ryan Knutson em 04/03/2014 na edição 788
Reproduzido do Valor Econômico, 25/2/2014; intertítulo do OI

As telefônicas dos Estados Unidos e Europa estão ampliando esforços numa batalha contra as empresas de tecnologia sobre a forma como o tráfego da internet é tratado, à medida que o apetite pela transmissão de dados por serviços da web cresce de forma acelerada.

Um grupo que representa as maiores telefônicas da Europa, incluindo a alemã Deutsche Telekom AG e a francesa Orange SA, luta contra disposições a um projeto de lei europeu cuja meta é impor a neutralidade da rede, um princípio pelo qual os provedores de internet não devem discriminar o tráfego com base em suas fontes.

“Tememos que, se a visão mais restritiva sobre a internet aberta prevalecer, haja uma redução significativa de escolha para os usuários”, diz Luigi Gambardella, presidente da Etno, uma entidade de classe cujos membros têm feito lobby antes de uma votação no Parlamento Europeu em antecipação à votação do projeto de lei. Executivos do setor de telecomunicações temem que algumas alterações à lei proposta paralisem os esforços para o lançamento de novos serviços.

Nos EUA, a tendência é que as telefônicas pressionem a FCC, a Comissão Federal de Comunicações, para que permita que elas cobrem de alguns sites pela transmissão de conteúdo com qualidade mais alta. O órgão regulador americano deverá propor novas regras este ano, depois que um tribunal federal de recursos em janeiro eliminou a maior parte das regras de neutralidade da rede da FCC.

O atrito entre empresas de tecnologia e telefônicas em ambos os lados do Atlântico está aumentando, à medida que elas discordam sobre como os custos e lucros envolvidos na vasta quantidade de dados que percorrem a rede em todo o mundo devem ser divididos.

Uma questão central na disputa sobre a neutralidade da rede é onde traçar a linha divisória entre a internet mais ampla e os serviços privados que as telefônicas oferecem.

“Mais brigas”

As empresas de telecomunicações defendem que elas deveriam ter a liberdade de destinar parte de sua infraestrutura à venda de serviços avançados, como vídeo de alta qualidade, para uma determinada tecnologia ou empresas de conteúdo. As empresas de telecomunicações afirmam que isso não significaria bloquear outros provedores.

Mas as empresas de tecnologia e grupos de defesa do consumidor afirmam que tais planos podem levar a uma internet de dois níveis, com alguns tipos de conteúdo disponíveis em alta velocidade, mas outros recebendo serviços mais lentos, caso os provedores não possam pagar.

“O Skype e outros aplicativos on-line têm enfrentado restrições de uso arbitrárias já há algum tempo”, diz Jean-Jacques Sahel, diretor de políticas da Microsoft Corp. para a Europa, Oriente Médio e África. A Microsoft é dona do Skype, aplicativo para comunicação via voz e vídeo pela web. “Para garantir que essas más práticas se encerrem e que a internet não se torne uma estrada de terra, precisamos de regras claras.”

Nos últimos anos, a indústria das telecomunicações tem pressionado para que as empresas que geram grandes quantidades de tráfego, como o YouTube, do Google Inc., paguem pelo direito de transmitir tráfego depois que cruzem um determinado limiar.

O Netflix Inc., empresa americana de aluguel e streaming de vídeos, fechou recentemente um acordo com a operadora de TV a cabo e provedora de internet Comcast Corp. no qual pagará para garantir que seu conteúdo seja transmitido sem problemas. O acordo permite que o Netflix se conecte diretamente com a rede da Comcast, sem intermediários.

O acordo com a Comcast, que não está sujeito às regras de neutralidade da rede, mostra que as operadoras estão ganhando poder em seus esforços para gerar nova receita com o crescente tráfego na internet.

Agora, a internet móvel está se tornando mais um ponto candente nesse debate. Nos EUA, a internet sem fio tem sido amplamente excluída das regras de neutralidade da rede porque sua largura de banda é mais limitada e as redes são mais frágeis. Mas a web móvel está se tornando mais importante. As regras propostas na Europa não distinguem a internet móvel e fixa.

O tráfego de dados sem fio está subindo rapidamente. No ano passado, o tráfego de dados pela internet móvel no mundo subiu 81%, para 18 vezes o tamanho da internet inteira em 2000, segundo a Cisco Systems Inc. Em 2018, a expectativa é que esse tráfego aumente em mais de dez vezes, informou a Cisco.

As grandes telefônicas globais começam a testar a oferta de serviços avançados de algumas provedoras de tecnologia e conteúdo. Nos EUA, a AT&T Inc. se tornou este ano a primeira telefônica a oferecer um serviço de dados patrocinado que permitiria que empresas de conteúdo paguem pelos dados consumidos por usuários de seus sites ou aplicativos móveis, embora nenhum grande gerador de conteúdo tenha se inscrito ainda.

Muitas pessoas na indústria acreditam que, apesar das batalhas, a internet de duas velocidades provavelmente se torne uma realidade.

“Veremos mais brigas”, diz David Heard, diretor do negócio de telefonia móvel da firma de testes de rede JDS Uniphase Corp. “Mas quando alguém está disposto a pagar por algo, como você vai impedir isso?” (Colaboraram Thomas Gryta e Frances Robinson)

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Sam Schechner e Ryan Knutson, do Wall Street Journal, de Barcelona

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