Segunda-feira, 15 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1008
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A metáfora das torneiras vazias

Por Ulisses Capozzoli em 21/10/2014 na edição 821

A pluralidade da Folha de S. Paulo é singular. Na edição de segunda-feira (20/10), a manchete da edição anunciou: “Maioria sofre falta d’água em SP e já planeja estocar”. Na quarta-feira (15/10) havia publicado, também como manchete: “Falta de água atinge todas as regiões de SP”. Mas o que a Folha não disse, nem vai dizer, é que é duplamente corresponsável por essa situação.

Primeiro por tomar partido ideológico, nesta e em outras eleições, sem explicitar claramente suas preferências aos leitores, o que a impede de ser um grande jornal. E, assim, ser tolerante em relação ao que deveria ter sido feito, e não foi, para evitar que a maior cidade do país ficasse refém de torneiras vazias. Segundo, por aniquilar com o jornalismo de cidades, aquele que acompanha, critica, denuncia e se bate pela qualidade da vida urbana, o espaço de convivência natural da espécie humana e, com isso, do desenvolvimento social.

A aniquilação da reportagem urbana e de outras áreas na Folha começou na segunda metade da década de 1980 e avançou para a seguinte com um jornalismo burocrático, castrador e sensacionalista, baseado em módulos: módulos 100, 200 e 300, que definiam, como numa fábrica de chapas, a extensão de um texto jornalístico.

Antes disso, uma brilhante equipe do Jornal da Tarde, com egressos de cursos de arquitetura, fez um criativo jornalismo de cidades, na república dos generais e, se não foi capaz de inibir obras grotescas, caso do odioso “Minhocão”, inibiu inúmeros outros abusos e descasos de serem consumados.

Torneiras secas, chiando como um animal moribundo, a cada vez que vamos tomar um banho, no início ou fim do dia, são uma situação inaceitável aos mais tolerantes dos espíritos. Numa cidadezinha de uns poucos milhares de almas, a uma comunidade média e especialmente em uma metrópole como São Paulo, que os paulistas orgulhosamente chamam de “a locomotiva do país”. Afinal, o Brasil se urbanizou nos anos 1970.

Flor seca

Aqui, gente de todas as regiões do país, e certamente de todas as partes do mundo, vive sob o mesmo céu e, agora, ouve o mesmo chiados das torneiras, o de um animal em agonia.

A locomotiva está sem água e com isso terá que desligar sua máquina propulsora. Quando isso vai acontecer e de que maneira vai ocorrer é algo que sugere a pura ficção científica, em um de seus vários subgêneros: as histórias de horror.

Quanto custará essa incompetência de um partido político, o PSDB, que está há duas décadas no poder e assim não tem como alegar que entrou num barco furado? Quanto custará, e já está custando, essa carência, em termos de bem-estar social? Os bairros centrais estão sentindo o drama agora. Mas ele ocorre já há meses nos bairros periféricos, destituídos de maior representatividade política. Quanto custará a falta de água nas torneiras ao PIB de uma cidade que traciona o país?

A oposição, velhaca como um oportunista de plantão, delicia-se em dizer que o PIB nacional está caindo, que a inflação está descontrolada e que o caos está no horizonte próximo, o que não é previsão. É puro alarmismo. É para ganhar no grito. Na postura senhorial. Mas, e a contribuição que está dando para a quebra do PIB da cidade, para ficamos em uma única referência econômica?

Em meio à criminalidade crescente e torneiras secando o governador atual foi eleito no primeiro turno das eleições, com vitória em todas as cidades do estado, menos uma: a rebelde Hortolândia.

Para onde foi a autoestima, que faz de cada um de nós, cidadãos? A resposta banal ? abastecida por generalidades da mídia, em que a Folha não está sozinha ? é que as pessoas querem “mudanças”. Mas a resposta do clamor por mudança são torneiras vazias. Esse é um fato, não uma especulação.

Se se tratasse de supérfluo, digamos água para piscinas, vá lá. Seria justificável. Mas água para o banho? Para se barbear? Para preparar o almoço e o jantar? Para o café da manhã? Para uma flor que seca num vaso?

Em bairros de classe média pessoas já tomam banho de canequinhas, cena típica de um Brasil rural. E estamos falando em mudança, em futuro?

Desculpas esfarrapadas

Se aceitarmos, coletivamente, a explicação de que a água que agora falta foi negada pelas nuvens, que não produziram as chuvas alimentadoras dos reservatórios, então chegaremos ao que se chamou recentemente de “o fim da história”, ainda que o sentido dessa expressão tenha sido outro.

Relatórios internos da própria Sabesp, a estatal responsável pelo abastecimento de água da capital, reconhecem, há anos, o descompasso entre a oferta e a demanda de água. E mesmo assim, segundo levantamentos do Ministério Público, explorou os estoques além do recomendável, e num momento de enorme incerteza.

A Sabesp distribuiu até 60% dos lucros durante a administração do governador recentemente reeleito, ainda que o estatuto social da empresa determine que os acionistas devem receber, no máximo, 25% do lucro líquido anual da empresa. Isso admitindo que uma empresa estatal de abastecimento de água deva, necessariamente, perseguir o lucro.

De qualquer maneira, duas décadas no poder não foram suficientes ao PSDB para preparar-se minimamente para enfrentar as mudanças climáticas em curso, resultado do processo de aquecimento global por gases de efeito-estufa. E os irresponsáveis não são eles. São os outros. Os outros é que mentem e enganam.

O governador se apossou do gesto de cidadania das pessoas que passaram a economizar água quando a situação começou a ficar evidente. Mas, nesse período, mesmo com a campanha de economia, o Palácio dos Bandeirantes, onde mora o governador, aumentou o consumo, segundo dados do jornal O Estado de S.Paulo.

A edição de sexta-feira (17/10) da Folha de S.Paulo trouxe como manchete da página C1 (caderno de Cotidiano): “Sabesp dará bônus a quem economizar menos de 20%”. Mas, na página seguinte, mais camuflada, a informação de que “com bônus, tarifa pode ter reajuste acima da inflação”. Isso significa que o governador, além de se apossar indevidamente do mérito pela redução do consumo, oferece com uma mão e retira com a outra: oferece o bônus, mas acompanhado de aumento nos preços na tarifa.

Leitores podem argumentar, com a irritação típica das vésperas do segundo turno dessas eleições, que o partido que ocupa o poder no Planalto Central, o PT, também tem telhado de vidro, no que têm completa e inteira razão. O PT traiu o país, ao fazer o que criticava nos demais. Assim, desapontou, irritou e está pagando por isso.

O PT se envolveu, por exemplo, com o mensalão. Mas o mensalão não começou em Minas Gerais, nos terreiros do candidato à Presidência pelo PSDB? Os membros do PT foram julgados e escorraçados publicamente. Muitos continuam presos. Se cometeram falcatruas, devem, de fato, pagar por isso. Mas o que aconteceu com os acusados do PSDB? Absolutamente nada.

Ao que tudo indica o que foi varrido para debaixo do tapete, deve continuar lá. Como se não fosse parte da realidade. Um ato de fazer inveja ao velho Mandrake.

O alerta de Minas

Talvez por isso o PSDB tenha tido uma frustrante derrota em Minas Gerais, onde seu candidato à Presidência, Aécio Neves, esperava colher cestos de louros. O governo do PT, com todas as suas falhas, ao menos trouxe das profundezas da miséria, para a base da sociedade, milhões de pessoas que agora se alimentam melhor, se vestem com mais dignidade, muitas tiveram acesso a uma moradia digna e outras à luz elétrica, por exemplo, deixando para trás um passado de trevas.

Na maior cidade do país e uma das megalópoles do planeta, no entanto, por falta de água, o que implica deterioração de saneamento e ameaça grave à saúde, retornamos a estágios sombrios da Idade Média.

Moradores de Campinas, na terça-feira (14/10), faziam filas para se abastecer em bicas d’água às margens de uma rodovia. Qual o significado de uma cena como essa para o futuro do país? Para a indignação das pessoas, demonstrada nos confrontos de junho? Para quem exige, justamente, mudanças?

A água, a título de uma consideração mais ampla, foi uma ocorrência precoce no Universo. E a razão disso está nos seus componentes, o hidrogênio (dois átomos) e oxigênio (um átomo) para formar uma molécula: o H20.

O hidrogênio, o mais leve dos elementos químicos, foi produzido pelo Big Bang, a explosão que criou (ou para alguns cosmólogo, recriou) o Universo, que pode ser eterno. Já o oxigênio foi elaborado pelas estrelas de grande massa e que, por isso mesmo, evoluíram muito rapidamente. A partir do mesmo hidrogênio elas produziram hélio, e daí carbono e então oxigênio.

Quando essas estrelas massivas explodiram, ao final de uma vida comparativamente curta ? ainda que isso signifique milhões, mas não bilhões, de anos ? liberaram oxigênio no espaço. Hidrogênio e oxigênio então se combinaram, e combinam ainda hoje, em certas regiões do céu, mesmo no Sol, para formar água.

A água, como toda criança sabe, é uma substância fundamental para a vida tal como a conhecemos na Terra e talvez não tenha sido pura coincidência que tenha aparecido tão precocemente no Universo. A maior parte da água da Terra, asseguram os astrofísicos, chegou aqui trazida por cometas, que se chocaram com a superfície do planeta numa época de grande bombardeio cósmico, na juventude do Sistema Solar.

O corpo de uma pessoa tem 60% de sua massa composta pela água e isso significa, de forma surpreendente, que parte de nosso corpo já foi, por exemplo, cometa no passado.

Além da gênese dessa substância fundamental, certamente faz sentido dizer que o Brasil tem os maiores estoques de água doce de todo o mundo: algo como 14% de toda a água doce da Terra, que um dia chegou aqui no corpo de cometas. Isso significa que, em água, somos os mais ricos de todo o mundo. Mas, ainda assim, na principal cidade do país, a aglomeração humana nacional mais numerosa e mais produtiva em termos absolutos, as torneiras estão miseravelmente vazias. E isso ocorre por falta de talento administrativo, não por carência de tempo para tomar providências para evitar essa situação. E, de fatos assim, jornais como a Folha de S.Paulo não falam.

Então, se o leitor estiver desejoso de mudanças, e elas de fato são necessárias, certamente é o caso de analisar, com cuidado, de onde elas têm a maior chance de vir. Caso contrário, talvez não tenhamos água para compor as lágrimas do nosso pranto.

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Ulisses Capozzoli é jornalista

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